Questões de Concurso Sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português

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Q3993098 Português
        [Na Divina Comédia] chega-se a uma experiência imediata da vida, uma experiência que sobrepuja todas as outras, a uma concepção do ser humano que tanto se espraia multiplamente, quanto penetra profundamente até as raízes do sentimento, um esclarecimento das suas emoções e paixões, que leva, sem inibições, à cálida participação e até à admiração da sua multiplicidade e grandeza. E, dentro desta participação imediata e admirada do ser humano, a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina; põe a mesma a seu serviço e a obscurece. A figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus. A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização; a poderosa moldura rompeu-se pela supremacia dos quadros que envolvia.

Erich Auerbach. Mimesis. A representação da realidade na literatura ocidental.
 São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 175

Julgue o item a seguir, relativo ao texto de Erich Auerbach sobre a Divina Comédia, obra do poeta italiano Dante Alighieri escrita no século XIV.


Nas duas últimas orações do texto, identifica-se uma metáfora que sintetiza todo o argumento de Auerbach sobre o caráter realista da Divina Comédia, de Dante: a matéria vital da obra ultrapassou os poderosos limites que a própria realidade histórica lhe impunha. 

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Q3993097 Português
        [Na Divina Comédia] chega-se a uma experiência imediata da vida, uma experiência que sobrepuja todas as outras, a uma concepção do ser humano que tanto se espraia multiplamente, quanto penetra profundamente até as raízes do sentimento, um esclarecimento das suas emoções e paixões, que leva, sem inibições, à cálida participação e até à admiração da sua multiplicidade e grandeza. E, dentro desta participação imediata e admirada do ser humano, a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina; põe a mesma a seu serviço e a obscurece. A figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus. A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização; a poderosa moldura rompeu-se pela supremacia dos quadros que envolvia.

Erich Auerbach. Mimesis. A representação da realidade na literatura ocidental.
 São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 175

Julgue o item a seguir, relativo ao texto de Erich Auerbach sobre a Divina Comédia, obra do poeta italiano Dante Alighieri escrita no século XIV.


No primeiro período, os vocábulos "imediata", "multiplamente", "esclarecimento", "sem inibições" e "multiplicidade" caracterizam-se como atributos da concepção de ser humano "baseada na ordem divina" (segundo período).

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Q3993095 Português
        [Na Divina Comédia] chega-se a uma experiência imediata da vida, uma experiência que sobrepuja todas as outras, a uma concepção do ser humano que tanto se espraia multiplamente, quanto penetra profundamente até as raízes do sentimento, um esclarecimento das suas emoções e paixões, que leva, sem inibições, à cálida participação e até à admiração da sua multiplicidade e grandeza. E, dentro desta participação imediata e admirada do ser humano, a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina; põe a mesma a seu serviço e a obscurece. A figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus. A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização; a poderosa moldura rompeu-se pela supremacia dos quadros que envolvia.

Erich Auerbach. Mimesis. A representação da realidade na literatura ocidental.
 São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 175

Julgue o item a seguir, relativo ao texto de Erich Auerbach sobre a Divina Comédia, obra do poeta italiano Dante Alighieri escrita no século XIV.


De acordo o texto, a Divina Comédia, de Dante, produz "uma experiência que sobrepuja todas as outras", afirmação a partir da qual é possível inferir que a "concepção do ser humano" artisticamente plasmada pelo poeta italiano já se separava da experiência vital do período medieval e de sua estrutura social teocêntrica.

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Q3993094 Português
        [Na Divina Comédia] chega-se a uma experiência imediata da vida, uma experiência que sobrepuja todas as outras, a uma concepção do ser humano que tanto se espraia multiplamente, quanto penetra profundamente até as raízes do sentimento, um esclarecimento das suas emoções e paixões, que leva, sem inibições, à cálida participação e até à admiração da sua multiplicidade e grandeza. E, dentro desta participação imediata e admirada do ser humano, a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina; põe a mesma a seu serviço e a obscurece. A figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus. A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização; a poderosa moldura rompeu-se pela supremacia dos quadros que envolvia.

