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Q718385 Português

A casa das ilusões perdidas  


            Quando ela anunciou que estava grávida, a primeira reação dele foi de desagrado, logo seguida de franca irritação. Que coisa, disse, você não podia tomar cuidado, engravidar logo agora que estou desempregado, numa pior, você não tem cabeça mesmo, não sei o que vi em você, já deveria ter trocado de mulher havia muito tempo. Ela, naturalmente, chorou, chorou muito. Disse que ele tinha razão, que aquilo fora uma irresponsabilidade, mas mesmo assim queria ter o filho. Sempre sonhara com isso, com a maternidade – e agora que o sonho estava prestes a se realizar, não deixaria que ele se desfizesse. 

            – Por favor, suplicou. – Eu faço tudo que você quiser, eu dou um jeito de arranjar trabalho, eu sustento o nenê, mas, por favor, me deixe ser mãe.

            Ele disse que ia pensar. Ao fim de três dias daria a resposta. E sumiu.

           Voltou, não ao cabo de três dias, mas de três meses. Àquela altura ela já estava com uma barriga avançada que tornava impossível o aborto; ao vê-lo, esqueceu a desconsideração, esqueceu tudo – estava certa de que ele vinha com a mensagem que tanto esperava, você pode ter o nenê, eu ajudo você a criá-lo.

          Estava errada. Ele vinha, sim, dizer-lhe que podia dar à luz a criança; mas não para ficar com ela. Já tinha feito o negócio: trocariam o recém-nascido por uma casa. A casa que não tinham e que agora seria o lar deles, o lar onde – agora ele prometia – ficariam para sempre.

           Ela ficou desesperada. De novo caiu em prantos, de novo implorou. Ele se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu.

           Entregue a criança, foram visitar a casa. Era uma modesta construção num bairro popular. Mas era o lar prometido e ela ficou extasiada. Ali mesmo, contudo, fez uma declaração.

          – Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo.

         Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo.


                                                                                                             Moacyr Scliar. Folha de S.Paulo, 14/06/99.  

De acordo com o texto, é correto afirmar que
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é textual-interpretativo: a progressão narrativa mostra que a mulher não adere espontaneamente à troca, mas cede à imposição do marido. Isso está concentrado em "Ele se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu.", em que "como sempre" indica padrão de submissão/condescendência e "cedeu" indica aceitação contrariada; por isso, o gabarito é C.

Tema central: inferência textual
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação temporal indevida. O texto informa que, no início, "a primeira reação dele foi de desagrado, logo seguida de franca irritação", o que comprova rejeição à gravidez, mas não prova que ele já pretendesse vender a criança desde esse momento. A ideia da troca só aparece mais tarde, quando ele retorna e o narrador afirma: "Já tinha feito o negócio: trocariam o recém-nascido por uma casa." Rejeitar a gravidez não é o mesmo que ter, desde o início, um plano comercial definido.
B
Errada
A alternativa atribui à mulher uma lógica mercantil que o texto reserva ao marido. Depois de visitar a casa, ela diz: "Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo.", fala que projeta maternidade e vida familiar. O fechamento irônico deixa claro quem pensa em negócio: "Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo." Portanto, a mulher não passa a visualizar troca de crianças por casas; quem faz essa associação é o marido.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o texto não mostra adesão espontânea da mulher à troca do filho pela casa. Ao contrário, mostra recusa explícita: ela "ficou desesperada", "caiu em prantos" e "implorou". A aceitação só ocorre depois da postura inflexível do marido, resumida em "Ele se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu." O sentido decisivo está em "como sempre", que caracteriza um comportamento recorrente de submissão/condescendência, e em "cedeu", que indica que ela aceitou por se dobrar à vontade dele, não por concordar com o negócio.
D
Errada
A alternativa inventa uma motivação altruísta que o texto não sustenta. Não há base textual para afirmar que ele trocou o bebê porque se importava com a condição de vida da mulher. Ao contrário, a narrativa o caracteriza por rejeição, imposição e cálculo utilitário. Isso fica incompatível com a leitura de cuidado especialmente no final: "Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo." Essa frase mostra interesse mercantil, não preocupação principal com o bem-estar dela.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre fato textual e intenção presumida: o leitor pode transformar a hostilidade inicial do marido em prova de um plano antigo de vender a criança, ou pode atribuir à mulher a lógica mercantil do desfecho. O texto, porém, separa essas funções: ele idealiza o negócio; ela resiste e só aceita porque "como sempre, cedeu".
Dica para questões semelhantes
  • Separe reação inicial de intenção comprovada: rejeição a um fato não autoriza concluir, sem apoio textual, um plano já definido.
  • Observe quem fala e quem pensa no desfecho narrativo: aqui, o projeto afetivo é da mulher, e a lógica mercantil é do marido.
  • Quando o texto traz marcas como "como sempre" e verbos como "cedeu", use esses elementos para identificar padrão de comportamento e motivo da ação.

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