Questões Militares
Sobre gêneros textuais em português
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Texto para a questão.
Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade.
Nas favelas brasileiras, as apostas online não chegam como entretenimento. Chegam como promessa de renda. Em mais de dois anos de pesquisa, ouvi repetidamente: “Quem diz que joga por diversão está mentindo. Você joga por dinheiro, dinheiro fácil.”
Essa frase desmonta a ideia de lazer digital. O que emerge é outra coisa: uma economia informal mediada por plataformas. Pix instantâneo, depósitos mínimos de poucos reais, bônus de entrada e influenciadores exibindo ganhos. O cassino não se apresenta como um cassino. Se apresenta como oportunidade. Mas oportunidade para quem?
Pedro, de 32 anos, começou com pequenas apostas. Ganhou no início e teve a sensação de ter “entendido o sistema”. Quando perdeu, tentou recuperar. Apostar mais parecia lógico. Insistir parecia uma estratégia. O raciocínio era simples: continuar até reverter. Ele perdeu as economias da família.
Endividado, pegou dinheiro de alguém ligado ao tráfico. Sem conseguir pagar, passou a trabalhar para quitar a dívida, vendendo drogas. O que começou como promessa de renda terminou em violência, ruptura familiar e vergonha. O jogo saiu da tela e atravessou a vida.
A história de Roberta, de 40 anos, revela outro tipo de impacto. O dinheiro do mês começou a desaparecer em pequenos valores: Pix de dez, quinze, vinte reais. Isoladamente, pareciam irrelevantes. Somados, desorganizaram o orçamento.
O responsável era o neto, “o menino que entende de tecnologia”. Ele tinha acesso à conta, conhecia os aplicativos, os bônus e os horários de promoção. A curiosidade virou uma retirada constante de recursos essenciais. O impacto foi também relacional: a confiança familiar se rompeu.
Esses casos não são exceção. São padrão. As plataformas são desenhadas para manter os usuários. O primeiro ganho cria a sensação de possibilidade. O saque exige novos depósitos. Os bônus aparecem nos momentos certos. As perdas são reconfiguradas como aprendizado. Sempre há a promessa de recuperação.
Em contextos de precariedade, essa arquitetura encontra terreno fértil. Muitos dizem apostar apenas o dinheiro que sobra. Trata-se de fechar o mês, pagar contas, aliviar a pressão. Apostar vira estratégia de sobrevivência em um cenário de trabalho instável e de renda insuficiente. Mas essa estratégia aprofunda o problema.
As bets funcionam como infraestruturas financeiras paralelas. Não se aposta capital excedente, mas dinheiro de mercado, aluguel, remédio. Pequenas quantias que fazem falta concretamente.
O discurso dominante individualiza o risco: perdeu porque errou, ganhou porque mereceu. Essa lógica oculta que as probabilidades são estruturadas por algoritmos opacos, concebidos para garantir lucro às plataformas.
Enquanto isso, clubes exibem marcas de apostas; influenciadores lucram com cadastros e monetizam links. Entre jovens homens, apostar também se torna uma identidade. Demonstra capacidade de prover.
O resultado raramente é estabilidade. O que aparece são dívidas, conflitos familiares, depressão. Pequenos depósitos que corroem o orçamento. Pequenos empréstimos que viraram grandes dívidas. Pequenas mentiras que abalam relações.
Tratar isso como um vício individual é insuficiente. O que vemos é uma transformação estrutural: plataformas convertendo precariedade em especulação cotidiana. Ninguém aposta porque gosta de perder dinheiro. Aposta porque o salário não basta, a mobilidade parece distante e a promessa de ganho rápido se torna visível.
O problema é que a probabilidade raramente favorece quem já começa em desvantagem. O cassino está no bolso. Cada notificação é uma nova chance de transformar necessidade em risco.
No fim, o prejuízo atravessa casas e comunidades. As bets não são apenas jogos. São um modelo de negócios que transforma vulnerabilidade em lucro. E, quanto mais difícil é sobreviver, mais sedutora se torna a aposta.
NEMER, David. Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade. 28/03/2026, às 22:00. Tendências e Debates. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/nas-favelas-apostas-online-vendem-sobrevivencia-e-entregamprecariedade.shtml. Acesso em: 23/03/2026.
Texto para a questão.