Erich Auerbach. Mimesis. A representação da realidade na literatura ocidental.
 São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 175

Julgue o item a seguir, relativo ao texto de Erich Auerbach sobre a Divina Comédia, obra do poeta italiano Dante Alighieri escrita no século XIV.


Apesar de não se caracterizar como uma narrativa ficcional, o texto de Auerbach sobre a Divina Comédia evidencia alguns recursos da composição literária, entre os quais se destaca a antítese, que se apresenta como fio condutor da análise da obra de Dante.

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Q3993093 Português

        Os ensaios da primeira parte deste livro tentam analisar alguns casos do que chamei redução estrutural, isto é, o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo. O meu propósito é fazer uma crítica integradora, capaz de mostrar (não apenas enunciar teoricamente, como é hábito) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulados a fim de se tornarem aspectos de uma organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser. No entanto, natureza, sociedade e ser parecem presentes em cada página, tanto assim que o leitor tem a impressão de estar em contato com realidades vitais, de estar aprendendo, participando, aceitando ou negando, como se estivesse envolvido nos problemas que eles suscitam.


Antonio Candido. Prefácio. In: O discurso e a cidade.
 São Paulo, Rio de Janeiro: Duas Cidades, Ouro sobre Azul, 2004, p. 9. 

Julgue o item seguinte, acerca dos sentidos e estruturas linguísticas do texto de Antonio Candido.


A expressão "redução estrutural" (primeiro período) refere-se à forma como a literatura promove o contato entre o leitor e a realidade a partir da reprodução exata, embora limitada, das leis vigentes no mundo e para o ser. 

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Q3993092 Português

        Os ensaios da primeira parte deste livro tentam analisar alguns casos do que chamei redução estrutural, isto é, o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo. O meu propósito é fazer uma crítica integradora, capaz de mostrar (não apenas enunciar teoricamente, como é hábito) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulados a fim de se tornarem aspectos de uma organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser. No entanto, natureza, sociedade e ser parecem presentes em cada página, tanto assim que o leitor tem a impressão de estar em contato com realidades vitais, de estar aprendendo, participando, aceitando ou negando, como se estivesse envolvido nos problemas que eles suscitam.


Antonio Candido. Prefácio. In: O discurso e a cidade.
 São Paulo, Rio de Janeiro: Duas Cidades, Ouro sobre Azul, 2004, p. 9. 

Julgue o item seguinte, acerca dos sentidos e estruturas linguísticas do texto de Antonio Candido.


No segundo período, a condição atribuída à crítica integradora — "capaz de mostrar" — evidencia o estabelecimento de uma oposição entre teoria e prática, e aponta para a tentativa do crítico de revelar a dinâmica da transformação do não literário em literário que ocorre no processo da criação artística.

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Q3993089 Português

        Os ensaios da primeira parte deste livro tentam analisar alguns casos do que chamei redução estrutural, isto é, o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo. O meu propósito é fazer uma crítica integradora, capaz de mostrar (não apenas enunciar teoricamente, como é hábito) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulados a fim de se tornarem aspectos de uma organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser. No entanto, natureza, sociedade e ser parecem presentes em cada página, tanto assim que o leitor tem a impressão de estar em contato com realidades vitais, de estar aprendendo, participando, aceitando ou negando, como se estivesse envolvido nos problemas que eles suscitam.


Antonio Candido. Prefácio. In: O discurso e a cidade.
 São Paulo, Rio de Janeiro: Duas Cidades, Ouro sobre Azul, 2004, p. 9. 

Julgue o item seguinte, acerca dos sentidos e estruturas linguísticas do texto de Antonio Candido.


