Questões Militares
Comentadas sobre coesão e coerência em português
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O risco que ignoramos
O câncer ainda é uma das principais causas de morte no mundo, em grande parte relacionado a fatores modificáveis. Para entender melhor esse panorama, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou um estudo de mapeamento dos casos da doença no mundo e a relação com fatores que podem ser evitados.
O tabagismo (15,1%), as infecções (10,2%) e o consumo de álcool (3,2%) foram os principais contribuintes para a carga de câncer. O estudo considerou ainda fatores como índice de massa corporal elevado, atividade física insuficiente, tabaco sem fumaça, poluição do ar e radiação ultravioleta.
A divulgação dessas informações é extremamente importante. Afinal, conhecer os fatores de risco é o primeiro passo para poder combatê-los. O problema é que muitas vezes acabamos focando somente nos riscos que recebem mais destaque e deixamos de olhar para outros que atingem uma parcela muito maior da população. O Brasil é um excelente exemplo disso.
Graças a décadas de campanhas educativas, restrições à publicidade, aumento de impostos e ambientes livres de fumaça, o número de fumantes caiu de forma impressionante. Hoje, menos de 10% da população adulta brasileira fuma regularmente. Trata-se de uma das maiores vitórias da saúde pública do país. Mas, enquanto comemoramos essa conquista, outro problema cresce silenciosamente.
Segundo pesquisa da Quest, cerca de 52% dos brasileiros se consideram sedentários. Quando analisamos os critérios da OMS, a situação se torna ainda mais preocupante: aproximadamente 76% da população não atinge os níveis mínimos de atividade física recomendados para a manutenção da saúde. Isso significa que o sedentarismo está presente na vida de milhões de brasileiros todos os dias. E o impacto disso vai muito além da perda de condicionamento físico.
Outro fator que merece atenção é a obesidade. Hoje, cerca de 30% da população brasileira é obesa. E a obesidade está associada a pelo menos 13 tipos diferentes de câncer. Mais uma vez, existe uma ligação direta com a atividade física.
É importante deixar claro: o objetivo desta reflexão não é minimizar os riscos do cigarro ou do álcool. O ponto é outro. Quando pensamos em saúde pública, precisamos considerar não apenas o tamanho do risco individual, mas também o número de pessoas expostas a ele.
Se menos de 10% da população fuma, mas mais da metade é sedentária e três em cada quatro brasileiros não alcançam sequer o mínimo recomendado de atividade física, talvez estejamos diante de uma das maiores oportunidades de prevenção da atualidade.
A prevenção não depende apenas de eliminar hábitos ruins. Ela também exige a construção de hábitos saudáveis. E poucas intervenções de estilo de vida oferecem benefícios tão amplos quanto o movimento físico.
Não é necessário se tornar atleta. Não é preciso correr maratonas nem passar horas por dia na academia. A mudança pode começar com atitudes simples: caminhar mais, usar escadas, levantar-se frequentemente ao longo do dia, brincar com os filhos, passear com cachorro, pedalar, dançar ou praticar qualquer atividade prazerosa. O exercício físico estruturado continua sendo algo extremamente importante, entretanto não podemos ignorar o valor do movimento incorporado à rotina. Nosso corpo foi feito para se mover. Cada passo conta.
Talvez o maior desafio da saúde moderna não seja apenas convencer as pessoas a evitar o cigarro. Talvez seja fazê-las entender que passar grande parte do dia sentado também tem consequências importantes para a saúde. Alguns riscos são facilmente identificados. Outros são silenciosos, fazem parte da rotina e acabam sendo normalizados. O sedentarismo é um deles.
ATALLA, Marcio. O risco que ignoramos. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 3. jun. 2026. Disponível em: http://oglobo.globo.com. Acesso em: 4. jun. 2026
O risco que ignoramos
O câncer ainda é uma das principais causas de morte no mundo, em grande parte relacionado a fatores modificáveis. Para entender melhor esse panorama, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou um estudo de mapeamento dos casos da doença no mundo e a relação com fatores que podem ser evitados.