O Silêncio sob os Escombros e a Geopolítica do Terror
Antenor Teixeira de Almeida Júnior
A conivência internacional diante da sistemática aniquilação de estruturas civis no Irã atingiu um patamar de degradação moral insustentável após o bombardeio que ceifou a vida de 168 crianças em uma instituição de ensino. Sob o pretexto de neutralizar alvos estratégicos, a coalizão entre Estados Unidos e Israel transgride não apenas as fronteiras geográficas, mas os pilares mais elementares do Direito Internacional Humanitário, convertendo escolas em necrópoles e o futuro de uma nação em dano colateral. O que se testemunha não é uma manobra defensiva de precisão, mas uma demonstração de força bruta que utiliza a assimetria bélica para punir populações vulneráveis, revelando um desprezo absoluto pela distinção entre combatentes e inocentes.
O argumento da autodefesa, frequentemente esgrimido por Washington e Tel Aviv para justificar incursões em solo iraniano, desmorona diante do massacre de crianças em idade escolar. Quando mísseis de alta tecnologia são direcionados a um ambiente de aprendizado, a narrativa de erro técnico ou de escudos humanos torna-se uma retórica cínica que visa mascarar o terrorismo de Estado. A história ensina que a destruição de infraestruturas educacionais é um método eficaz de desarticulação social a longo prazo, mas o custo humanitário dessa estratégia é uma mancha indelével na consciência das potências que se autointitulam guardiãs da democracia e da liberdade.
Ademais, a paralisia dos órgãos multilaterais, como o Conselho de Segurança da ONU, diante da agressão unilateral das forças ocidentais, reforça a percepção de uma justiça seletiva que opera conforme os interesses do capital e do controle energético. Ao ignorar as vozes que clamam por sanções contra os agressores e ao permitir que 168 vidas infantis sejam reduzidas a estatísticas em relatórios burocráticos, a comunidade internacional torna-se cúmplice por omissão. A paz não será alcançada por meio de ataques que semeiam o ódio em gerações inteiras; ao contrário, a violência desenfreada contra o Irã apenas alimenta o ciclo de retaliações que ameaça a estabilidade global.
Em suma, é imperativo que o mundo desperte para a urgência de cessar a impunidade que protege os autores desse infanticídio deliberado. A condenação dos ataques de Estados Unidos e Israel não deve ser apenas um gesto diplomático de conveniência, mas um movimento concreto de ruptura com a lógica da barbárie travestida de ordem mundial. Se a morte de centenas de crianças dentro de uma sala de aula não for capaz de reverter a engrenagem da guerra, o que restará da nossa humanidade será apenas o eco de um silêncio covarde sobre os escombros da civilização.
Texto 2
A AURORA
A aurora chegou vestida de cor-de-rosa, passou pela vidraça, passou através de minhas pálpebras, acordou meus olhos. Mas não me acordou a alma, que ficou dormente-não-dormindo, boba e semi-iluminada. Depois, ela, a aurora, foi esvoaçar sobre os telhados, e era como se aquilo estivesse acontecendo no passado. Meus olhos ficaram espiando aquela aurora doida que esvoaçava e se adelgaçava e deixava nascer de seu ventre róseo os primeiros passarinhos matutinos.
Como são vivos e novos os passarinhos enxotados pela aurora! Como a alma de um homem é boba e vadia! Como a doçura da preguiça de uma criatura que amanhece infantil! Como às vezes, ao surgir o dia, o homem se descobre miraculosamente perdoado de todos os crimes, crimes não, de todas as coisas feias que cometeu. Que nem cometeu, que deixou acontecer. Quem nos perdoa, não sabemos. Talvez seja assim: o sofrimento se junta, vai se juntando dentro da gente, lacerando, doendo, até que um dia a dor é tanta que nos pune. Então, ficamos perdoados. Puros, recomeçamos de alma nova, voltados à limpura como exercício de escola.
Voltando à aurora, ela começou a sentir que morria. Ficou pálida. Um vento frio levantava as grinaldas da janela. As árvores começaram miraculosamente a dar folhas e frutos. Os pássaros se coloriram. Trens fumacentos avançaram sobre a cidade. Homens gritavam vendendo coisas. Ah, a aurora foi ficando palidíssima e morreu, morreu bem em cima de meus olhos, no instante em que as duas últimas estrelinhas eram riscadas do show noturno. Amanhecia implacavelmente.
Aí chegou a vez do enterro da aurora. O coche foi levado por andorinhas de sobrecasaca, foi levado para muito longe, para muito além de um monte escuro, e desapareceu.
Fiquei só outra vez. Por um momento quis que ela voltasse. Depois resolvi ser novamente um homem, com duas pernas, dois braços, dez dedos práticos, com uma cabeça que deve decidir de onde pôr os meus pés. É meio mórbido ficar flanando indefinidamente a perda de uma aurora, mesmo uma aurora especial como aquela, capaz de perdoar-nos os pecados.