O texto expõe um paradoxo: a produção literária deve ser autônoma, ou seja, deve distanciar-se da realidade, para que lhe seja possível alcançar a representação efetiva do mundo, da natureza, da sociedade e do ser, que só assim podem ser experimentados pelo leitor como "realidades vitais". 

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Q3993088 Português

        "Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".


François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo.
Tradução de Mário Laranjeira.São Paulo:
Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128. 

        Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:
        — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
        — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.
        E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:
         — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364. 

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.


Uma das semelhanças entre os personagens Pangloss, de Voltaire, e o juiz Sr. Veloso, de Machado de Assis, é o fato de que ambos justificam a ocorrência de acontecimentos graves ou sublimes em favor de causas leves e banais: 'cidras recheadas de pistaches' (último período do texto de Voltaire) e "este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa" (último período do texto de Machado de Assis). 

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Q3993087 Português

        "Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".


François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo.
Tradução de Mário Laranjeira.São Paulo:
Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128. 

        Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:
        — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
        — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.
        E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:
         — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364. 

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.


Uma das diferenças entre o personagem Pangloss, de Voltaire, e o juiz Sr. Veloso, de Machado de Assis, é o fato de que o primeiro justifica o acesso a uma iguaria por fatos que aconteceram, enquanto o segundo, por fatos que não ocorreram.

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Q3993086 Português

        "Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".


François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo.
Tradução de Mário Laranjeira.São Paulo:
Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128. 

        Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:
        — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
        — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.
        E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:
         — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364. 

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.


Há uma equivalência entre o 'melhor dos mundos possíveis', mencionado por Pangloss (último período do texto de Voltaire), e o "céu, ao som de todas as cítaras", mencionado pelo juiz Sr. Veloso (terceiro período do primeiro parágrafo do texto de Machado de Assis): ambos remetem ao paraíso de delícias, simbolizado, nos dois textos, pela metáfora das iguarias.

Alternativas
Q3993085 Português

        "Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".


François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo.
Tradução de Mário Laranjeira.São Paulo:
Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128. 

        Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:
        — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
        — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.
        E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:
         — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364. 

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.


Nos dois textos predomina o estilo sério e a tragicidade, o que se evidencia em 'se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda' (último período do texto de Voltaire) e em "ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente" (quarto período do primeiro parágrafo do texto de Machado de Assis).

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Q3993084 Português

        "Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".


François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo.
Tradução de Mário Laranjeira.São Paulo:
Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128. 

        Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:
        — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
        — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.
        E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:
         — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364. 

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.


A narrativa de Voltaire é fabulosa, pois relata acontecimentos ocorridos em 'um lindo castelo' e no 'bom país de Eldorado'; já a de Machado é realista, pois os fatos relatados efetivamente ocorreram.

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Q3993082 Português

        "Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".


François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo.
Tradução de Mário Laranjeira.São Paulo:
Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128. 

        Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:
        — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
        — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.
        E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:
         — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364. 

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.


Os dois textos alcançam um efeito crítico realista semelhante: o questionamento da realidade deformada pela lógica das classes letradas, seja a do filósofo Pangloss em sua 'fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal', no texto de Voltaire, seja a do juiz Veloso, para quem a perda do paraíso vale o sabor de um doce, no texto de Machado de Assis.

