Os feijões Será que entre os feijões Existe o preconceito?...
Será que entre os feijões Existe o preconceito? Será que o feijão branco Não gosta do feijão preto? Será que o feijão preto é revoltado Com seu predominador? Percebe que é subjugado? O feijão branco será um ditador?
Será que existem rivalidades Cada um no seu lugar? O feijão branco é da alta sociedade, Na sua casa o feijão preto não pode entrar? Será que existem desigualdades Que deixam o feijão preto lamentar? Nas grandes universidades O feijão preto não pode ingressar? Será que existem as seleções, Preto pra cá e branco pra lá? E nas grandes reuniões O feijão preto é vedado entrar? Creio que no núcleo dos feijões Não existem as segregações
JESUS, Carolina Maria de. Clíris: Poemas Recolhidos. Rio de Janeiro: Desalinho, Ganesha Cartonera, 2019.
Após a leitura do texto acima, julgue os seguintes itens.
I. Considerando a subjetividade e a linguagem figurada utilizada pela autora para abordar a temática da segregação racial, a linguagem predominante no texto é a conotativa. II. O eu lírico faz uso de linguagem figurada, com função apelativa, para convencer o leitor de que as segregações por cor podem existir até mesmo entre os feijões. III. A temática da segregação racial é construída no texto a partir das relações antitéticas que se estabelecem entre as imagens personificadas do feijão preto e do feijão branco. IV. Por se tratar de um texto que, conforme aponta o título, apresenta concepções sobre dois tipos específicos de feijão, percebe-se a predominância da função referencial da linguagem. V. Apesar das rimas e da estrutura de escrita em versos e estrofes, o texto não pode ser considerado um poema, pois a linguagem predominante é a literal e a coloquial.
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Tema central da questão: Interpretação de Texto – Funções da linguagem, uso de linguagem conotativa e figuras de linguagem. O objetivo é identificar como o poema constrói sentidos subjetivos e figurativos para tratar da segregação racial, bem como diferenciar os tipos de linguagem e suas funções.
A alternativa correta é a letra D (I e III). Veja o porquê:
I – Correta. O texto utiliza linguagem conotativa, ou seja, em sentido figurado, carregada de subjetividade e emoção. Expressões como “Será que o feijão branco não gosta do feijão preto?” são exemplos da humanização dos feijões para discutir o preconceito, não sendo um relato objetivo. Segundo Evanildo Bechara, a conotação é típica de textos literários e poéticos, privilegiando a subjetividade (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa).
III – Correta. O poema estabelece antítese entre os feijões branco e preto (oposição entre ideias) e utiliza personificação (atribuição de características humanas aos feijões), recursos para construir a crítica à segregação racial. Como observa Cunha & Cintra, tais figuras são centrais na função poética da linguagem, que explora o potencial criativo da língua.
Por que as outras estão erradas?
II – Incorreta. Apesar do uso de linguagem figurada, não há predominância da função apelativa (ou conativa), que buscaria convencer/levar o leitor à ação com imperativos ou vocativos claros. O poema foca no sentimento e no questionamento, típicos da função poética e emotiva.
IV – Incorreta. Não há predominância da função referencial (informativa), pois o texto não objetiva informar sobre feijões, mas sim propor uma reflexão social, usando imagens simbólicas.
V – Incorreta. O texto é sim um poema, pois tem rimas, versos, e predomina a linguagem conotativa, não sendo literal nem restritamente coloquial.
Estratégias para acertar questões assim: Atente-se à presença de figuras de linguagem (personificação, antítese). Questões sobre função e linguagem frequentemente confundem a referencial (objetiva e literal) com a poética/conotativa (subjetiva, sugerida). Palavras como “preconceito”, “segregação” em contexto metafórico são indício de conotação.
Referências: Jakobson, Roman – Funções da linguagem; Bechara, Evanildo – Moderna Gramática Portuguesa; Cunha & Cintra – Nova Gramática do Português Contemporâneo.
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Comentários
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Nota para ñ esquecermos, poema pode sim ser escrito Literal e coloquial...
Por que a 2 esta errada?
II - O Eu lírico ( o narrador) induz nessa frase uma pessoa e não de fato o feijão. Quem participa de reunião são pessoas. "E nas grandes reuniões O feijão preto é vedado entrar?"
Pra quem ficou curioso. A "II" está errada porque o eu-lírico pretende convencer que a segregação NÃO pode existir, e a opção diz que podem existir, visto que a função conotativa quer convencer, qual é o objetivo do autor, o que ele quer convencer, é justamente o oposto dessa opção.
LETRA D).
O texto é baseado em uma linguagem conativa (apelativa), para o convencimento do receptor de alguma ideia textual, e não referencial (denotativa). No texto, os "feijões" possuem o atributo da personificação/prosopopeia (conotativa), que se trata de um tipo de figura de linguagem.
Ainda abordando as características do texto, trata-se de um texto sem traços coloquiais, escrito de acordo com a norma culta e respeitando as abordagens.
Na alternativa II, torna-se alternativa errada devido a este trecho:
"Creio que no núcleo dos feijões Não existem as segregações".
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