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Q3614729 Português
A volta do filho pródigo


Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitenta por cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independência são as causas mais frequentes das fugas. A volta é acompanhada de arrependimento.

   Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram frequentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.

   Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como “filho pródigo”.

  Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha a chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.

   O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:

   – Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram. A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:

   – Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.

   Fábio não aguentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.

   A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.


(SCLIAR, Moacyr. Folha de São Paulo. São Paulo. Em: 04/04/2005. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: julho de 2025.)
A crônica se apresenta em uma linguagem predominantemente informativa. No entanto, além de apresentar os fatos, há evidência de análise subjetiva do autor em: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de Texto – Objetividade e Subjetividade.

A questão cobra a identificação do trecho em que há análise subjetiva do autor. Em textos objetivos, as informações são expostas de maneira neutra, sem manifestações pessoais. Já em textos subjetivos, aparecem opiniões, sentimentos, avaliações e impressões do narrador ou autor.

Justificativa da alternativa correta:

Alternativa C (“Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.”) destaca-se por apresentar um juízo de valor. O adjetivo “travessos” é subjetivo, pois qualifica de modo pessoal o comportamento dos pais, além de sugerir, com humor, que eles precisam ser controlados. Ou seja, há claramente a presença da opinião e da avaliação do narrador, elementos essenciais da subjetividade conforme ensinam Bechara e Cunha & Cintra.

Análise das alternativas incorretas:

A) “O homem se aproximou dele, abraçou-o.” – Apenas descreve fatos, sem julgamento ou emoção explícita do narrador. Linguagem objetiva.

B) “Como já não tinha a chave do apartamento, bateu à porta.” – Exposição objetiva da situação, sem opinião ou sentimento. Linguagem objetiva.

D) “Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava.” – Ainda que mencione o cansaço, é uma informação neutra e factual, não trazendo avaliação pessoal do narrador.

Estratégia para resolver questões assim: Ao buscar trechos subjetivos, sempre pergunte: há juízo de valor ou emoção? O trecho reflete opinião do narrador?

Reforço gramatical: Segundo Cunha & Cintra, subjetividade se revela quando “o texto extravasa o sentimento ou o juízo de valor do emissor sobre o conteúdo”. Em provas, fique atento a adjetivos opinativos (“travessos”, “complicados”, “difíceis”) e frases que expressam desejo, opinião ou julgamento.

Resumo: A alternativa C é a correta porque há subjetividade e análise pessoal: a opinião do narrador está presente. As demais são objetivas, apenas relatam fatos.

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Comentários

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é uma opinião do autor

SUBJETIVO- procure sempre por adjetivos, qualidades que o autor define, é que ele pensa.

A) “O homem se aproximou dele, abraçou-o.”

Fato objetivo.

Só narração. Não tem opinião.

B) “Como já não tinha a chave do apartamento, bateu à porta.”

Também é fato.

Explica uma ação. Nada de julgamento.

C) “Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.”

  • Travessos” = adjetivo com valor avaliativo.
  • Precisam ser controlados” = juízo de valor.
  • O narrador está opinando sobre os pais.

Isso não é relato de fato.

É interpretação + julgamento.

D) “Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava.”

Continua sendo narração objetiva.

“Cansado” aqui descreve estado físico, não opinião.

Sempre que a questão falar em:

  • subjetividade
  • opinião
  • julgamento
  • posicionamento do autor

Procure:

  • adjetivos avaliativos
  • advérbios que indiquem julgamento
  • verbos como “dever”, “precisar”, “merecer”
  • expressões generalizantes

Se for só ação narrada → é objetivo.

Se tiver avaliação → é subjetivo.

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