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Q3993074 Português

        Ainda antes do dia de São José, o prefeito inaugurou a escola, que teve a construção — com telhas de cerâmica que nenhuma casa de trabalhador poderia ter — concluída no verão. O prédio recebeu o nome de Antônio Peixoto, pai dos Peixoto. Homem que, diziam, foi proprietário da fazenda, mas nunca havia posto os pés ali. Todos os moradores estiveram presentes à inauguração: as mulheres de lenço na cabeça; os homens de chapéu e enxada na mão; as crianças rindo da novidade, um pequeno prédio de três salas, e sem o tal banheiro que ninguém tinha mesmo. Da família Peixoto se fez presente também a irmã mais velha, que nunca havia visto por ali. (...) Quando retiraram o papel que cobria a placa com o nome de seu pai falecido, ela quase caiu, num choro convulsivo que fez com que seus irmãos a amparassem para que não desabasse de vez no chão. Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai, que, na noite em que celebrava o jerê de santa Bárbara, havia pedido, quase ordenado, o cumprimento da promessa de construção da escola feita à santa no passado. Mas ele estava lá, em pé, um dos primeiros da audiência, segurando a mão de Domingas, e ao lado de minha mãe, com o rosto satisfeito. Pouco importava, poderia ver em seu semblante a luta que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara para que tivéssemos um destino diferente do seu, para que não fôssemos analfabetos. Meu pai não sabia nem mesmo assinar o nome, e fez o que estava ao seu alcance para trazer uma escola para a fazenda, para que aprendêssemos letra e matemática.


Itamar Vieira Júnior. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2018, p. 95-96. 

Julgue o item que se segue, em relação ao texto precedente. 


A referência, no primeiro período do texto, ao uso de telhas de cerâmica na construção da escola evidencia a valorização, por parte dos proprietários da terra, da instituição educacional como meio de superação do analfabetismo no meio rural.

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Q3993072 Português

        Carta LXV
        Ao padre provincial do Brasil 1654  

        Com esta frota partimos pelo rio Tocantins, aproveitando-nos da enchente da maré, que só até aqui nos acompanhou, prometendo-nos muita felicidade na jornada. (...) À meia noite fizemos pabóca, que é a frase com que cá se chama o partir, corrompendo a palavra da terra, e nos dias seguintes passamos às praias da viração. Parecerá que se chamam assim por correr nelas vento fresco; mas a razão por que os portugueses lhe deram este nome é a que direi a V. Rev.ma. Nos meses de outubro e novembro, saem do mar e do rio do Pará grande quantidade de tartarugas, que vêm criar nos areais de algumas ilhas que pelo meio deste Tocantins estão lançadas. (...) A estas mesmas praias vem, no seu tempo, quase todo o Pará a fazer a pesca das tartarugas. (...) A carne é como a de carneiro, e se fazem dela os mesmos guisados, que mais parecem de carne que de pescado. Os ovos são como os de galinha na cor, e quase no sabor, a casca, mais branca, e de figura diferente, porque são redondos (...); e o modo como se faz esta pesca requer mais notícia que indústria, pela muita cautela e pouca resistência das tartarugas. Quando vêm a desembarcar nestas praias, trazem diante duas, como sentinelas, que vêm a espiar com muita pausa; logo depois destas, com bom espaço vêm oito ou dez, como descobridores do campo, e depois delas, em maior distância, vem todo o exército das tartarugas, que consta de muito milhares. Se as primeiras e as segundas sentem algum rumor, voltam para trás, e todas se somem num momento: por isso os que vêm à pesca se escondem todos atrás dos matos e esperam de emboscada com grande quietação e silêncio. Saem, pois, as duas primeiras espias, passeiam de alto a baixo toda a praia, e como estas acham o campo livre, saem também as da vanguarda, e fazem muito devagar a mesma vigia e, como dão a campanha por segura, entram à água e voltam, e depois dela sai toda a multidão do exército com os escudos às costas, e começam a cobrir as praias e correr em grande tropel para o mais alto delas. Aplica-se cada uma a fazer sua cova, e, quando já não saem mais e estão entretidas umas no trabalho, outras já na dor daquela ocupação, rebentam então os pescadores da emboscada, tomam a parte da praia e, remetendo as tartarugas, não fazem mais que ir virando e deixando, porque em estando viradas de costas não se podem mais bulir, e por isso estas praias e estas tartarugas se chamam de viração (...).

Antônio Vieira. Cartas. V. 1, São Paulo: Globo, p. 277-279. 

