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Q4191444 Português
As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz


      Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.

      Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.

     Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.

   Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.

      Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!


(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”,
O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/
economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-como-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)
Desenvolvendo o tema sinalizado no título, o autor se vale de recursos que respondem pela coerência textual, tais como
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede a identificação dos recursos de coerência textual usados para desenvolver o tema; no texto, essa coerência é construída pela progressão temática por intertextualidade, na sequência “Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio de Hamlet [...] Para os estoicos [...] Uma terceira via [...] seria a adotada por Nietzsche [...] Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta [...] que veio de um conjunto musical nos anos 70.”. Essa articulação de referências de tempos e universos culturais distintos, todas subordinadas ao eixo do destino, confirma a alternativa D.

Tema central: destino e fatalidade
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não se organiza como defesa de um ponto de vista próprio destinada a expor contradições nas teorias citadas. O movimento textual é expositivo-reflexivo: apresenta respostas distintas ao problema do destino e as encadeia no desenvolvimento do tema. Contraste entre perspectivas não equivale a demonstração de contradições internas.
B
Errada
Está errada porque o texto efetivamente mobiliza referências históricas e filosóficas, mas não afirma que essas questões estejam superadas. Ao contrário, elas são trazidas para pensar “o mundo de hoje” e “como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz”. A ideia de superação histórica é inferência indevida.
C
Errada
Está errada porque o texto aprecia e contrasta ideias sobre o destino, mas não prescreve adesão do leitor a nenhuma delas. A base textual sustenta exposição e ponderação de possibilidades, não convencimento injuntivo. Dizer que o autor afirma a importância de aderir a essas ideias altera o valor discursivo do texto.
D
Certa
A alternativa D traduz exatamente o modo como o texto é construído. O autor não desenvolve o tema por definição abstrata única nem por defesa de uma doutrina, mas por referências sucessivas a diferentes abordagens do destino: Hamlet, os estoicos, Nietzsche e, ao final, a canção “Let it be”. Esse encadeamento mantém a unidade temática e amplia a reflexão combinando literatura, filosofia e música, isto é, diferentes universos culturais ao longo do tempo.
E
Errada
Está errada porque o texto não argumenta pela impossibilidade de encarar o destino sem infringir princípios éticos. A ética aparece apenas no trecho dos estoicos, como componente de uma doutrina específica: “A ética consistiria em viver de acordo com a natureza...”. Transformar esse elemento localizado em tese geral do texto é generalização indevida.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre conteúdo filosófico e mecanismo textual: quem lê as referências a Hamlet, estoicos, Nietzsche e “Let it be” apenas como opiniões do autor tende a perder que elas funcionam, sobretudo, como recurso de coerência na progressão do tema.
Dica para questões semelhantes
  • Leia primeiro o comando para saber se a cobrança é de tese do texto ou de recurso de construção textual.
  • Quando o texto encadeia autores, obras ou referências culturais, verifique se essa sequência mantém a unidade temática; se mantiver, isso é pista de coerência por progressão e intertextualidade.
  • Não transforme contraste de perspectivas em refutação, a menos que o texto mostre explicitamente desmontagem de uma delas.
  • Evite generalizar um termo localizado de um parágrafo para o sentido global do texto.

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Comentários

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  • Shakespeare (Hamlet) → literatura.
  • Estoicismo → filosofia antiga.
  • Nietzsche → filosofia moderna.
  • The Beatles ("Let it be") → música popular.

Essas referências mostram como diferentes épocas e tradições culturais trataram a questão do destino, construindo a coerência do texto.

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