O tabagismo (15,1%), as infecções (10,2%) e o consumo de álcool (3,2%) foram os principais contribuintes para a carga de câncer. O estudo considerou ainda fatores como índice de massa corporal elevado, atividade física insuficiente, tabaco sem fumaça, poluição do ar e radiação ultravioleta.
A divulgação dessas informações é extremamente importante. Afinal, conhecer os fatores de risco é o primeiro passo para poder combatê-los. O problema é que muitas vezes acabamos focando somente nos riscos que recebem mais destaque e deixamos de olhar para outros que atingem uma parcela muito maior da população. O Brasil é um excelente exemplo disso.
Graças a décadas de campanhas educativas, restrições à publicidade, aumento de impostos e ambientes livres de fumaça, o número de fumantes caiu de forma impressionante. Hoje, menos de 10% da população adulta brasileira fuma regularmente. Trata-se de uma das maiores vitórias da saúde pública do país. Mas, enquanto comemoramos essa conquista, outro problema cresce silenciosamente.
Segundo pesquisa da Quest, cerca de 52% dos brasileiros se consideram sedentários. Quando analisamos os critérios da OMS, a situação se torna ainda mais preocupante: aproximadamente 76% da população não atinge os níveis mínimos de atividade física recomendados para a manutenção da saúde. Isso significa que o sedentarismo está presente na vida de milhões de brasileiros todos os dias. E o impacto disso vai muito além da perda de condicionamento físico.
Outro fator que merece atenção é a obesidade. Hoje, cerca de 30% da população brasileira é obesa. E a obesidade está associada a pelo menos 13 tipos diferentes de câncer. Mais uma vez, existe uma ligação direta com a atividade física.
É importante deixar claro: o objetivo desta reflexão não é minimizar os riscos do cigarro ou do álcool. O ponto é outro. Quando pensamos em saúde pública, precisamos considerar não apenas o tamanho do risco individual, mas também o número de pessoas expostas a ele.
Se menos de 10% da população fuma, mas mais da metade é sedentária e três em cada quatro brasileiros não alcançam sequer o mínimo recomendado de atividade física, talvez estejamos diante de uma das maiores oportunidades de prevenção da atualidade.
A prevenção não depende apenas de eliminar hábitos ruins. Ela também exige a construção de hábitos saudáveis. E poucas intervenções de estilo de vida oferecem benefícios tão amplos quanto o movimento físico.
Não é necessário se tornar atleta. Não é preciso correr maratonas nem passar horas por dia na academia. A mudança pode começar com atitudes simples: caminhar mais, usar escadas, levantar-se frequentemente ao longo do dia, brincar com os filhos, passear com cachorro, pedalar, dançar ou praticar qualquer atividade prazerosa. O exercício físico estruturado continua sendo algo extremamente importante, entretanto não podemos ignorar o valor do movimento incorporado à rotina. Nosso corpo foi feito para se mover. Cada passo conta.
Talvez o maior desafio da saúde moderna não seja apenas convencer as pessoas a evitar o cigarro. Talvez seja fazê-las entender que passar grande parte do dia sentado também tem consequências importantes para a saúde. Alguns riscos são facilmente identificados. Outros são silenciosos, fazem parte da rotina e acabam sendo normalizados. O sedentarismo é um deles.
ATALLA, Marcio. O risco que ignoramos. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 3. jun. 2026. Disponível em: http://oglobo.globo.com. Acesso em: 4. jun. 2026
O risco que ignoramos
O câncer ainda é uma das principais causas de morte no mundo, em grande parte relacionado a fatores modificáveis. Para entender melhor esse panorama, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou um estudo de mapeamento dos casos da doença no mundo e a relação com fatores que podem ser evitados.
O tabagismo (15,1%), as infecções (10,2%) e o consumo de álcool (3,2%) foram os principais contribuintes para a carga de câncer. O estudo considerou ainda fatores como índice de massa corporal elevado, atividade física insuficiente, tabaco sem fumaça, poluição do ar e radiação ultravioleta.