A respeito do texto precedente e de seus aspectos linguísticos e literários, julgue o item a seguir.


A missiva em questão cumpre a dupla função de reportar os acontecimentos referentes à expedição em que se engaja o autor e de denunciar a destruição do meio ambiente causada pelas práticas adotadas pelos habitantes do território — indígenas e colonizadores — na captura de tartarugas.

Alternativas
Q3993067 Português

        Ao reconhecer aos povos indígenas o direito às terras que habitam, a Constituição Federal de 1988 favoreceu processos de demarcação de territórios, que continuam a ser feitos até hoje. Em todas as regiões do Brasil, as reivindicações geraram uma profusão de relatórios, laudos e pareceres, produzidos por grupos técnicos, que realizam os estudos etno-históricos, antropológicos, ambientais e cartográficos exigidos pela legislação. Em cada uma dessas iniciativas, consta um elemento em comum: os mapas. Há representações oficiais, feitas no período colonial, no Império e na República. Há desenhos feitos à mão pelos moradores ou produzidos com a ajuda de sistemas de navegação por satélite, como o GPS, e aplicativos. Por conseguinte, a cartografia vem ganhando importância na área da antropologia, em contextos como a formação de professores indígenas, a demarcação e a gestão ambiental de suas terras, a produção de laudos para a regularização fundiária.

        Nas demarcações, tem sido fundamental a cartografia histórica, sobretudo para a análise de mapas produzidos na segunda metade do século XVIII, após a assinatura do Tratado de Madrid, que delimitou os territórios pertencentes a Portugal e Espanha na América do Sul, em 1750, afirma a historiadora Íris Kantor. "Nesse período, os mapas foram confeccionados por expedições militares e científicas que visavam urbanizar os indígenas, além de terem facilitado a construção de fortalezas, a instalação de registros fiscais e o reconhecimento das vias de comunicação terrestres e fluviais. Hoje, a disponibilização da cartografia digital em alta resolução e a catalogação dos espécimes cartográficos permitem fazer um uso 'contracolonial' desses suportes de informação geográfica bidimensionais", afirma. Além disso, o uso dos mapas históricos exige conhecimentos variados. Eles são classificados segundo critérios como o suporte material, a linguagem gráfica e o público destinatário. Na elaboração dos laudos técnicos, a presença ou ausência de topônimos nos mapas possibilita a reconstituição das sucessivas formas de ocupação de uma área geográfica, considerando-se ainda as famílias de mapas da região. Esse método requer o conhecimento da história das línguas indígenas e suas interações com as línguas dos colonizadores.


Diego Viana. Quando o mapa é o território.

In: Pesquisa FAPESP, maio 2023, ano 24, n. 327, p. 74-79 (com adaptações). 

Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue o item seguinte.


Infere-se da leitura do texto que os estudos linguísticos dão suporte à reconstituição das sucessivas formas de ocupação de uma área geográfica, por meio da análise da relação entre as línguas faladas pelos povos envolvidos nos contatos linguísticos e a estrutura morfológica dos vocábulos presentes nas famílias de mapas históricos.

Alternativas
Q3993060 Português

        Ao reconhecer aos povos indígenas o direito às terras que habitam, a Constituição Federal de 1988 favoreceu processos de demarcação de territórios, que continuam a ser feitos até hoje. Em todas as regiões do Brasil, as reivindicações geraram uma profusão de relatórios, laudos e pareceres, produzidos por grupos técnicos, que realizam os estudos etno-históricos, antropológicos, ambientais e cartográficos exigidos pela legislação. Em cada uma dessas iniciativas, consta um elemento em comum: os mapas. Há representações oficiais, feitas no período colonial, no Império e na República. Há desenhos feitos à mão pelos moradores ou produzidos com a ajuda de sistemas de navegação por satélite, como o GPS, e aplicativos. Por conseguinte, a cartografia vem ganhando importância na área da antropologia, em contextos como a formação de professores indígenas, a demarcação e a gestão ambiental de suas terras, a produção de laudos para a regularização fundiária.

