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Ano: 2013 Banca: CECIERJ Órgão: CEDERJ Prova: CECIERJ - 2013 - CEDERJ - Vestibular |
Q582607 Português
                                                    Infância

     
Uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama. Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido o café, beijava-lhe a mão, porque isto era praxe, mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no quarto, peguei com repugnância o antipático objeto e voltei à sala de jantar. Aí recebi ordem para me sentar e abrir o volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de que uma visita me interrompesse. Ninguém nos visitou naquela noite extraordinária.

      Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.

      Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo.

      Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.

      Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio à escola, aos brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques, vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.

      À noite meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações.

        Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso. E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo.

      Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar.


                                                 RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 1995. p.187-191.

A afirmativa em que se associa adequadamente o estilo do escritor Graciliano Ramos à temática desenvolvida no trecho lido é:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a associação entre modo de dizer e conteúdo narrado: o trecho "Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça." mostra dicção contida, dura e sem ornamento excessivo para narrar frustração afetiva e ruptura do encanto da leitura, o que confirma a alternativa C.

Tema central: frustração afetiva e leitura
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra na caracterização do estilo. O texto não adota linguagem floreada nem usa eufemismos para atenuar o sofrimento. Ao contrário, emprega formulações diretas e ásperas, como "meu velho nunca se dirigia a mim", "repugnância", "antipático objeto", "desgraça" e "reduziu a cacos". Há imagens literárias pontuais, mas elas não suavizam a experiência; reforçam sua dureza.
B
Errada
A alternativa erra em dois pontos. Primeiro, a repetição de noites de leitura não autoriza afirmar que o traço decisivo seja um "estilo circular". Segundo, o texto não mantém do início ao fim apenas desespero e repugnância diante do livro. A aversão inicial se transforma em interesse e encantamento, como prova o trecho "Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente". O núcleo final é a decepção causada pela atitude do pai, não uma repulsa contínua pela leitura.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque relaciona dois elementos que o texto efetivamente articula: a linguagem sóbria, seca e áspera do narrador e a experiência infantil marcada por dureza afetiva, dificuldade de ingresso no universo da leitura e decepção com o pai. Isso se sustenta em passagens como "Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim.", que evidencia distanciamento afetivo, e "Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente", seguida da recusa paterna, que culmina em "Nunca experimentei decepção tão grande". O texto não apresenta embelezamento ornamental; constrói, com economia verbal e imagens duras, o encanto interrompido do menino.
D
Errada
A alternativa erra o enquadramento discursivo. Mesmo havendo passagens de formulação direta, o texto não emprega linguagem jornalística. Trata-se de narrativa literária memorialística, subjetiva e imagética, com introspecção e metáforas, como em "E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.". Isso afasta a classificação de linguagem jornalística e impede sustentar a alternativa.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre secura estilística e linguagem jornalística, além da tendência de ler a repugnância inicial pelo livro como sentimento permanente, ignorando que o menino passa ao interesse e que a frustração final decorre da atitude do pai.
Dica para questões semelhantes
  • Compare sempre o traço de estilo indicado na alternativa com a dicção real do texto: aqui, ela é sóbria e dura, não floreada nem jornalística.
  • Observe a progressão afetiva do narrador; não transforme o sentimento inicial em chave de leitura do texto inteiro.
  • Quando a questão pedir associação entre estilo e tema, localize trechos em que forma e conteúdo aparecem juntos, como a linguagem contida narrando a decepção.
  • Desconfie de rótulos genéricos de gênero ou estilo se o texto apresentar subjetividade, memória e imagens metafóricas.

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