Questões de Concurso
Sobre coesão e coerência em português
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Do direito do mais forte
Nunca o mais forte o é tanto para ser sempre senhor, se não converte a força em direito, e em dever a obediência; eis donde vem o direito do mais forte, direito que irônica e aparentemente se tomou, e na realidade se estabeleceu em princípios. A força é um poder físico, não imagino qual moralidade possa resultar de seus efeitos; ceder à força é ato preciso, e não voluntário, ou quando muito prudente: em que sentido pode ser uma obrigação?
Suponhamos por um momento esse pretendido direito. Eu afirmo que dele só dimana o caos inexplicável; pois logo que a força faz o direito, com a causa muda o efeito, e toda força que excede a primeira toma o lugar de direito dela. Logo que a salvo podes desobedecer, legitimamente o fazes, e, como tem sempre razão o mais forte, tratemos só de o ser. Qual é, pois, o direito que resta, quando cessa a força? Se por força cumpre obedecer, desnecessário é o direito; e se não somos forçados a obedecer, que obrigação nos resta de o fazer? Logo, está claro que a palavra direito nada ajunta à força, e não tem aqui significação alguma.
(Jean-Jacques Rousseau. Do contrato social. Adaptado)
Uma andorinha não faz verão
No domingo de sol anterior ao Dia de Finados, evitei a praia lotada e subi para um refresco nas Paineiras. Morei dez anos em São Conrado e, na época, costumava fazer o trajeto com frequência, mas desisti do programa, depois de dar com dois corpos desovados pelo caminho. Agora só arrisco a visita nos feriados, quando o parque se enche de gente.
A beleza do Rio é comparável à sua barbárie.
No último mirante, depois da terceira queda d'água, o vento soprava forte, anunciando a virada de tempo na Guanabara. Dezenas de andorinhas aproveitavam a corrente de ar ascendente, impulsionando o voo num vertiginoso balé. Eu, conformada com as pernas, invejei a farra dos que nascem com asas. O espetáculo pontuou o fim do passeio.
Uma semana depois, esperando o sinal abrir no cruzamento da Lagoa, ao lado do Clube do Flamengo, fui surpreendida por uma andorinha solitária, que cruzou o para-brisa do carro a toda. Depois de driblar o trânsito, arriscando a vida num rasante pela via expressa, ela se meteu no vão entre o verde e o vermelho do sinal de pedestres do outro lado da rua.
Surpresa, percebi um resto de capim seco saindo da fresta do poste. Era um ninho em plena Avenida Epitácio Pessoa. Com tanta mata, tantas árvores e prédios altos na cidade, por que criar filhos num lugar tão desolado? Neurose urbana? Só pode ser.
Chocar ovos requer um planejamento requintado. É preciso encontrar um parceiro disposto, um endereço seguro e esmerar-se para juntar a palha. Não é algo que pega uma ave de surpresa, como uma contração fora de hora que te obriga a parir na estrada.
Que anomalia era aquela que fazia um casal de andorinhas trocar o êxtase das Paineiras pela tensão do asfalto? A solidão de uma esquina feia?
O delírio da passarinhada do alto da Tijuca não tinha nada de humano. Era um estado natural, como o das plantas e o das pedras, sem consciência ou sentido em si. Mas o ser do sinal de pedestres da esquina na Rodrigo de Freitas era um indivíduo escarrado, um quase parente. Ao vê-lo, eu me reconheci na sofreguidão de seu retorno para casa, no esforço de criar os filhos num ambiente inóspito, no risco e na ansiedade.
A andorinha aculturada sou eu.
Neste mês, o Brasil assassinou um rio e o El aterrorizou Paris. O mundo não anda nada hospitaleiro. Mesmo assim, ainda creio nos ninhos e nas revoadas.
Fernanda Torres. In: [email protected]
Julgue o item seguinte, relativo ao texto e a seu aspecto linguístico.
Na linha 30, o vocábulo “o” está empregado em
referência ao termo “investimento”.
Julgue o item seguinte, relativo ao texto e a seu aspecto linguístico.
Na linha 2, o vocábulo “que” está empregado em
referência a “crescente”.
A mulher que ia navegar
O anúncio luminoso de um edifício em frente, acendendo e apagando, dava banhos intermitentes de sangue na pele de seu braço repousado, e de sua face. Ela estava sentada junto à janela e havia luar; e nos intervalos desse banho vermelho ela era toda pálida e suave.
Na roda havia um homem muito inteligente que falava muito; havia seu marido, todo bovino; um pintor louro e nervoso; uma senhora morena de riso fácil e engraçado; um físico, uma senhora recentemente desquitada, e eu. Para que recensear a roda que falava de política e de pintura? Ela não dava atenção a ninguém. Quieta, às vezes sorrindo quando alguém lhe dirigia a palavra, ela apenas mirava o próprio braço, atenta à mudança da cor. Senti que ela fruía nisso um prazer silencioso e longo. “Muito!”, disse quando alguém lhe perguntou se gostara de um certo quadro - e disse mais algumas palavras; mas mudou um pouco a posição do braço e continuou a se mirar, interessada em si mesma, com um ar sonhador.