        Nas demarcações, tem sido fundamental a cartografia histórica, sobretudo para a análise de mapas produzidos na segunda metade do século XVIII, após a assinatura do Tratado de Madrid, que delimitou os territórios pertencentes a Portugal e Espanha na América do Sul, em 1750, afirma a historiadora Íris Kantor. "Nesse período, os mapas foram confeccionados por expedições militares e científicas que visavam urbanizar os indígenas, além de terem facilitado a construção de fortalezas, a instalação de registros fiscais e o reconhecimento das vias de comunicação terrestres e fluviais. Hoje, a disponibilização da cartografia digital em alta resolução e a catalogação dos espécimes cartográficos permitem fazer um uso 'contracolonial' desses suportes de informação geográfica bidimensionais", afirma. Além disso, o uso dos mapas históricos exige conhecimentos variados. Eles são classificados segundo critérios como o suporte material, a linguagem gráfica e o público destinatário. Na elaboração dos laudos técnicos, a presença ou ausência de topônimos nos mapas possibilita a reconstituição das sucessivas formas de ocupação de uma área geográfica, considerando-se ainda as famílias de mapas da região. Esse método requer o conhecimento da história das línguas indígenas e suas interações com as línguas dos colonizadores.


Diego Viana. Quando o mapa é o território.

In: Pesquisa FAPESP, maio 2023, ano 24, n. 327, p. 74-79 (com adaptações). 

Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue o item seguinte.


Entende-se da leitura do texto que o Tratado de Madrid definiu as fronteiras da ocupação territorial da América do Sul, o que fomentou a produção dos mapas que seriam usados para subsidiar a independência dos países colonizados por Portugal e Espanha.

Alternativas
Q3993059 Português

        Ao reconhecer aos povos indígenas o direito às terras que habitam, a Constituição Federal de 1988 favoreceu processos de demarcação de territórios, que continuam a ser feitos até hoje. Em todas as regiões do Brasil, as reivindicações geraram uma profusão de relatórios, laudos e pareceres, produzidos por grupos técnicos, que realizam os estudos etno-históricos, antropológicos, ambientais e cartográficos exigidos pela legislação. Em cada uma dessas iniciativas, consta um elemento em comum: os mapas. Há representações oficiais, feitas no período colonial, no Império e na República. Há desenhos feitos à mão pelos moradores ou produzidos com a ajuda de sistemas de navegação por satélite, como o GPS, e aplicativos. Por conseguinte, a cartografia vem ganhando importância na área da antropologia, em contextos como a formação de professores indígenas, a demarcação e a gestão ambiental de suas terras, a produção de laudos para a regularização fundiária.

        Nas demarcações, tem sido fundamental a cartografia histórica, sobretudo para a análise de mapas produzidos na segunda metade do século XVIII, após a assinatura do Tratado de Madrid, que delimitou os territórios pertencentes a Portugal e Espanha na América do Sul, em 1750, afirma a historiadora Íris Kantor. "Nesse período, os mapas foram confeccionados por expedições militares e científicas que visavam urbanizar os indígenas, além de terem facilitado a construção de fortalezas, a instalação de registros fiscais e o reconhecimento das vias de comunicação terrestres e fluviais. Hoje, a disponibilização da cartografia digital em alta resolução e a catalogação dos espécimes cartográficos permitem fazer um uso 'contracolonial' desses suportes de informação geográfica bidimensionais", afirma. Além disso, o uso dos mapas históricos exige conhecimentos variados. Eles são classificados segundo critérios como o suporte material, a linguagem gráfica e o público destinatário. Na elaboração dos laudos técnicos, a presença ou ausência de topônimos nos mapas possibilita a reconstituição das sucessivas formas de ocupação de uma área geográfica, considerando-se ainda as famílias de mapas da região. Esse método requer o conhecimento da história das línguas indígenas e suas interações com as línguas dos colonizadores.