A divulgação dessas informações é extremamente importante. Afinal, conhecer os fatores de risco é o primeiro passo para poder combatê-los. O problema é que muitas vezes acabamos focando somente nos riscos que recebem mais destaque e deixamos de olhar para outros que atingem uma parcela muito maior da população. O Brasil é um excelente exemplo disso.
Graças a décadas de campanhas educativas, restrições à publicidade, aumento de impostos e ambientes livres de fumaça, o número de fumantes caiu de forma impressionante. Hoje, menos de 10% da população adulta brasileira fuma regularmente. Trata-se de uma das maiores vitórias da saúde pública do país. Mas, enquanto comemoramos essa conquista, outro problema cresce silenciosamente.
Segundo pesquisa da Quest, cerca de 52% dos brasileiros se consideram sedentários. Quando analisamos os critérios da OMS, a situação se torna ainda mais preocupante: aproximadamente 76% da população não atinge os níveis mínimos de atividade física recomendados para a manutenção da saúde. Isso significa que o sedentarismo está presente na vida de milhões de brasileiros todos os dias. E o impacto disso vai muito além da perda de condicionamento físico.
Outro fator que merece atenção é a obesidade. Hoje, cerca de 30% da população brasileira é obesa. E a obesidade está associada a pelo menos 13 tipos diferentes de câncer. Mais uma vez, existe uma ligação direta com a atividade física.
É importante deixar claro: o objetivo desta reflexão não é minimizar os riscos do cigarro ou do álcool. O ponto é outro. Quando pensamos em saúde pública, precisamos considerar não apenas o tamanho do risco individual, mas também o número de pessoas expostas a ele.
Se menos de 10% da população fuma, mas mais da metade é sedentária e três em cada quatro brasileiros não alcançam sequer o mínimo recomendado de atividade física, talvez estejamos diante de uma das maiores oportunidades de prevenção da atualidade.
A prevenção não depende apenas de eliminar hábitos ruins. Ela também exige a construção de hábitos saudáveis. E poucas intervenções de estilo de vida oferecem benefícios tão amplos quanto o movimento físico.
Não é necessário se tornar atleta. Não é preciso correr maratonas nem passar horas por dia na academia. A mudança pode começar com atitudes simples: caminhar mais, usar escadas, levantar-se frequentemente ao longo do dia, brincar com os filhos, passear com cachorro, pedalar, dançar ou praticar qualquer atividade prazerosa. O exercício físico estruturado continua sendo algo extremamente importante, entretanto não podemos ignorar o valor do movimento incorporado à rotina. Nosso corpo foi feito para se mover. Cada passo conta.
Talvez o maior desafio da saúde moderna não seja apenas convencer as pessoas a evitar o cigarro. Talvez seja fazê-las entender que passar grande parte do dia sentado também tem consequências importantes para a saúde. Alguns riscos são facilmente identificados. Outros são silenciosos, fazem parte da rotina e acabam sendo normalizados. O sedentarismo é um deles.
ATALLA, Marcio. O risco que ignoramos. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 3. jun. 2026. Disponível em: http://oglobo.globo.com. Acesso em: 4. jun. 2026
No que se refere aos mecanismos de coesão responsáveis pela progressão temática, o termo destacado:
Texto para a questão.
Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade.
Nas favelas brasileiras, as apostas online não chegam como entretenimento. Chegam como promessa de renda. Em mais de dois anos de pesquisa, ouvi repetidamente: “Quem diz que joga por diversão está mentindo. Você joga por dinheiro, dinheiro fácil.”
Essa frase desmonta a ideia de lazer digital. O que emerge é outra coisa: uma economia informal mediada por plataformas. Pix instantâneo, depósitos mínimos de poucos reais, bônus de entrada e influenciadores exibindo ganhos. O cassino não se apresenta como um cassino. Se apresenta como oportunidade. Mas oportunidade para quem?
