Analise as afirmativas sobre as reflexões do narrador do tex...

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Q2824509 Português

Atenção: Nesta prova, considera-se uso correto da Língua Portuguesa o que está de acordo com a norma padrão escrita.


Leia o texto a seguir para responder às próximas 3 (três) questões.


Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio


Estou deitado na margem. Dois barcos, presos a um tronco de salgueiro cortado em remotos tempos, oscilam ao jeito do vento, não da corrente, que é macia, vagarosa, quase invisível. A paisagem em frente, conheço-a. Por uma aberta entre as árvores, vejo as terras lisas da lezíria, ao fundo uma franja de vegetação verde-escura, e depois, inevitavelmente, o céu onde boiam nuvens que só não são brancas porque a tarde chega ao fim e há o tom de pérola que é o dia que se extingue. Entretanto, o rio corre. Mais propriamente se diria: anda, arrasta-se - mas não é costume.

Três metros acima da minha cabeça estão presos nos ramos rolos de palha, canalhas de milho, aglomerados de lodo seco. São os vestígios da cheia. À esquerda, na outra margem, alinham-se os freixos que, a esta distância, por obra do vento que Ihes estremece as folhas numa vibração interminável, me fazem lembrar o interior de uma colmeia. É o mesmo fervilhar, numa espécie de zumbido vegetal, uma palpitação (é o que penso agora), como se dez mil aves tivessem brotado dos ramos uma ansiedade de asas que não podem perder voo.

Entretanto, enquanto vou pensando, o rio continua a passar, em silêncio. Vem agora no vento, da aldeia que não está longe, um lamentoso toque de sinos: alguém morreu, sei quem foi, mas de que serve dizê-Io? Muito alto, duas garças brancas (ou talvez não sejam garças, não importa) desenham um bailado sem princípio nem fim: vieram inscrever-se no meu tempo, irão depois continuar o seu, sem mim.

Olho agora o rio que conheço tão bem. A cor das águas, a maneira como escorregam ao longo das margens, as espadanas verdes, as plataformas de limos onde encontram chão as rãs, onde as libélulas (também chamadas tira-olhos) pousam a extremidade das pequenas garras – este rio é qualquer coisa que me corre no sangue, a que estou preso desde sempre e para sempre. Naveguei nele, aprendi nele a nadar, conheço-lhe os fundões e as locas onde os barbos pairam imóveis. É mais do que um rio, é talvez um segredo.

E, contudo, estas águas já não são as minhas águas. O tempo flui nelas, arrasta-as e vai arrastando na corrente líquida, devagar, à velocidade (aqui, na terra) de sessenta segundos por minuto. Quantos minutos passaram já desde que me deitei na margem, sobre o feno seco e doirado? Quantos metros andou aquele tronco apodrecido que flutua? O sino ainda toca, a tarde teve agora um arrepio, as garças onde estão? Devagar, levanto-me, sacudo as palhas agarradas à roupa, calço-me. Apanho uma pedra, um seixo redondo e denso, lanço-o pelo ar, num gesto do passado. Cai no meio do rio, mergulha (não vejo, mas sei), atravessa as águas opacas, assenta no lodo do fundo, enterra-se um pouco. Mudou de sítio, talvez o inverno arraste para mais longe, o restitua à margem donde o tirei. Talvez ali fique para sempre.

Desço até à água, mergulho nela as mãos, e não as reconheço. Vêm-me da memória outras mãos mergulhadas noutro rio. As minhas mãos de há trinta anos, o rio antigo de águas que já se perderam no mar. Vejo passar o tempo. Tem a cor da água e vai carregado de detritos, de pétalas arrancadas de flores, de um toque vagaroso de sinos. Então uma ave cor de fogo passa como um relâmpago. O sino cala-se. E eu sacudo as mãos molhadas de tempo, levando-as até aos olhos – as minhas mãos de hoje, com que prendo a vida e a verdade desta hora.

SARAMAGO, José. Deste mundo e do outro. Lisboa: Caminho, 1985.

Analise as afirmativas sobre as reflexões do narrador do texto e assinale a alternativa INCORRETA.

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Tema central: Interpretação de texto, com foco em tempo, transitoriedade e sentido textual. Exige compreender o simbolismo das imagens, o fluxo do tempo e a relação com o título filosófico: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”.

Análise da alternativa B (INCORRETA):

A alternativa B afirma: “são as mesmas águas de quando ele ali adormeceu”. Erro de interpretação: O texto deixa claro que, embora o narrador reconheça o rio, ele reflete que “essas águas já não são as minhas águas” porque o tempo, assim como a corrente do rio, flui e não volta. Essa ideia ilustra perfeitamente a reflexão do título e do texto: tempo e águas nunca são os mesmos. A alternativa contraria explicitamente o sentido defendido pelo autor.

Regras envolvidas: É importante ficar atento à interpretação semântica do texto e não cair na armadilha de tomar expressões ao pé da letra sem considerar o contexto. Questões desse tipo exigem a leitura atenta de cada nuance textual.

Análise das demais alternativas:

A) Correta. O narrador tenta fixar o instante (“vida e verdade desta hora”) ao perceber que tudo é passageiro — evidenciando compreensão da efemeridade do tempo, conforme as imagens do texto.

C) Correta. Justamente o ponto central: o narrador faz paralelo entre o fluxo das águas e o tempo, mostrando que ambos seguem em frente, sem retorno.

D) Correta. A “ave cor de fogo”, ao passar, coincide com o silêncio do sino e com a retomada do foco do narrador para o presente, simbolizando o retorno para o “agora”.

Dicas e estratégias:

Fique atento a expressões como "mesmas águas" e "tudo flui". Bancas gostam de provocar confusão entre permanência e mudança. Sempre confira no texto se há contradição clara.

Nesse tipo de questão, verifique as palavras do comando: INCORRETO, “todas”, “apenas”, “portanto”, pois indicam generalizações ou explicações cabíveis — frequentemente usadas como pegadinhas.

Regra geral aplicada: Em questões de interpretação de texto, o candidato deve responder de acordo com o que está explicitamente no texto, sem extrapolações ou reduções indevidas (Gramática de Celso Cunha & Lindley Cintra, tópicos sobre sentido global do texto).

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