Diego Viana. Quando o mapa é o território.

In: Pesquisa FAPESP, maio 2023, ano 24, n. 327, p. 74-79 (com adaptações). 

Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue o item seguinte.


O texto trata da relevância da cartografia histórica na demarcação de terras indígenas, atividade que requer a atuação profissional multidisciplinar na análise de aspectos como o suporte material, a linguagem gráfica, o público destinatário, os usos linguísticos. 

Alternativas
Q3992814 Português
Cientistas criam carne de laboratório com resíduos de cerveja


Um estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition aponta um método inovador desenvolvido por pesquisadores em Londres que utiliza leveduras da fabricação de cerveja para criar estruturas comestíveis destinadas ao cultivo de carne em laboratório.

A pesquisa aproveita uma fonte abundante de resíduos ricos em nutrientes: o fermento residual da produção de cerveja. Esse material é reaproveitado para alimentar bactérias que produzem celulose, formando a estrutura necessária para que a carne cultivada desenvolva sua própria textura.

"Esta é a matéria-prima, o alimento para as nossas bactérias, que produzem a celulose bacteriana usada como suporte para células animais, permitindo a produção de carne cultivada em laboratório", explicou Christian Harrison, estudante de doutorado da University College London (UCL), enquanto segurava um frasco de levedura utilizada em uma cervejaria no sul de Londres.

Segundo Harrison, embora as bactérias possam crescer em diferentes substâncias, o uso desse resíduo traz vantagens ambientais. "Podemos transformar lixo, que de outra forma seria descartado, em algo útil", afirmou.

O estudo explora especificamente o uso da celulose bacteriana derivada do fermento de cerveja usado, um subproduto frequentemente descartado. Testes das propriedades mecânicas desse material indicam resultados promissores para reproduzir a textura e a sensação na boca da carne convencional.

Os pesquisadores destacam, no entanto, que o trabalho ainda está em fase de prova de conceito. O objetivo, por ora, é demonstrar um material de suporte comestível, e não um produto final, já que ainda há desafios significativos relacionados à escala de produção e à padronização do processo.

De forma mais ampla, a carne cultivada permanece um mercado incipiente e restrito no mundo. Singapura foi o primeiro país a autorizar a venda do produto, em dezembro de 2020, seguida pelos Estados Unidos, que liberaram as primeiras comercializações em junho de 2023. Segundo empresas do setor, os principais obstáculos continuam sendo a redução de custos e a produção em larga escala com segurança alimentar.


https://www.cnnbrasil.com.br/ciencia/cientistas-criam-carne-de-laborato rio-com-residuos-de-cerveja/
A proposta apresentada no texto articula inovação tecnológica e reaproveitamento de resíduos industriais, sugerindo uma abordagem que ultrapassa a simples criação de um novo alimento. Ao considerar os elementos destacados na pesquisa, pode-se afirmar que o diferencial do método desenvolvido pelos cientistas está relacionado principalmente:
Alternativas
Q3992510 Português

O texto seguinte servirá de base para responder à questão.



Mãe e filha descobrem maior colônia de corais do mundo na costa australiana



Uma equipe de cientistas cidadãs, formada por mãe e filha, identificou a maior colônia de corais conhecida no mundo, localizada na Grande Barreira de Corais, na costa da Austrália.


Tem cerca de 111 metros (364 pés) de comprimento − aproximadamente o mesmo que um campo de futebol − e cobre cerca de 3.973 metros quadrados (42.765 pés quadrados), de acordo com um comunicado da organização de conservação Citizens of the Reef divulgado na terça-feira (24).


Isso significa que está "entre as estruturas de coral mais significativas já registradas na Grande Barreira de Corais" e é "a maior colônia de coral documentada e mapeada do mundo", segundo a organização.


