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Q3614731 Português
A volta do filho pródigo


Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitenta por cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independência são as causas mais frequentes das fugas. A volta é acompanhada de arrependimento.

   Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram frequentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.

   Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como “filho pródigo”.

  Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha a chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.

   O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:

   – Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram. A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:

   – Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.

   Fábio não aguentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.

   A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.


(SCLIAR, Moacyr. Folha de São Paulo. São Paulo. Em: 04/04/2005. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: julho de 2025.)
Tendo em vista o significado das palavras no contexto apresentado, as expressões destacadas podem ser substituídas pelos termos sugeridos, com EXCEÇÃO de:
Alternativas

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Comentário – Questão de Interpretação e Semântica

Tema central: A questão avalia o domínio de sinonímia contextual, ou seja, a capacidade de reconhecer se, no texto, termos destacados podem ser trocados por outros sem prejuízo do sentido. Isso envolve compreender tanto o sentido denotativo e conotativo das palavras como suas nuances no contexto.

Justificativa da alternativa correta – Letra A:
“Terrível” significa algo assustador, que provoca medo, angústia ou sofrimento. Em contraste, “comovente” refere-se a algo emocionante, que toca ou sensibiliza. Mesmo que ambos tenham potencial de causar impacto emocional, seus sentidos são opostos no contexto: a surpresa foi negativa (causou choque/desgosto), e não algo bonito ou tocante. Não há equivalência semântica. Segundo Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), a sinonímia só é válida se mantiver o sentido geral do enunciado. Por isso, esse é o item EXCEÇÃO.

Análise das alternativas incorretas:

B) “Encenação” – representação: Ambas expressam a ideia de fingimento, simulacro ou dramatização (como num teatro). A substituição é fiel ao sentido dado pelo texto.

C) “Frequentes” – constantes: As duas palavras indicam fato ocorrido muitas vezes ou com muita regularidade. Celso Cunha e Lindley Cintra reforçam que a frequência pode ser expressa por ambos os vocábulos, sem alteração no sentido.

D) “Longe disso” – ao contrário: “Longe disso” equivale a dizer que a realidade é oposta ao que se espera. “Ao contrário” representa exatamente essa oposição, mostrando equivalência contextual.

Estratégia para provas: Sempre leia a frase completa, antes e depois da substituição sugerida. Cuidado com pares de palavras que parecem similares por serem “emocionais”, mas apresentam sentidos opostos; é uma pegadinha comum em provas!

Resumo: A alternativa A é a única incorreta, pois troca expressões com sentidos incompatíveis.

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GABARITO: A

terrível indica algo negativo ou assustador; comovente indica algo que emociona ou sensibiliza. Não são sinônimos.

A alternativa que não pode ser substituída pelo termo sugerido é a A.

  • A. “E aí a surpresa, a terrível surpresa.” (3º§) – comovente: A palavra "terrível" significa algo ruim, assustador ou pavoroso, enquanto "comovente" se refere a algo que causa emoção e que pode ser tocante ou sensibilizante. Os significados são diferentes, portanto a substituição não é adequada. 

As outras alternativas são sinônimos e podem ser substituídas:

  • B. “Tinha sido tudo uma encenação.” (8º§) – representação: No contexto de um espetáculo ou de um fingimento, "encenação" e "representação" são termos sinônimos, referindo-se ao ato de se apresentar ou de simular algo.
  • C. “As brigas, em casa, eram frequentes.” (1º§) – constantes: "Frequentes" e "constantes" são sinônimos no sentido de algo que acontece de forma repetida ou habitual.
  • D. “Não foi uma experiência gratificante, longe disso.” (2º§) – ao contrário: A expressão "longe disso" é usada para enfatizar que a realidade é oposta à ideia anterior, sendo um sinônimo para "pelo contrário" ou "ao contrário". 

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