Quase todo dia por volta das nove horas da noite a dona de casa Maria de Lourdes Antunes realiza uma
espécie de ritual pré-novelístico. Momentos antes de começar o mais nobre dos folhetins televisivos da Rede
Globo, Maria de Lourdes para o que estiver fazendo para ir ao quintal. Chega bem perto da cerca de madeira
que marca os limites de sua acanhada propriedade, fica na ponta dos pés, estica a cabeça e busca no horizonte
o sinal de que algum grande navio se aproxima. Se as luzes dos imensos cargueiros que levam as commodities
brasileiras mundo afora estiverem à vista, é certeza de que não poderá se esbaldar de rir com a atuação do
ator Marcelo Serrado na pele do mordomo Crô. “Não sei por que, mas quando os navios estão estacionando
aqui na frente de casa a TV vira um chuvisco só, não dá pra ver nada, e eu perco o Crô, é embaçado”, conta
ela.
Para Maria de Lourdes, navio estacionado na porta de casa está longe de ser uma figura de linguagem.
É que para ela e outras quase 6 mil pessoas que moram numa favela encravada no meio do Porto de Santos,
trata-se do que ocorre quando um imenso graneleiro atraca em um píer, distante menos de 50 metros de suas
janelas. Obrigados a lidar com as particularidades de se viver dentro do maior terminal marítimo da América
Latina, os moradores da favela Sítio Conceiçãozinha se acostumaram com uma série de exóticos eventos que
só ocorrem por lá. Ter o sinal da televisão afetado pelos poderosos sistemas de navegação dos mais de 5,7
mil navios que atracam todos os anos no Porto de Santos é apenas um dos mais simples deles.
Vista do alto, mais especificamente pelas lentes do satélite que abastece o sistema de mapas do Google,
é fácil entender porque a favela do Sítio Conceiçãozinha é uma aberração típica da mal ajambrada infraestrutura
brasileira. Nascida como uma vila de pescadores e sitiantes na virada do século passado, a área começou a
ser ocupada por migrantes ainda na década de 60. Nos anos 70, o Porto de Santos foi se expandindo para o
outro lado da margem, no Guarujá – onde está a favela – sem que houvesse qualquer preocupação com aquela
população. Terminais de carga foram construídos, píeres fincados a poucos metros de distância das casas, e
empresas foram se estabelecendo. Logo, mais pessoas vieram e o que era uma vila bucólica transformou-se,
a partir dos anos 80, num aglomerado de barracos, palafitas e vielas estreitas.
Muitos desses migrantes aproveitam o ambiente tão atípico para ganhar dinheiro. Com navios do mundo
todo atracados a poucos metros da margem, um intenso e curioso comércio entre os moradores e os
marinheiros floresceu. Por meio de baldinhos presos a cordas que descem do deque dos navios, uma gama
variada de produtos é oferecida aos visitantes: galinhas – vivas – a US$ 5, bananas por latas de Coca-Cola e
maconha e cocaína para navegantes em busca de diversão. Até cachorros, dizem alguns moradores, foram
vendidos para coreanos, saudosos de uma suposta comida caseira. “A gente achava que era pra eles criarem,
mas depois disseram que eles fizeram um churrasco com o coitado”, diz Elisabete Santos, que anda
desconfiada do carinho repentino que alguns vizinhos desenvolveram pelos cães da rua.
Disponível em: https://tinyurl.com/5n755s2y. Acesso em: 9 maio 2026.
No trecho “Logo, mais pessoas vieram e o que era uma vila bucólica transformou-se, a partir dos anos 80, num
aglomerado de barracos, palafitas e vielas estreitas”, o termo em negrito remete