TEXTO III
“Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira
sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser.
Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os vidros
para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo, calada, a noite era o túmulo de Deus (a
alma sofria com pena de Deus).
E, de repente — nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade –, o vento assobiava no
intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas agitações na altura. Depois a noite
fechava-se como um alçapão, e um grande sossego fazia vontade de ter estado a dormir.”
PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Disponível em:
https://agrcanelas.edu.pt/blogs/biblioteca/files/2012/11/Livro-do-Desassossego-.pdf. Acesso em: 5 de agosto de 2025. (Fragmento)