Pedro, de 32 anos, começou com pequenas apostas. Ganhou no início e teve a sensação de ter “entendido o sistema”. Quando perdeu, tentou recuperar. Apostar mais parecia lógico. Insistir parecia uma estratégia. O raciocínio era simples: continuar até reverter. Ele perdeu as economias da família.
Endividado, pegou dinheiro de alguém ligado ao tráfico. Sem conseguir pagar, passou a trabalhar para quitar a dívida, vendendo drogas. O que começou como promessa de renda terminou em violência, ruptura familiar e vergonha. O jogo saiu da tela e atravessou a vida.
A história de Roberta, de 40 anos, revela outro tipo de impacto. O dinheiro do mês começou a desaparecer em pequenos valores: Pix de dez, quinze, vinte reais. Isoladamente, pareciam irrelevantes. Somados, desorganizaram o orçamento.
O responsável era o neto, “o menino que entende de tecnologia”. Ele tinha acesso à conta, conhecia os aplicativos, os bônus e os horários de promoção. A curiosidade virou uma retirada constante de recursos essenciais. O impacto foi também relacional: a confiança familiar se rompeu.
Esses casos não são exceção. São padrão. As plataformas são desenhadas para manter os usuários. O primeiro ganho cria a sensação de possibilidade. O saque exige novos depósitos. Os bônus aparecem nos momentos certos. As perdas são reconfiguradas como aprendizado. Sempre há a promessa de recuperação.
Em contextos de precariedade, essa arquitetura encontra terreno fértil. Muitos dizem apostar apenas o dinheiro que sobra. Trata-se de fechar o mês, pagar contas, aliviar a pressão. Apostar vira estratégia de sobrevivência em um cenário de trabalho instável e de renda insuficiente. Mas essa estratégia aprofunda o problema.
As bets funcionam como infraestruturas financeiras paralelas. Não se aposta capital excedente, mas dinheiro de mercado, aluguel, remédio. Pequenas quantias que fazem falta concretamente.
O discurso dominante individualiza o risco: perdeu porque errou, ganhou porque mereceu. Essa lógica oculta que as probabilidades são estruturadas por algoritmos opacos, concebidos para garantir lucro às plataformas.
Enquanto isso, clubes exibem marcas de apostas; influenciadores lucram com cadastros e monetizam links. Entre jovens homens, apostar também se torna uma identidade. Demonstra capacidade de prover.
O resultado raramente é estabilidade. O que aparece são dívidas, conflitos familiares, depressão. Pequenos depósitos que corroem o orçamento. Pequenos empréstimos que viraram grandes dívidas. Pequenas mentiras que abalam relações.
Tratar isso como um vício individual é insuficiente. O que vemos é uma transformação estrutural: plataformas convertendo precariedade em especulação cotidiana. Ninguém aposta porque gosta de perder dinheiro. Aposta porque o salário não basta, a mobilidade parece distante e a promessa de ganho rápido se torna visível.
O problema é que a probabilidade raramente favorece quem já começa em desvantagem. O cassino está no bolso. Cada notificação é uma nova chance de transformar necessidade em risco.
No fim, o prejuízo atravessa casas e comunidades. As bets não são apenas jogos. São um modelo de negócios que transforma vulnerabilidade em lucro. E, quanto mais difícil é sobreviver, mais sedutora se torna a aposta.
NEMER, David. Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade. 28/03/2026, às 22:00. Tendências e Debates. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/nas-favelas-apostas-online-vendem-sobrevivencia-e-entregamprecariedade.shtml. Acesso em: 23/03/2026.
Texto para a questão.
Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade.
Nas favelas brasileiras, as apostas online não chegam como entretenimento. Chegam como promessa de renda. Em mais de dois anos de pesquisa, ouvi repetidamente: “Quem diz que joga por diversão está mentindo. Você joga por dinheiro, dinheiro fácil.”
Essa frase desmonta a ideia de lazer digital. O que emerge é outra coisa: uma economia informal mediada por plataformas. Pix instantâneo, depósitos mínimos de poucos reais, bônus de entrada e influenciadores exibindo ganhos. O cassino não se apresenta como um cassino. Se apresenta como oportunidade. Mas oportunidade para quem?
