Analise as assertivas que se...
O mistério de Ney Matogrosso jamais se revela completamente
Decifrá-lo é impossível. Recriá-lo, não.
Jesuíta Barbosa, ator, intérprete de Ney Matogrosso em "Homem com H"
[...] Uma das cenas mais marcantes das filmagens aconteceu quando eu contracenei com Bruno Montaleone, que interpreta o Marco de Maria. Os dois estão na cama. Ney abre o exame com o resultado negativo para o HIV. Silêncio. O de seu parceiro, no entanto, tinha dado positivo. Ney fica sem chão porque pensou que contrairia o vírus como muitos dos seus amigos e amores naquele período. Lembro que no dia em que fizemos essa cena, o Ney Matogrosso real estava numa cadeira sentado junto à equipe de filmagem, na frente da cama, olhando para mim e para o Montaleone. Não tinha como não sentir ou abstrair de sua presença no set. As poucas pessoas da equipe que acompanhavam a gravação estavam muito concentradas. Foi um momento doloroso para os dois e importantíssimo para a história que estávamos contando.
Apesar de estar inteiro na cena, meus olhos desviavam para observar as reações de Ney. Pensava no que ele estaria sentindo e trazia aquela tensão para a minha interpretação. Entendi que aquilo que estávamos encenando não era uma lembrança distante do passado, mas algo que ainda estava muito vivo.
Em um determinado momento, Ney se levantou da cadeira. Parecia inquieto. Ele foi tomado pela cena, pela suposta ficção, e começou a chorar compulsivamente. "Eu não sou assim, eu não sou assim." Repetia a mesma frase várias vezes. Por um momento, pensei que ele estava se referindo à minha interpretação. Mas não era isso, ele não estava julgando a cena. Estava, na verdade, protestando contra aquele sentimento que o fazia chorar. Pude ver um Ney Matogrosso vulnerável, com medo e angustiado. Peguei aquela frase que não estava no roteiro e a inseri no filme: "Eu não sou assim." Então, quando você, leitor, assistir a esta cena, saiba que a frase foi dita pelo Ney Matogrosso real na coxia do set. Aquilo foi uma simbiose, uma troca de experiências e de sensações. Foi uma recriação da vida e certamente um dos momentos mais importantes que vivi fazendo cinema.
Assisti ao primeiro corte do filme ao lado do Ney. Estava muito nervoso e ele segurou na minha mão. Chorei muito e quis o colo dele. E ele me deu colo, me amparou. Ele também estava emocionado. Este homem, que sabe acolher o outro em momentos de fraqueza, é também caloroso e diacrítico. Homem cujo peito transborda amor neste mundo hostil. Um homem-águia voando leve, muito leve. Águia que, às vezes, faz uma bela manobra, vem e pousa.
(Disponível em:
https://piaui.folha.uol.com.br/o-misterio-de-ney-matogrosso-jamais-se-revela-completamente/. Acesso em 21 ago. 2025. Adaptado.)
Analise as assertivas que seguem:
I.O texto escrito por Jesuíta Barbosa é como um depoimento, em que ele narra um evento de sua vida, no caso sua atuação como ator de um filme, expondo suas impressões, sensações e emoções.
II.O tipo textual predominante no texto é o argumentativo, uma vez o objetivo do autor é defender seu seu processo de filmagem e sua atuação.
III.O texto está escrito em 1ª pessoa, o que o torna mais subjetivo, mais pessoal, diferentemente de um texto informativo, geralmente escrito em 3ª pessoa, mais objetivo e impessoal.
É correto o que se afirma em:
Gabarito comentado
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Tema central da questão: Interpretação de texto e identificação do tipo textual. O candidato precisa reconhecer as características do texto (narrativo, argumentativo, subjetividade, uso de 1ª pessoa, depoimento).
Análise das Assertivas:
I. Correta. O texto é um depoimento em que Jesuíta Barbosa narra vivências durante as filmagens. Ele expõe impressões, sensações e emoções, utilizando elementos linguísticos típicos do relato pessoal: ênfase na experiência do próprio autor, uso de verbos na primeira pessoa e detalhamento emocional.
II. Incorreta. O tipo textual não é argumentativo. Não há defesa estruturada de tese ou uso de argumentos para convencer o leitor. Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, em textos argumentativos predomina a exposição lógica de ideias, ao contrário do depoimento ou relato, em que predomina a narração de fatos pessoais com foco na vivência.
III. Correta. O uso da primeira pessoa ("eu", "meu", "minha") torna o texto subjetivo e pessoal. Isso diferencia o texto informativo (tipicamente em 3ª pessoa, objetivo), como explica Bechara na exposição sobre tipos narrativos e em manuais de redação oficial.
Justificativa da alternativa correta (A): As afirmativas I e III traduzem com precisão a natureza do texto, conforme se verifica por trechos repletos de emoções pessoais, uso claro da 1ª pessoa e ausência de defesa argumentativa. O texto constrói-se pelo relato de experiências, tornando-o subjetivo e narrativo.
Como identificar o tipo textual: Observe os verbos: se predominam ações vividas pelo próprio autor narradas em ordem cronológica e acompanhadas por emoções, trata-se de relato pessoal, não de dissertação ou de argumento.
Análise das alternativas:
- A) I e III, apenas. Correta.
- B) II, apenas. Errada – Não predomina o argumentativo.
- C) II e III, apenas. Errada.
- D) I, apenas. Errada.
- E) I, II e III. Errada.
Dica de prova: Sempre destaque o uso de pronomes e verbos, o foco do texto (pessoal x impessoal), e pergunte-se: O autor narra algo sobre si? Ou defende uma ideia?
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