Quando começou a discussão sobre pintura figurativa, abstrata e concreta, houve um momento em que seu marido classificou certo pintor com uma palavra forte e vulgar; ela ergueu os olhos para ele, com um ar de censura; mas nesse olhar havia menos zanga do que tédio. Então senti que ela se preparava para o enganar.
Ela se preparava devagar, mas sem dúvida e sem hesitação íntima nenhuma; devagar, como um rito. Talvez nem tivesse pensado ainda que homem escolhería, talvez mesmo isso no fundo pouco lhe importasse, ou seria, pelo menos, secundário. Não tinha pressa. O primeiro ato de sua preparação era aquele olhar para si mesma, para seu belo braço que lambia devagar com os olhos, como uma gata se lambe no corpo; era uma lenta preparação. Antes de se entregar a outro homem, ela se entregaria longamente ao espelho, olhando e meditando seu corpo de 30 anos com uma certa satisfação e uma certa melancolia, vendo as marcas do maiô e da maternidade e se sorrindo vagamente, como quem diz: eis um belo barco prestes a se fazer ao mar; é tempo.
Talvez tenha pensado isso naquele momento mesmo; olhou-me, quase surpreendendo o olhar com que eu estudava; não sei; em todo caso, me sorriu e disse alguma coisa, mas senti que eu não era o navegador que ela buscava. Então, como se estivesse despertando, passou a olhar uma a uma as pessoas da roda; quando se sentiu olhado, o homem inteligente que falava muito continuou a falar encarando-a, a dizer coisas inteligentes sobre homem e mulher; ela ia voltar os olhos para outro lado, mas ele dizia logo outra coisa inteligente, como quem joga depressa mais quirera de milho a uma pomba. Ela sorria, mas acabou se cansando daquele fluxo de palavras, e o abandonou no meio de uma frase. Seus olhos passaram pelo marido e pelo pequeno pintor louro e então senti que pousavam no físico. Ele dizia alguma coisa à mulher recentemente desquitada, alguma coisa sobre um filme do festival. Era um homem moreno e seco, falava devagar e com critério sobre arte e sexo. Falava sem pose, sério; senti que ela o contemplava com uma vaga surpresa e com agrado. Estava gostando de ouvir o que ele dizia à outra. O homem inteligente que falava muito tentou chamar-lhe a atenção com uma coisa engraçada, e ela lhe sorriu; mas logo seus olhos se voltaram para o físico. E então ele sentiu esse olhar e o interesse com que ela o ouvia, e disse com polidez:
- Asenhora viu o filme?
Ela fez que sim com a cabeça, lentamente, e demorou dois segundos para responder apenas: vi. Mas senti que seu olhar já estudava aquele homem com uma severa e fascinada atenção, como se procurasse na sua cara morena os sulcos do vento do mar e, no ombro largo, a secreta insígnia do piloto de longo, longo curso.
Aborrecido e inquieto, o marido bocejou - era um boi esquecido, mugindo, numa ilha distante e abandonada para sempre. É estranho: não dava pena.
Ela ia navegar.
BRAGA, Rubem. A mulher que ia navegar. In: Rubem Braga.
Recado da primavera. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 1991. p.80-82.
Olhe e leia o desenho na camiseta abaixo:

Cada palavra ou expressão verbal do desenho corresponde
a um número de 1 a 7. Qual sequência numérica geraria uma
combinação não prevista pela sintaxe da língua portuguesa?
Despedida
E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefmível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio toma tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus. A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.
FONTE: http://www.releituras.com/rubembraga_despedida.asp. Acesso 1 abr2018.
No trecho da crônica de Rubem Braga “E que houve
momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam,
porque ficaram em nossa vida (...)”, o elemento coesivo “mas”
possui o sentido de
Serena Sintética
Lua
morta.
Rua
torta
Tua
porta.
RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957, p. 27.
Para muitos estudiosos e teóricos, a coerência e a coesão, que formam parte dos critérios tidos como constitutivos da textualidade, são os mais importantes. A partir da leitura de "Serenata Sintética", informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma acerca do poema.
( ) É destituído de elementos coesivos, o que o torna incoerente e o impede de funcionar e de ser chamado de texto.
( ) Apresenta-se segmentado, mas isso não obsta, obviamente, que funcione como um texto perfeitamente inteligível.
( ) Impossibilita o leitor de conseguir interpretá-lo, ainda que este assuma uma atitude colaborativa na produção de sentidos.