Pedro, de 32 anos, começou com pequenas apostas. Ganhou no início e teve a sensação de ter “entendido o sistema”. Quando perdeu, tentou recuperar. Apostar mais parecia lógico. Insistir parecia uma estratégia. O raciocínio era simples: continuar até reverter. Ele perdeu as economias da família.
Endividado, pegou dinheiro de alguém ligado ao tráfico. Sem conseguir pagar, passou a trabalhar para quitar a dívida, vendendo drogas. O que começou como promessa de renda terminou em violência, ruptura familiar e vergonha. O jogo saiu da tela e atravessou a vida.
A história de Roberta, de 40 anos, revela outro tipo de impacto. O dinheiro do mês começou a desaparecer em pequenos valores: Pix de dez, quinze, vinte reais. Isoladamente, pareciam irrelevantes. Somados, desorganizaram o orçamento.
O responsável era o neto, “o menino que entende de tecnologia”. Ele tinha acesso à conta, conhecia os aplicativos, os bônus e os horários de promoção. A curiosidade virou uma retirada constante de recursos essenciais. O impacto foi também relacional: a confiança familiar se rompeu.
Esses casos não são exceção. São padrão. As plataformas são desenhadas para manter os usuários. O primeiro ganho cria a sensação de possibilidade. O saque exige novos depósitos. Os bônus aparecem nos momentos certos. As perdas são reconfiguradas como aprendizado. Sempre há a promessa de recuperação.
Em contextos de precariedade, essa arquitetura encontra terreno fértil. Muitos dizem apostar apenas o dinheiro que sobra. Trata-se de fechar o mês, pagar contas, aliviar a pressão. Apostar vira estratégia de sobrevivência em um cenário de trabalho instável e de renda insuficiente. Mas essa estratégia aprofunda o problema.
As bets funcionam como infraestruturas financeiras paralelas. Não se aposta capital excedente, mas dinheiro de mercado, aluguel, remédio. Pequenas quantias que fazem falta concretamente.
O discurso dominante individualiza o risco: perdeu porque errou, ganhou porque mereceu. Essa lógica oculta que as probabilidades são estruturadas por algoritmos opacos, concebidos para garantir lucro às plataformas.
Enquanto isso, clubes exibem marcas de apostas; influenciadores lucram com cadastros e monetizam links. Entre jovens homens, apostar também se torna uma identidade. Demonstra capacidade de prover.
O resultado raramente é estabilidade. O que aparece são dívidas, conflitos familiares, depressão. Pequenos depósitos que corroem o orçamento. Pequenos empréstimos que viraram grandes dívidas. Pequenas mentiras que abalam relações.
Tratar isso como um vício individual é insuficiente. O que vemos é uma transformação estrutural: plataformas convertendo precariedade em especulação cotidiana. Ninguém aposta porque gosta de perder dinheiro. Aposta porque o salário não basta, a mobilidade parece distante e a promessa de ganho rápido se torna visível.
O problema é que a probabilidade raramente favorece quem já começa em desvantagem. O cassino está no bolso. Cada notificação é uma nova chance de transformar necessidade em risco.
No fim, o prejuízo atravessa casas e comunidades. As bets não são apenas jogos. São um modelo de negócios que transforma vulnerabilidade em lucro. E, quanto mais difícil é sobreviver, mais sedutora se torna a aposta.
NEMER, David. Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade. 28/03/2026, às 22:00. Tendências e Debates. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/nas-favelas-apostas-online-vendem-sobrevivencia-e-entregamprecariedade.shtml. Acesso em: 23/03/2026.
Texto para a questão.
Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade.
Nas favelas brasileiras, as apostas online não chegam como entretenimento. Chegam como promessa de renda. Em mais de dois anos de pesquisa, ouvi repetidamente: “Quem diz que joga por diversão está mentindo. Você joga por dinheiro, dinheiro fácil.”
