A SENHORA DO SÉTIMO ANDAR
Numa manhã de setembro do ano passado, eu estava
no jardim do térreo e olhava um pássaro azul que
dançava no ar de fuligem. De repente uma voz aguda
me despertou: “O que você está olhando? Não se vê
nada, as nuvens passam e se dissolvem como a vida.”
Era uma moradora de um apartamento do sétimo
andar. Achei o comentário impertinente e um tanto
poético. Não lhe perguntei nada sobre poesia, mas as
nuvens e suas formas mutáveis me aproximaram de
d. Valéria, uma senhora de uns noventa e poucos
anos. Foi uma aproximação lenta, que se estreitou em
janeiro deste ano, quando ela me convidou para
conversar em seu apartamento. Toquei a campainha
às seis horas em ponto. A sala, iluminada, fora
diminuída por uma biblioteca fantástica e livros
empilhados por toda parte. Perguntou se eu queria
chá, café, suco, uísque ou cerveja. “Suco.” Para meu
deleite, trouxe um copo com suco de manga; e, para
minha surpresa, pegou uma garrafa de uísque e um
copo sem gelo. As mãos tremiam, mas não a voz: “Os
jovens já não bebem mais”, ela disse, com uma ironia
que me fez sorrir. Pôs dois dedos de uísque no copo,
tomou um gole e disse que tinha namorado muito,
numa época em que a maioria das moças namorava
para casar.
(...)
Pôs uma fita cassete num gravador e ouvimos a voz
cavernosa do finado James em noites do passado.
Fiquei emocionado com essa voz, que parecia
mastigar os sons de cada palavra. A viúva bebia
uísque e sorria, sem tirar os olhos do gravador. Um
dos poemas era “The Winding Stair”, título do livro.
Depois veio a Páscoa. Passei cinco dias fora de São
Paulo e, quando voltei, encontrei na soleira da porta
do meu apartamento um envelope com o livro de
Yeats, que d. Valéria me mostrara. Subi pela escada
os dois andares que nos separavam. A porta do 702
estava aberta. Dei uma olhada na sala: não havia
livros nas estantes. Dois homens de macacão azul
enrolavam a marquesa com uma manta de feltro. Até
hoje o apartamento está vazio.
Hatoum, Milton. Um solitário à espreita. Cia de Bolso.
2013