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Q3769148 Português
Prefiro as manhãs para tudo que exija algum esforço


         A literatura é amante das madrugadas. Eu, ao menos, quando menina, imaginava que escritores só escrevessem à noite, enquanto consumiam maços de cigarros e muito uísque, cercados por gatos (nunca por bebês) e tendo o silêncio quebrado apenas pelas ondas do mar – uma casa em uma praia isolada, que outro cenário para produzir poemas dilacerantes, histórias que sangram e ensaios que revolucionam o mundo?

          Ei, ei! Despertador tocando.


       Patti Smith acorda cedo, faz alguns exercícios e sai com uma caderneta em busca de um lugar para escrever enquanto toma um café. Haruki Murakami se levanta da cama às 4h e escreve por cinco ou seis horas – de tarde, pratica esportes. Toni Morrison também começava a escrever antes do nascer do sol, quando não havia ninguém por perto para interrompê-la. Maya Angelou acordava às 5h50, tomava café com o marido e ia para um hotel trabalhar. Jack Kerouac acreditava que o primeiro pensamento era o melhor – escrevia pela manhã em fluxo livre e deixava as tardes e noites para revisões. Henry Miller, mesma coisa: começava seus textos pela manhã e, à noite, andava de bicicleta. Virginia Woolf debruçava-se sobre o caderno das 9h30 ao meio-dia, todos os dias.

         A despeito da fama de notívago e boêmio que todo artista carrega, escrever é um trabalho braçal, somos operários do ofício. A inspiração pode vir do escuro, mas a transpiração é solar e cedo já está em pé.

        Nada mal ter alguma coisa em comum com essa turma, mesmo que apenas com sua rotina criativa. Ninguém me perguntou, mas as manhãs também são coautoras da minha escrita. As primeiras horas do dia me encontram mais acesa. O problema é que é também quando estou mais disposta a me exercitar – à tarde não consigo levantar pesos, fazer abdominais e outras crueldades com meu corpo. É também pela manhã que prefiro ir ao supermercado, geralmente vazio e sem filas. Se preciso fazer compras no shopping, chego antes de as portas abrirem, pelo mesmo motivo: oferta de vagas para estacionar, corredores desimpedidos, provadores às moscas. Ou seja, prefiro as manhãs para tudo que exija algum esforço. Depois das 14h, a inspiração mingua, e depois das 18h, só relaxar me interessa. Ou seja, a continuar assim, morrerei de fome. Tenho que tomar vergonha e transferir todos os meus afazeres mundanos para o turno da tarde, a fim de usar as manhãs exclusivamente para a escrita. Se não conseguir, me restará o radicalismo: abandonar a administração da casa, desistir de manter o corpo saudável e fugir para uma praia isolada, onde aguardarei o sol nascer cercada apenas pelas garrafas vazias da noite anterior e dois ou três gatos.


Autora: Martha Medeiros - GZH (adaptado).
O texto emprega humor e certo grau de ironia para construir uma autorrepresentação que oscila entre o rigor criativo e a autocrítica bem-humorada. Ao relatar preferências, procrastinações e fantasias sobre rotinas ideais, a autora problematiza a relação entre disciplina e cotidiano de forma leve e reflexiva. Nesse contexto, assinale a alternativa que apresenta interpretação adequada dos efeitos expressivos do texto.
Alternativas

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Comentário de Gabarito – Interpretação de Texto / Efeitos de Humor e Ironia

Tema central: Esta questão exige interpretação de texto, com foco nos efeitos expressivos do humor e da ironia. O candidato deve identificar, a partir de pistas do texto, o modo como a autora constrói sua autorrepresentação e usa recursos linguísticos para tratar de suas dificuldades cotidianas.

Justificativa da alternativa correta (C):

A alternativa C está correta pois reconhece a função do humor e da ironia no texto. Martha Medeiros expõe suas limitações e desequilíbrios sem transformar sua narrativa em algo pesado ou autodepreciativo. O uso de frases como “Se não conseguir, me restará o radicalismo: abandonar a administração da casa...” ilustra bem a autocrítica bem-humorada e irônica – ela mesma ironiza o próprio exagero, tornando leve seu relato. Segundo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), a ironia ocorre quando se pretende expressar o oposto do dito, o que é perceptível aqui.

Análise das alternativas incorretas:

A) Erra por interpretar a menção à “praia isolada” como literal. No texto, trata-se de um recurso irônico, não de um propósito real – a própria autora satiriza suas fantasias, como no início quando critica o clichê do escritor notívago.

B) Equivoca-se ao atribuir ao texto um tom acadêmico e o uso de experiências pessoais como dados objetivos. Na verdade, a linguagem é confessional, leve e até coloquial, não padronizada como em artigos científicos.

D) A autora não deseja construir uma imagem de extrema eficiência; pelo contrário, faz autocrítica e reconhece a procrastinação e as dificuldades de gestão do tempo.

Como chegar à resposta correta: Observe palavras e expressões que demonstram autocrítica e autoironia (“Nada mal ter alguma coisa em comum...”, “tenho que tomar vergonha...”), além do tom descontraído e dos exageros intencionais – são pistas de que o texto não busca lamentar, mas abordar relações cotidianas com leveza.

Dica para provas futuras: Sempre questione se afirmações aparentemente graves ou absurdas condizem literalmente com o texto ou são empregadas com efeito de humor ou ironia. Palavras como “radicalismo” e cenários fantasiosos quase sempre indicam intenção irônica.

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