O coral foi encontrado no final do ano passado por Sophie Kalkowski-Pope, coordenadora de operações marinhas da organização Citizens of the Reef, e sua mãe, Jan Pope, mergulhadora experiente e fotógrafa subaquática.


Pope havia mergulhado no local uma semana antes e sabia que tinha visto algo especial. Então, a dupla retornou com equipamentos de medição.


"Quando entramos na água, imediatamente reconheci a importância do que estávamos vendo", disse Kalkowski-Pope. Juntos, eles filmaram um vídeo nadando pela extensão do coral em forma de J. "Levei três minutos de vídeo só para nadar de um lado para o outro", disse Kalkowski-Pope.


O tamanho do coral Pavona clavus foi verificado por meio de medições manuais subaquáticas e imagens de alta resolução obtidas a partir de plataformas na superfície da água.


Esses dados foram então usados para produzir um modelo 3D do coral, de acordo com a organização Citizens of the Reef.


Esse tipo de modelagem espacial é útil para monitorar o local e suas mudanças, pois "significa que podemos retornar nos próximos meses e anos e fazer comparações diretas, um a um, para entender como o coral muda ao longo do tempo", disse Serena Mou, engenheira de pesquisa do Centro de Robótica da Universidade de Tecnologia de Queensland.


Constatou-se que o local apresenta fortes correntes de maré e baixa exposição a ondas ciclônicas tropicais em comparação com muitas outras partes da Grande Barreira de Corais, e os cientistas estão agora examinando se essas condições podem desempenhar um papel na existência de uma estrutura de coral tão grande. 


A Grande Barreira de Corais da Austrália é a maior estrutura viva do planeta e lar de uma vasta gama de espécies. Mas, nos últimos anos, ela foi atingida por uma série de eventos devastadores de branqueamento em massa , transformando as cores vibrantes de partes do recife em um branco brilhante.


Em todo o mundo, os corais estão sofrendo um destino semelhante, com mais de 80% dos recifes oceânicos afetados por um evento global de branqueamento em curso, que começou em 2023 devido às temperaturas marinhas recordes. O branqueamento pode ser fatal, pois os corais ficam sem as algas que vivem em seu interior e servem de alimento.


O projeto Citizens of the Reef faz parte dos esforços de conservação que visam proteger a Grande Barreira de Corais, e a dupla de mãe e filha estava realizando um levantamento da área a partir do barco da família como parte do Great Reef Census, um esforço conjunto para coletar imagens da Grande Barreira de Corais que envolve mais de 100 embarcações.


"O Grande Censo dos Recifes nos ajuda a localizar as fontes mais importantes de recuperação dos recifes, auxiliando cientistas e gestores a direcionar melhor sua proteção", disse Pete Mumby, do Laboratório de Ecologia Espacial Marinha da Universidade de Queensland, em comunicado.


A iniciativa faz parte dos esforços para mobilizar o "poder popular" a fim de impulsionar os esforços de conservação, afirmou Andy Ridley, CEO da Citizens of the Reef, em comunicado.


"O Censo dos Grandes Recifes foi desenvolvido para complementar os programas de monitoramento existentes, coletando dados em larga escala", disse ele.


"Isso só é possível graças a pessoas que já estão na água, como Sophie e Jan, e a milhares de cientistas cidadãos em todo o mundo."



https://www.cnnbrasil.com.br/ciencia/mae-e-filha-descobrem-maior-colo nia-de-corais-do-mundo-na-costa-australiana/

O uso de tecnologias de medição e modelagem foi fundamental para confirmar a relevância da estrutura encontrada. A descrição do processo técnico indica que:
Alternativas
Respostas
3001: C
3002: E
3003: C
3004: C
3005: E
3006: C
3007: C
3008: C
3009: C
3010: E
3011: E
3012: E
3013: C
3014: E
3015: E
3016: C
3017: E
3018: C
3019: B
3020: B