Essa frase desmonta a ideia de lazer digital. O que emerge é outra coisa: uma economia informal mediada por plataformas. Pix instantâneo, depósitos mínimos de poucos reais, bônus de entrada e influenciadores exibindo ganhos. O cassino não se apresenta como um cassino. Se apresenta como oportunidade. Mas oportunidade para quem?
Pedro, de 32 anos, começou com pequenas apostas. Ganhou no início e teve a sensação de ter “entendido o sistema”. Quando perdeu, tentou recuperar. Apostar mais parecia lógico. Insistir parecia uma estratégia. O raciocínio era simples: continuar até reverter. Ele perdeu as economias da família.
Endividado, pegou dinheiro de alguém ligado ao tráfico. Sem conseguir pagar, passou a trabalhar para quitar a dívida, vendendo drogas. O que começou como promessa de renda terminou em violência, ruptura familiar e vergonha. O jogo saiu da tela e atravessou a vida.
A história de Roberta, de 40 anos, revela outro tipo de impacto. O dinheiro do mês começou a desaparecer em pequenos valores: Pix de dez, quinze, vinte reais. Isoladamente, pareciam irrelevantes. Somados, desorganizaram o orçamento.
O responsável era o neto, “o menino que entende de tecnologia”. Ele tinha acesso à conta, conhecia os aplicativos, os bônus e os horários de promoção. A curiosidade virou uma retirada constante de recursos essenciais. O impacto foi também relacional: a confiança familiar se rompeu.
Esses casos não são exceção. São padrão. As plataformas são desenhadas para manter os usuários. O primeiro ganho cria a sensação de possibilidade. O saque exige novos depósitos. Os bônus aparecem nos momentos certos. As perdas são reconfiguradas como aprendizado. Sempre há a promessa de recuperação.
Em contextos de precariedade, essa arquitetura encontra terreno fértil. Muitos dizem apostar apenas o dinheiro que sobra. Trata-se de fechar o mês, pagar contas, aliviar a pressão. Apostar vira estratégia de sobrevivência em um cenário de trabalho instável e de renda insuficiente. Mas essa estratégia aprofunda o problema.
As bets funcionam como infraestruturas financeiras paralelas. Não se aposta capital excedente, mas dinheiro de mercado, aluguel, remédio. Pequenas quantias que fazem falta concretamente.
O discurso dominante individualiza o risco: perdeu porque errou, ganhou porque mereceu. Essa lógica oculta que as probabilidades são estruturadas por algoritmos opacos, concebidos para garantir lucro às plataformas.
Enquanto isso, clubes exibem marcas de apostas; influenciadores lucram com cadastros e monetizam links. Entre jovens homens, apostar também se torna uma identidade. Demonstra capacidade de prover.
O resultado raramente é estabilidade. O que aparece são dívidas, conflitos familiares, depressão. Pequenos depósitos que corroem o orçamento. Pequenos empréstimos que viraram grandes dívidas. Pequenas mentiras que abalam relações.
Tratar isso como um vício individual é insuficiente. O que vemos é uma transformação estrutural: plataformas convertendo precariedade em especulação cotidiana. Ninguém aposta porque gosta de perder dinheiro. Aposta porque o salário não basta, a mobilidade parece distante e a promessa de ganho rápido se torna visível.
O problema é que a probabilidade raramente favorece quem já começa em desvantagem. O cassino está no bolso. Cada notificação é uma nova chance de transformar necessidade em risco.
No fim, o prejuízo atravessa casas e comunidades. As bets não são apenas jogos. São um modelo de negócios que transforma vulnerabilidade em lucro. E, quanto mais difícil é sobreviver, mais sedutora se torna a aposta.
NEMER, David. Nas favelas, apostas online vendem sobrevivência e entregam precariedade. 28/03/2026, às 22:00. Tendências e Debates. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/nas-favelas-apostas-online-vendem-sobrevivencia-e-entregamprecariedade.shtml. Acesso em: 23/03/2026.
Para responder à questão, leia um trecho do conto “A pátria”, do escritor Olavo Bilac (1865-1918), o Patrono do Serviço Militar. Não por acaso, a sua data de nascimento, 16 de dezembro, foi consagrada como Dia do Reservista.
