Leia o trecho de Morte e vida severina, de João Cabral de Me...
Fabiano tinha ido à feira da cidade comprar mantimentos. Precisava sal, farinha, feijão e rapaduras. Sinhá Vitória pedira além disso uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha. Mas o querosene de seu Inácio estava misturado com água, e a chita da amostra era cara demais.
Fabiano percorreu as lojas, escolhendo o pano, regateando um tostão em côvado, receoso de ser enganado. Andava irresoluto, uma longa desconfiança dava-lhe gestos oblíquos. À tarde puxou o dinheiro, meio tentado, e logo se arrependeu, certo de que todos os caixeiros furtavam no preço e na medida: amarrou as notas na ponta do lenço, meteu-as na algibeira, dirigiu-se à bodega de seu Inácio.
Aí certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiu beber uma pinga, pois sentia calor. Seu Inácio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou o copo de um trago, cuspiu, limpou os beiços à manga, contraiu o rosto. Ia jurar que a cachaça tinha água. Por que seria que seu Inácio botava água em tudo? perguntou mentalmente. Animou-se e interrogou o bodegueiro:
- Por que é que vossemecê bota água em tudo?
Seu Inácio fingiu não ouvir. E Fabiano foi sentar-se na calçada, resolvido a conversar. O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomás da bolandeira. Pobre de seu Tomás. Um homem tão direito andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Tomás era pessoa de consideração e votava. Quem diria?
(Graciliano Ramos. Vidas secas. 118. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2012, p. 2728. Adaptado)
Vejo que o Capibaribe, como os rios lá de cima, é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina e no verão também corta, com pernas que não caminham. Tenho de saber agora qual a verdadeira via entre essas que escancaradas frente a mim se multiplicam. Mas não vejo almas aqui, nem almas mortas nem vivas; ouço somente à distância o que parece cantoria. Será novena de santo, será algum mês-de-Maria; quem sabe até se uma festa
(João Cabral de Melo Neto. Morte e vida Severina e outros poemas para vozes. 34 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994, p. 3335)
Vidas secas, de Graciliano Ramos, e Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, apresentam em comum o fato de
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Tema central: Interpretação de Texto
Esta questão testa a capacidade de compreender o tema principal de textos literários—habilidade fundamental em concursos públicos, especialmente para o cargo de Tecnólogo de Administração, onde a leitura atenta e criteriosa é exigida em várias etapas. Segundo a norma-padrão e os manuais oficiais (como o Manual de Redação da Presidência da República), a correta interpretação depende da identificação clara de ideias centrais e secundárias.
Justificativa da alternativa correta (B):
Ambos os trechos — tanto de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, quanto de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto — expressam as dificuldades enfrentadas por famílias nordestinas que migram por causa da seca. Nota-se, em ambos, a presença de personagens retirantes, que lutam contra adversidades como sede, fome, exploração e desalento. Daí a coerência textual: o tema da migração forçada devido à seca é, sem dúvida, o elo comum entre as obras, o que indica que B é a correta. Conforme Celso Cunha & Lindley Cintra, a sólida compreensão temática corresponde à identificação dos traços de realidade regional e social do conteúdo.
Análise das alternativas incorretas:
A) FALSA. Nem Vidas Secas nem Morte e Vida Severina se ocupam especificamente do abandono de ex-escravos; seus personagens são retirantes rurais, não libertos do século XIX.
C) FALSA. Apesar de Severino chegar à cidade, não há centralidade na figura do operário urbano miserável;
D) FALSA. Ambas as obras são realistas e apresentam tom grave e sóbrio, nada há de cômico ou fantasioso, como em Macunaíma;
E) FALSA. A temática dos imigrantes europeus não é abordada nessas obras, mas sim a da população nordestina autóctone.
Dicas para provas futuras:
- Atente-se para palavras-chave (migração, seca, retirante).
- Desconfie de alternativas com focos históricos e regionais que não estejam diretamente ligados ao texto ou contexto citado.
- Textos literários clássicos costumam retratar temas sociais amplos — identifique esse pano de fundo na sua leitura.
Com base em autores como Evanildo Bechara e no próprio texto, o segredo é buscar o núcleo temático e evitar generalizações ou associações indevidas nas alternativas.
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Comentários
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A temática é a mesma, isto é, a seca no nordeste e o sofrimento daqueles que dependem da chuva para sobreviver, além de sofrerem com a seca, são totalmente desprezados pelas autoridades.
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