TEXTO 1
Escravidão é sinônimo de violência
Só se pode entender a montagem de uma instituição do porte do escravismo moderno atentando-se para a articulação entre a
criação de colônias no ultramar e seu funcionamento sob a forma de grandes unidades produtoras voltadas para o mercado
externo. A monocultura em larga escala exigia um grande contingente de trabalhadores que deveriam se submeter a uma
rotina espinhosa, sem ter nem lucro nem motivação pessoal. Recriou-se, desse modo, a escravidão em novas bases, com a
utilização de mão de obra compulsória e que exigia – ao menos teoricamente − trabalhadores de todo alienados de sua origem,
liberdade e produção. Tudo deveria escapar à consciência e ao arbítrio desse produtor direto.
Da parte dos contratantes, a ideologia que se conformava procurava desenhar o trabalho nos trópicos como um fardo, um
sofrimento, uma punição e uma pena para ambos os lados: senhores e escravos. O discurso proferido pela Igreja e pelos
proprietários entendia tal trabalho árduo como uma atividade disciplinadora e civilizadora. Havia inclusive manuais −
verdadeiros modelos de aplicação de sevícias pedagógicas, punitivas e exemplares − que instruíam, didaticamente, os
fazendeiros sobre como submeter os escravizados e transformá-los em trabalhadores obedientes. Um exemplo regular era o
famoso quebra-negro, castigo muito utilizado no Brasil para educar escravos novos ou recém-adquiridos e que, por meio da
chibatada pública e outras sevícias, ensinava os cativos a sempre olhar para o chão na presença de qualquer autoridade.
[...]
Um sistema como o escravismo moderno só se enraíza com o exercício da violência. Da parte dos proprietários, a sanha
contínua que visava à sujeição e obediência cegas para o trabalho. Da parte dos escravos, a reação se dava a partir de
gradações que iam das pequenas insubordinações diárias e persistentes até as grandes revoltas e os quilombos.
De todo modo, a escravidão se enraizou de tal forma no Brasil, que costumes e palavras ficaram por ela marcados. Se a casagrande delimitava a fronteira entre a área social e a de serviços, a mesma arquitetura simbólica permaneceria presente nas
casas e edifícios, onde, até os dias que correm, elevador de serviço não é só para carga, mas também e, sobretudo, para os
empregados que guardam a marca do passado africano na cor. Termos de época mantêm-se operantes, apesar de o
significado original ter se perdido. A expressão “ama-seca” era até pouco tempo usada no país, esquecendo-se, entretanto, de
que naquele período essas amas se opunham às amas de leite, mulheres que muitas vezes deixavam de amamentar seus
filhos para cuidar dos rebentos dos senhores. “Boçal” é ainda hoje uma pessoa com reduzida discriminação de locais e
espaços – um tonto; assim como “ladino” continua a ser sinônimo de “esperto”. Em seu sentido primeiro, “boçais” eram os
escravos recém-chegados e que, diferentemente dos “ladinos” – os cativos de segunda geração –, não dominavam a língua ou
a região, tendo, por isso, poucas possibilidades de fuga.
Alguns termos desapareceram, como é o caso da expressão “bens semoventes”, outrora empregada para descrever de
maneira indiscriminada, nos inventários e testamentos, as posses que podiam se movimentar: quais sejam, escravos e
animais. Hoje o termo permanece apenas no meio jurídico, que o emprega para os bens dotados de movimento próprio, como
os animais. Não obstante, permanece uma divisão guardada em silêncio e condicionada por um vocabulário que transforma
cor em marcador social de diferença, reificado todos os dias pelas ações da polícia, que aborda muito mais negros do que
brancos e neles dá flagrantes. Aqui é usual a prática de “interpelação”, esse pequeno teatro teórico e pragmático. Diante da
força policial, não raro os indivíduos assumem um lugar que corriqueiramente optariam por rejeitar. Não basta ser inocente
para ser considerado e se considerar culpado. Esse tipo de reação é chamado pelo antropólogo Didier Fassin de “memória
incorporada”, quando, antes mesmo de refletir, os corpos lembram. Se na época da escravidão indivíduos negros trafegando
soltos eram presos “por suspeita de escravos”, hoje são detidos com base em outras alegações que lhes devolvem sempre o
mesmo passado e origem.
[...]
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 91-93.
(Fragmentos)
TEXTO 2
Uma história da escravidão no Brasil – o segundo
volume da trilogia
Entre 1700 e 1800, cerca de dois milhões de homens e
mulheres foram arrancados de suas raízes africanas,
embarcados à força nos porões dos navios negreiros e
transportados para o Brasil. Muitos seriam vendidos em
leilões públicos antes de seguir para as senzalas onde, sob
a ameaça do chicote, trabalhariam pelo resto de suas vidas.