Ergui-me da cama resoluto como um rei e fui lavar a cara. Escovei os dentes com um máximo de alegria. Abençoado sejas, irmão dentifrício, que me refrescas a boca.
Em jejum, acendi como sempre o primeiro cigarro. Que me dá tosse. Não importa. Abençoado sejas, irmão fumo, irmão fumaça que sobes para o céu.
Deitei-me na cama de novo enquanto os cavalos dos poemas antigos traziam o Sol em atropelada brilhante. Vi-os fortes e louros romper pelo céu onde tinha morrido de morte linda a aurora. Abençoado seja o Sol. Abençoado seja o dia. Abençoado seja o descanso. Abençoados sejam os pássaros diurnos e noturnos. Abençoadas sejam as criaturas de todo o mundo. Abençoado o fogo; a terra; o ar; a água. Abençoada seja a aurora. Que me perdoe de meus pecados.
CAMPOS, Paulo Mendes. O amor acaba. Crônicas líricas e
existenciais. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2013.
Leia a tira a seguir para responder à questão.

(Bill Waterson. “O Melhor de Calvin”, 21.04.2024. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/quadrinhos)
Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder à questão.
Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.
— Mamãe, tire esse cabelo da testa.
— É um pouco da franja ainda.
— Mas você fica feia assim.
— Tenho o direito de ser feia.
— Não tem!
— Tenho!
— Eu disse que não tem!
E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava-me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.
(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)
I. O discurso científico, assim como o filosófico, utiliza-se da tipologia dissertativa.
II. A utilização de verbos no imperativo é uma característica da tipologia textual descritiva.
III. O gênero textual poesia privilegia a linguagem conotativa em relação à linguagem denotativa.
IV. Os gêneros textuais são formas relativamente estáveis, sendo possível escrever um texto em um formato que habitualmente seria de outro gênero textual.
Sobre as assertivas acima, é correto afirmar que
“Via-se ao centro a grande mesa, devastada e abandonada, como um campo depois de medieválica peleja a ferro frio, e, no meio do destroço, dominante, e altiva, erguia-se intacta, numa apoteose de açúcar e fios de ovos, uma noivazinha de alfenim, coroada de áureos caramelos e vestida de papel de seda.
Essa ridícula boneca, que se poderia derreter com um bochecho d’água, representava, entretanto, ali, naquele centro burguês e pretensioso, nada menos que a instituição mais respeitável da sociedade, representava a família. Naquele alfenim, frágil, cândido e consagrado, havia a doçura do lar doméstico, toda a pureza do amor conjugal e também toda a fragilidade da honra de um marido”.
A estruturação desse fragmento textual descritivo mostra uma visão negativa da cena descrita, construída por um conjunto de elementos distintos. Assinale o elemento abaixo que não participa dessa construção negativa.
Associe as colunas relacionando os gêneros textuais com suas respectivas estruturações.
Gênero textual
(1) Poesia.
(2) Tirinha.
(3) Artigo de opinião.
Estruturação
( ) “se estrutura em torno de um ponto de vista e da argumentação em sua defesa.”
( ) “se estrutura em enunciados curtos, (...) destacando-se nessa composição o imbricamento entre verbal e não-verbal.”
( ) “se estrutura em estrofes e versos com rimas ou sem rimas.”
A sequência correta dessa classificação é:
“Extraviei-me pela cidade na tarde de sábado, e então me deixei bobear um pouco pela Cinelândia. Foi certamente uma lembrança antiga que me fez sentar na ‘Brasileira’; e quando o garçom veio e perguntou o que eu desejava, foi um rapaz de 15 anos que disse dentro de mim: ‘waffles com mel’. E disse meio assustado, como quem se resolve a fazer uma loucura. Não sei por que, para aquele estudante de quinze anos, que dispunha apenas de 50 mil réis mensais para suas despesas pequenas, ‘waffles com mel’ ficou sendo o símbolo do desperdício; era uma pequena loucura a que se aventurava raramente, sabendo que iria desequilibrar seu orçamento”.
BRAGA, Rubem. Cinelândia. In: BRAGA, Rubem. A Borboleta Amarela (Crônicas). 4. ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1963. p. 140. (Fragmento).
Com base na leitura do fragmento apresentado e considerando a abordagem literária de Rubem Braga, é correto afirmar que, dentre as características do gênero crônica, predominam
Texto para responder a questão.
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia . São Paulo: Companhia das Letras, 2013.