1 O pai, velho soldado que a vida das guerras alquebrara1 , gostava de lembrar, à noite, quando toda a família se reunia na sala de jantar em roda da grande mesa antiga, os episódios das campanhas que vira.
A mulher não ouvia com prazer aquelas histórias de cargas de cavalaria, de emboscadas, de assaltos, tão cheias de sangue e de horror. Quando o velho recordava aquele tempo, ela revivia a angústia dos dias passados na solidão, sem notícias do marido que lá andava pelo Paraguai. Lembrava-se da ansiedade e do medo com que esperava o correio, naquelas amaldiçoadas tardes de desespero. Quando o carteiro lhe entregava um envelope fechado, — quantos minutos ficava ela a mirar e a revolver nas mãos aquele pedaço de papel que vinha do querido ausente, e que tinha recebido os seus beijos e as suas lágrimas de saudade!
Por fim abria a carta. A princípio não podia ler. Tremia-lhe nos dedos o papel. Tinha de repousar um pouco: e, quando conseguia terminar a leitura, ficava abatida e sem consolo diante daquelas notícias que não variavam nunca. Era sempre a mesma coisa: não se sabia quando acabaria a guerra; mas Deus velava por ele; era preciso assegurar, conquistando um bom posto, um futuro feliz para os filhos; além disso a Pátria estava acima de tudo...
Ela amarrotava a carta... A Pátria! que era a Pátria, para valer mais do que ela, mais do que aquelas duas crianças, pobres inocentes que talvez a essa mesma hora já estivessem sem pai? Ia então contemplar os filhos, e ali ficava chorando, horas inteiras...
5 Quando o pai voltou da guerra, vinha major. Fora ferido. Perdera uma perna. A mulher abençoou essa desgraça. Ao menos, assim mutilado, ficava ele posto à margem, dispensado de voltar à mesma existência de perigos e canseiras. Podiam viver modestamente com seu soldo2. Qualquer outro trabalho leve de que se pudesse encarregar dar-lhe-ia o suficiente para educar os filhos. Agora, porém, quando o velho major, durante os serões domésticos, começava a contar os seus episódios de campanha, a mulher estremecia.
No entusiasmo da narração, o velho transfigurava-se. O seu braço, estendido no ar, indicava os golpes de espada. A sua voz imitava, ora o ruído contínuo e seco da fuzilaria, ora o estrondo rouco dos canhoneios. Diante dele, Carlos, também transfigurado, bebia as suas palavras, com inveja, respirando a custo, agitando-se na cadeira. E a mãe quase rebentava em soluços, vendo a alegria do filho. Era aquele, há muito tempo, o seu maior receio... Pobre mãe! Desde o tempo em que apenas devia pensar em bonecos, o menino manifestava uma grande predileção pelas coisas da vida militar.
Ficava horas inteiras contemplando as fardas do pai: e, à noite, deixando de estudar, fechando sobre a mesa as suas gramáticas e os seus dicionários, era ele o primeiro a pedir ao velho mais uma daquelas narrações que o embriagavam. Quando foi preciso escolher uma carreira, Carlos, sem hesitação, declarou que queria ir para a Escola Militar. O velho exultou3. A mulher, resignada, não teve protesto.
(Olavo Bilac & Coelho Neto. Contos pátrios, 1906. Adaptado.)
1 alquebrar: dobrar ou sofrer curvatura da espinha por doença, fraqueza ou velhice.
2 soldo: salário de militares.
3 exultar: exprimir grande alegria.
Pesquisadores avaliam que, como o conteúdo produzido por essas celebridades é absorvido de forma única por cada um dos indivíduos, é comum que eles acreditem que, de fato, criaram uma relação única e próxima de celebridades. Esse fenômeno explica, dessa forma, os motivos pelos quais certa credibilidade é atribuída a pessoas famosas em propagandas publicitárias, por exemplo.
(Julia Galvão. https://jornal.usp.br, 29.11.2023.)
