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Q699384 Português

Viver para postar

                                        Gregório Duduvier

    Amo fazer aniversário. Quando era pequeno (continuo pequeno, eu sei, mas nessa época era bem pequeno), lembro da frase mágica: "Hoje você pode fazer o que você quiser" – e o que eu queria era muita coisa. Queria o Tívoli Park, o chico cheese, o Parque da Mônica, tudo ao mesmo tempo. Sempre acabava optando pelo Tívoli Park – Pasárgada da minha infância, onde era feliz – e sabia.

    Hoje já não tem Tívoli Park – minha Pasárgada fechou depois de diversos casos de assalto dentro do trem-fantasma – mas a memória dessa liberdade plena e irrestrita volta sempre que faço aniversário. Por isso, não reclamem se esta coluna flertar com a autoajuda. Hoje esse é o meu Tívoli Park.

    Ser feliz é a melhor maneira de parecer um idiota completo. Para muita gente, a felicidade dos outros é um acinte. E não estou falando dos invejosos. Não consigo acreditar que existam invejosos de mim, para mim essa paranoia com a inveja alheia é delírio narcísico.

    Estou falando dos cronicamente insatisfeitos – esses sim existem, e são muitos. Experimenta dizer que está feliz. O olhar vai ser fulminante, assim como a resposta mental: "Como é que esse imbecil pode ser feliz num país desses, num calor desses, com um dólar desses?".

    Aprendi que reclamar do calor ou do dólar não reduz a temperatura nem o dólar. Aprendi que a lei de Murphy só existe pra quem acredita nela. E aprendi que reparar na felicidade te ajuda a reconhecê-la quando esbarrar com ela de novo – e acho que isso foi o mais importante.

    "A gente só reconhece a felicidade pelo barulhinho que ela faz quando vai embora", dizia o Jacques Prévert. Dificílimo reconhecer a felicidade quando ela ainda está no recinto. Caso reconheça, é fundamental fotografar, escrever, desenhar, filmar. Para isso servem nossos smartphones: para estocar os mais diversos tipos de felicidade em pixels, áudios e blocos de nota. Às vezes a necessidade de registro pode parecer uma fuga do presente, mas, pelo contrário, é a documentação da felicidade que estica o presente para a vida toda.

    Sempre que se depara com os melhores momentos da vida – e no caso dele isso acontece quase todo dia – meu padrasto exclama, com voz de barítono: "Felicidade é isso aqui". Aproveito para dizer: hoje faço 29 anos e estou irremediavelmente feliz. Desculpem todos. Vai passar. Mas enquanto isso, aproveito para exclamar, antes que passe: "Felicidade é isso aqui”.

Disponível em:http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/04/1615741-viver-parapostar.shtml Acesso em:7 set. 2016.

Vocabulário:

Tivoli Park foi um parque de diversões localizado no bairro da Lagoa, na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Funcionou de 1973 a 1995.

Todas as constatações abaixo podem ser feitas com base no texto, EXCETO:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a atribuição correta do ponto de vista no texto: a avaliação depreciativa pertence aos "cronicamente insatisfeitos", e não ao narrador; por isso, não se pode tomar essa fala como adesão do cronista.

Tema central: voz e ponto de vista
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa A é a correta da questão porque é a única que não pode ser constatada com base no texto. Ela afirma que o narrador reforça o pensamento dos que estão sempre insatisfeitos, mas o texto faz o contrário: expõe esse pensamento de modo crítico e irônico. O narrador identifica esse grupo como "os cronicamente insatisfeitos" e atribui a eles a reação mental agressiva contra quem diz estar feliz. Assim, a alternativa erra ao transferir para o narrador um juízo que o texto atribui a terceiros.
B
Certa
Está de acordo com o texto. O narrador afirma: "Para isso servem nossos smartphones: para estocar os mais diversos tipos de felicidade em pixels, áudios e blocos de nota." e completa: "Às vezes a necessidade de registro pode parecer uma fuga do presente, mas, pelo contrário, é a documentação da felicidade que estica o presente para a vida toda." A alternativa faz paráfrase fiel dessa valorização do smartphone como instrumento de registro dos momentos felizes.
C
Errada
A alternativa se sustenta por inferência contextual compatível com o texto. Quando o narrador diz "não reclamem se esta coluna flertar com a autoajuda" e, em seguida, desenvolve uma reflexão afirmativa sobre felicidade, ele sinaliza que esse tema pode soar incomum ou pouco esperado naquele espaço. A formulação "não se comenta na página" não é literal, mas a base autoriza essa leitura inferencial. Não há confronto direto com o texto, ao contrário do que ocorre em A.
D
Certa
Está de acordo com o texto. O trecho "Sempre que se depara com os melhores momentos da vida – e no caso dele isso acontece quase todo dia – meu padrasto exclama [...] "Felicidade é isso aqui"." mostra que o padrasto reconhece e nomeia a felicidade nas situações vividas. A alternativa apenas explicita essa caracterização.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre ironia e afirmação literal, levando o leitor a atribuir ao narrador a fala mental dos "cronicamente insatisfeitos".
Dica para questões semelhantes
  • Identifique sempre a quem pertence a avaliação expressa no trecho: narrador, personagem ou voz reproduzida no texto.
  • Quando houver frase forte no início do parágrafo, confira a explicação que vem depois antes de tomar a ideia como posição literal do autor.
  • Em questões com "EXCETO", elimine primeiro a alternativa que entra em conflito direto com o texto; inferências compatíveis continuam válidas mesmo sem reprodução literal.

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Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

GABARITO: letra A

 

Ao fazer essa afirmação, o autor apenas constata que esse é o pensamento daqueles que sempre estão insatisfeitos, mas não reforça esse pensamento. Na verdade o autor tenta enfraquecer esse pensamento ao longo do seu texto. Se a intenção do autor fosse reforçar esse pensamento, teria usado a palavra "ser" ao invés de "parecer", dizendo que "ser feliz é a melhor maneira de ser um idiota completo.". Ao usar a palavra "parecer", o autor sugere que aos olhos dos cronicamente insatisfeitos (e não aos seus olhos) uma pessoa feliz é um idiota completo.

Qual o erro da B? Aliás, o erro dela é que no texto não reforça o uso dos smartphones. Alguém pode me explicar ?

Questão deveria ser anulada. A alternativa B também está errada!

Acredito que o texto reforça sim a importância dos Smartphones. Vemos isso quando o autor diz que os Smartphones servem "para estocar os mais diversos tipos de felicidade", coisa que não seria possível fazer com a mesma praticidade se não tivessemos os Smartphones.

 

Se alguém puder explicar com clareza o motivo de achar que a letra B também está errada, desde já eu agradeço.

Questão estranha... lembrando aos colegas que a questão está pedido para marcar a ERRADA, ou seja, a que NÃO pode ser inferida do texto.

Para mim é letra C. Ele diz flertar com autoajuda no sentido que o texto do Gregorio é normalmente uma crônica e por isso pede desculpa caso ele flerte com a autoajuda (outro genero)... sendo um crônica ele pode abordar qualquer tipo de assunto, inclusive felicidade.

 

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