O que nos distancia e nos faz ignorar que
somos uma só espécie? Como aceitamos
abismos sociais tão cruéis? Por que alguns
tanto têm e outros têm tão pouco?
Com essas perguntas rondando meus
pensamentos saí da padaria onde tomei o café
da manhã e rumei ao trabalho. A razão desses
questionamentos foi um jovem adolescente na
mesa ao lado da minha durante o desjejum.
Ainda que estivesse bem arrumado, cabelo
penteado, pelas roupas um tanto quanto velhas
e desajustadas, talvez de segunda mão e
ganhas de alguém, podia se perceber que era
um rapaz economicamente vulnerável, humilde.
Ele tinha na mesa uma xícara de café, como
eu, e um pão d’água provavelmente recheado
de presunto e queijo, não como eu com minha
salada de frutas, suco e um sanduíche de pão
ciabatta. Mas o que despertou a atenção sobre
aquela quase criança foi que, enquanto alguns
na padaria conversavam em suas mesas, todos
os demais aproveitavam para mexer no celular,
menos ele. Eu fazia parte dos que mexia.
Usava aquele momento para me atualizar nas
notícias locais e nacionais pelos sites a dedo
escolhidos. Enquanto isso, o rapaz comia o pão
e tomava o café, olhando para a mesa à sua
frente e para o vazio da parede adiante.
Ele estava constrangido, parecia não sentir
pertencer àquele lugar. E infelizmente o lugar
não parecia se importar com ele. Por que afinal
ele não fazia como todos e apanhava seu
celular e começava a dedilhar nele, mandando
mensagens de whatsapp, postando fotos no
facebook? Concluí que ele não tinha um
celular. Sua situação de pobreza não devia
permitir esse prazer. E isso o incomodava.
Diferente do que se pode esperar de adultos,
conscientes de seu lugar no mundo e seguros o
suficiente para sentarem-se sozinhos à mesa de qualquer lugar e desfrutar o momento
independentemente de um aparelho
tecnológico nas mãos, os adolescentes não
possuem ainda segurança, autoestima
consolidadas e mais do que os outros buscam
aceitação, mesmo que tentando ser diferentes.
Para aquele rapaz o fato de não ter com o que
se ater além da comida, num mundo onde as
redes tecnológicas estão presentes nos quatro
cantos, o fato de estar claro a todos que não
tinha um celular, isso o incomodava,
constrangia. E acabou por também me
constranger. Dia desses li um texto do grande
jurista e amigo Salah H. Khaled Jr, intitulado
“Justiça, liberdade e meritocracia: o que é fazer
a coisa certa?”. Em uma brilhante passagem,
ele afirma que:
“Temos que assumir a responsabilidade sobre
a forma com que as pessoas vivem. Não é uma
força da natureza que produz miséria, fome e
exclusão. Não é uma catástrofe que nega a
expansão da cidadania. Somos nós. São as
decisões que nós tomamos como sociedade,
sobre como escolhemos lidar com a falta de
oportunidade. Podemos simplesmente fingir
que não existe desigualdade, especialmente
quando as condições operam a nosso favor.”
Toda razão ao Salah. Que mundo difícil esse
que cria consumidores e não cidadãos. Que
mundo injusto esse que admite tantas pessoas
vivendo em condições desiguais e sem
oportunidades. Eu tive oportunidades. Não
precisei dar saltos triplos para superar a linha
da miséria e agarrar com todas as forças,
muitas vezes sem resultados, oportunidades
singulares, garimpadas em uma selva de
pedras. Eu tive pessoas que me incentivaram,
que me auxiliaram e me sustentaram em meu
crescimento e em minha educação, que não me
deixaram desistir de meus sonhos (ainda não
deixam).
Essas oportunidades me chegaram
gratuitamente, por sorte, porque nasci do lado
de cá da linha que separa o mundo de quem
tem alguma condição social e econômica boa,
que tem uma família que educa, protege e ama
[...]. Não sei quando alcançaremos uma sociedade livre, justa e solidária, como prevê
a Constituição Federal.
Não sei quando conseguiremos erradicar a
pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais, como prevê
a Constituição Federal. Não sei quando
concretizaremos o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação,
como prevê a Constituição Federal. O que sei é
que estamos longe desse mundo idealizado
pelo Constituinte de 1988. E precisamos
acreditar que ele é possível, que é importante
por ele trabalhar todos os dias de nossas vidas.
Naquele momento, ali na padaria ao lado
daquele jovem, o que eu pude fazer foi guardar
meu celular no bolso e, sem mais, tomar meu
café olhando para a mesa à minha frente e para
o vazio da parede adiante.
João Marcos Buch - Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais/ Corregedor do
Sistema Prisional da Comarca de Joinville/escritor.
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É um recurso utilizado pelo autor para
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