( ) Reúne fatos isolados a partir de palavras soltas distribuídas no espaço branco do papel, não forma uma sequência contínua nem exibe textura.
( ) Proporciona o entendimento de que a coesão superficial não é necessária para a textualidade, pois esta é inferida a partir da coerência identificada.
De acordo com as afirmações, a sequência correta é
Preencha corretamente as lacunas do texto a seguir quanto aos elementos de coesão textual.
A coesão __________ pode ser obtida por substituição e por reiteração, enquanto a coesão __________ se constitui por paralelismo e paráfrase. Por último, a coesão __________ é temporal e ocorre por conexão.
A sequência que preenche corretamente as lacunas do texto é
Julgue o item no que se refere à correção gramatical e à coerência da proposta de reescrita para cada um dos trechos destacados do texto.
“para que eles não causem mais dano” (linhas 18 e 19): para eles não causarem mais dano
Julgue o item no que se refere à correção gramatical e à coerência da proposta de reescrita para cada um dos trechos destacados do texto.
“pois ela permite que um erro no DNA seja retirado e outro material, ‘correto’, seja colocado no lugar” (linhas de 9 a 11): porquanto ela permite que se retire um erro no DNA e se coloque outro material, “correto”, no lugar
Julgue o item no que se refere à correção gramatical e à coerência da proposta de reescrita para cada um dos trechos destacados do texto.
“entre eles, a consolidação da técnica de edição de material genético denominada Crispr” (linhas de 2 a 4): entre os quais se insere a consolidação da técnica de edição de material genético conhecida como Crispr
Considerando a correção gramatical e a coerência das substituições propostas para vocábulos e trechos destacados do texto, julgue o item.
“para seres humanos” (linha 26) por à pessoas
Considerando a correção gramatical e a coerência das substituições propostas para vocábulos e trechos destacados do texto, julgue o item.
“por meio da qual” (linhas 4 e 5) por pelo quê
Considere o início de um texto extraído da revista Exame(<https://exame.abril.com. br/ciencia/fruta-ajuda-a-prevenirperda-da-visao-relacionada-ao-envelhecimento/>):
Uma fruta pode ajudar a prevenir a perda de visão relacionada com o envelhecimento.
A seguir, são apresentadas, fora de ordem, as frases que dão continuidade a esse texto. Numere os parênteses, indicando a ordem textual correta.
( ) O estudo consistiu no acompanhamento de 2037 adultos com idades de 49 anos ou mais, ao longo de 15 anos.
( ) A constatação dos pesquisadores foi de que as pessoas que consumiram regularmente, uma vez ao dia, uma porção de laranja apresentaram mais de 60% menos chances de desenvolver a degeneração macular em razão da idade.
( ) É isso que concluíram pesquisadores do Westmead Institute for Medical Research, afiliado à Universidade de Sidney, na Austrália, ao analisar o efeito do consumo de laranjas.
( ) Reavaliados a cada cinco anos, os voluntários eram analisados para identificar se tinham ou não sido afetados pela degeneração macular relacionada à idade, que deixa a visão turva e pode levar à cegueira.
Assinale a alternativa que apresenta a numeração correta dos parênteses, de cima para baixo.
Considere o texto a seguir:
“Gratidão” é o sentimento que circulou pelo Brasil em 2017
Nos perfis dos brasileiros nas redes sociais, a #gratidão só perdeu para o amor. Historiador acha que ________é um fenômeno do nosso tempo. […] Para o Hélcio, a vida bem que podia estar melhor. Ele queria estar estudando. Mas ________, inesperadamente, ________ mesma emoção o pegou em cheio. “Estou muito feliz. Quero agradecer o chefe que me deu R$ 20”, comemora. E a gorjeta foi só um jeito que o Eduardo achou para agradecer. “A saúde que eu tenho, a minha filha, principalmente”, diz. O gesto de juntar as palmas das mãos diz alguma coisa para você? ________, ele é universal, mas ______ ano ganhou um significado forte em português: gratidão. Eu tenho quase certeza que você ouviu ou leu ________ palavra, talvez tenha até compartilhado.
(Adaptado de: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/12/gratidao-e-o-sentimento-que-circulou-pelo-brasil-em-2017.html)
As palavras que completam as lacunas do texto acima são, respectivamente:
Julgue o item subsequente, no que se refere à correção gramatical e à coerência da proposta de reescrita para cada um dos trechos destacados do texto.
“Muitas pessoas ainda não têm acesso ao tratamento” (linha 31): Muitas pessoas não têm ainda acesso ao tratamento
Julgue o item subsequente, no que se refere à correção gramatical e à coerência da proposta de reescrita para cada um dos trechos destacados do texto.
“Apesar de ser evitável e curável” (linha 29): Embora
evitável e curável




