Vida e morte das agendas
Começamos por cancelar os mortos. Depois, os
telefones fixos. E, por fim, a própria agenda.
Ruy Castro
Agendas de telefones precisam ser refeitas de
anos em anos, de acordo com o número de
pessoas que entram e saem de nossa vida. De
repente não cabe mais ninguém. Nomes que,
um dia, foram anotados porque tinham a ver
com algo terrivelmente importante passam
para a categoria do “quem era mesmo?”.
Tornam-se nomes sem rosto, tragados pela
nossa desmemória. Mas o pior é o doloroso
processo de suprimir os mortos.
É incrível quantos amigos ou conhecidos têm
o hábito de nos deixar a cada dez ou 15 anos.
As agendas são um registro macabro dessa
fatalidade. Conheço gente que desenha uma
caveirinha (com as tíbias cruzadas) ao lado dos
nomes das pessoas que morreram. Pode ser
prático, mas é cruel e, ao mesmo tempo,
cômico — aquela fila de caveirinhas na
margem das páginas faz da agenda um gibi de
terror. Imagine se essa agenda cai em mãos de
um parente dos falecidos.
De algum tempo para cá, outro tipo de
supressão ficou obrigatório: o dos telefones
fixos. Se a agenda anterior contém o número
do telefone fixo e do celular de cada pessoa, e
você tenta ligar para um e para outro a fim de
certificar-se de que continuam valendo, ficará
espantado com quantos fixos, de repente,
passaram a dar aquele sinal diferente de
ocupado — característico dos telefones que
foram desativados, não existem mais. É
terrível constatar que até os seus companheiros
de geração reduziram-se ao celular.
Para completar, as próprias agendas de papel
estão em xeque. Mesmo entre os coroas, quase
ninguém mais as usa — os números de
telefones são anotados diretamente no celular.
Mas o que acontece quando, até por serem
coroas, têm o celular roubado ou o esquecem
em algum lugar, e já jogaram fora o velho
caderno ensebado?
Talvez as agendas do futuro sejam gravadas
diretamente no cérebro — no mísero cérebro humano, arcaico, analógico, que ainda é o
nosso.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2019/11/vida-e-morte-das-agendas.shtml