As relações parassociais, apresentadas no excerto, tendem a
TEXTO I
O TEMPO
Rubem Alves
Há duas formas de marcar o tempo. Uma delas foi inventada por homens que amam a precisão dos números, matemáticos, astrônomos, cientistas, técnicos. Para marcar o tempo de forma precisa, eles fabricaram ampulhetas, relógios, cronômetros, calendários. Nesses artefatos técnicos, todos os pedaços do tempo - segundos, minutos, dias, anos - são feitos de uma mesma substância: números, entidades matemáticas. Não há inícios nem fins, apenas a indiferente sucessão de momentos, que nada dizem sobre alegrias e sofrimentos. Apenas um bolso vazio. Nele, a alma não encontra morada.
Nas Olimpíadas, a performance dos corredores e nadadores é medida até os centésimos. Fico a me perguntar: "Como é que conseguem? Que diferença faz?".
A outra foi inventada por homens que sabem que a vida não pode ser medida com calendários e relógios. A vida só pode ser marcada com a vida. Os amantes do Cântico dos Cânticos marcavam o tempo do amor pelos frutos maduros que pendiam das árvores. Quando as folhas dos plátanos ficam amarelas sabemos que o outono chegou. Os ipês-rosas e amarelos anunciam o inverno.
Qual a magia que informa os ipês, todos eles, em lugares muito diferentes, que é hora de perder as folhas e florescer? E sem misturar as cores. Primeiro os rosas, depois os amarelos e, finalmente, os brancos.
Sugeri que algum compositor compusesse uma sinfonia ou uma brincadeira musical em três movimentos. Primeiro movimento, "Ipê-rosa", andante tranquilo, em que os violoncelos cantam a paz e a segurança. Segundo movimento, "Ipê-amarelo", rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com a dos ipês, fazem soar a exuberância da vida. Terceiro movimento, "Ipê-branco", moderato, em que o veludo dos oboés cantam a mansidão. Seria bom se nós, como os ipês, nos abrissemos para o amor no inverno.
A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro. O tempo do amor se marca com o corpo.
Um calendário é coisa precisa: anos, meses, dias, horas, que são marcados com números. Esses números medem o tempo. Mas os pedaços de tempo são bolsos vazios: nada há dentro deles. O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo quando o enchemos com vida. Aí o tempo não mais pode ser representado por números. O tempo aparece como um fruto que vai sendo comido: é belo, é colorido, é perfumado. E, à medida que vai sendo comido, vai acabando. Vem a tristeza. O tempo da vida se marca por alegrias e tristezas. Há inícios e há fins.
Tempus fugit, o tempo foge. Portanto, carpe diem: colha o dia como um fruto que amanhä estará podre.
Viver ao ritmo de alegrias e tristezas é ser sábio. "Sapio", no latim, quer dizer, "eu saboreio". O sábio é um degustador da vida. A vida não é para ser medida. Ela é para ser saboreada.
Um texto bíblico diz: "Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos um coração sábio". Acho que Jesus sorriria se eu acrescentasse ao "Pai-Nosso" outra súplica: "A fruta nossa de cada dia dános hoje...". Caqui, pitanga, morango à beira do abismo, melancia...
Heráclito foi um filósofo grego fascinado pelo tempo. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio já não existirá. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo... Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos. Dentre eles, um me encanta: "Tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado".
Para nós, o tempo é um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de quem a vida foge.
Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novo começos.
Tempo é criança? O que o filósofo queria dizer exatamente eu não sei. Mas sei que as crianças odeiam Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos. O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado.
ALVES, Rubem. O tempo. In: ALVES, Rubem. Viva a Jabuticaba! Campinas: Papirus, 2012. (Adaptado).
"O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo quando o enchemos com vida. Aí o tempo não mais pode ser representado por números." (§7)
1 Graúna – É o pássaro conhecido de cor negra luzidia. Seu nome vem de guira (pássaro) e una (abreviação de pixuna – preto).
“A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.”
Com base em Koch & Elias (2011), as expressões destacadas no parágrafo formam