No final do século XVIII, a América Portuguesa tinha a
maior concentração de pessoas de origem africana em todo
o continente americano. Os brancos formavam um grupo
relativamente pequeno. Os índios, a essa altura já
dizimados por doenças, guerras e a ocupação de seus
territórios, sequer apareciam nas estatísticas. O motor da
escravidão nesse período foi a descoberta de ouro e de
diamantes, primeiro em Minas Gerais e, depois, em Mato
Grosso e Goiás. A busca de novas riquezas, acompanhada
pelo uso cada vez mais intenso da mão de obra cativa, fez
com que o território brasileiro praticamente dobrasse de
tamanho. Começavam também ali alguns fenômenos que
marcariam profundamente a face do escravismo brasileiro.
A escravidão urbana, de serviços, diferente daquela
observada nas antigas lavouras da cana-de-açúcar na
região Nordeste, deu maior mobilidade aos cativos,
acelerou os processos de alforria, ofereceu oportunidades
às mulheres e gerou uma nova cultura em que hábitos de
origem africana se misturaram a outros, de raiz europeia e
indígena. O agitado e rebelde século XVIII e a gigantesca
onda africana que o marcou são os temas deste segundo
volume da trilogia sobre a história da escravidão no Brasil.
GOMES, Laurentino. Escravidão: da corrida do ouro em
Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao
Brasil, volume 2. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2021.
(quarta-capa)
TEXTO 3
Ayoluwa, a alegria do nosso povo
Quando a menina Ayoluwa, a alegria do nosso povo, nasceu, foi em boa hora para todos. Há muito que em nossa vida tudo
pitimbava. Os nossos dias passavam como um café sambango, ralo, frio e sem gosto. Cada dia era sem quê nem porquê. E
nós ali amolecidos, sem sustância alguma para aprumar o nosso corpo. Repito: tudo era uma pitimba só. Escassez de tudo.
Até a natureza minguava e nos confundia. Ora aparecia um sol desensolarado e que mais se assemelhava a uma bola murcha,
lá na nascente. Um frio interior nos possuía então, e nós mal enfrentávamos o dia sob a nula ação da estrela desfeita. Ora
gotejava uma chuva de pinguitos tão ralos e escassos que mal molhava as pontas de nossos dedos. E então deu de faltar
tudo: mãos para o trabalho, alimentos, água, matéria para os nossos pensamentos e sonhos, palavras para as nossas bocas,
cantos para as nossas vozes, movimento, dança, desejos para os nossos corpos.
Os mais velhos, acumulados de tanto sofrimento, olhavam para trás e do passado nada reconheciam no presente. Suas lutas,
seu fazer e saber, tudo parecia ter se perdido no tempo. O que fizeram, então? Deram de clamar pela morte. E a todo instante
eles partiam. E, com a tristeza da falta de lugar em um mundo em que eles não se reconheciam e nem reconheciam mais,
muitos se foram. Dentre eles, me lembro de vô Moyo, o que trazia boa saúde, de tio Masud, o afortunado, o velho Abede, o
homem abençoado, e outros e outros. Todos estavam enfraquecidos e esquecidos da força que traziam no significado de seus
próprios nomes. As velhas mulheres também. Elas, que sempre inventavam formas de enfrentar e vencer a dor, não
acreditavam mais na eficácia delas próprias. Como os homens, deslembravam a potência que se achava resguardada partir de
suas denominações. E pediam veementemente à vida que esquecesse delas e que as deixasse partir. Foi com esse estado de
ânimo que muitas delas empreenderam a derradeira viagem: vovó Amina, a pacífica; tia Sele, a mulher forte como um elefante;
mãe Asantewaa, a mulher de guerra, a guerreira; e ainda Malika, a rainha. Com a ida de nossos mais velhos ficamos mais
desamparados ainda. E o que dizer para os nossos jovens, a não ser as nossas tristezas?
[...]
EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2016. p. 111-112.
TEXTO 4
Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos
E na dura travessia do deserto
aprendemos que a terra prometida era aqui
Ainda aqui e sempre aqui.
Duas ilhas indómitas a desbravar.
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.
Emergiremos do canto
como do chão emerge o milho jovem
e nus, inteiros recuperaremos
a transparência do tempo inicial
Puros reabitaremos o poema e a claridade
para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.
LIMA, Conceição. Após o ardor da reconquista... In: DÁSKALOS, Maria
Alexandre; APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo (Org.). Poesia africana de
língua portuguesa (antologia). Rio de Janeiro: Lacerda, 2003.
