Leia o texto a seguir:
Falta de sono por uso de telas afeta aprendizado de
crianças e adolescentes
Professores observam dificuldade de foco na sala de aula;
médicos recomendam limitar o uso de aparelhos antes de
dormir
Manter a concentração dos alunos nas aulas de Português
tem sido um desafio para Vanessa Soares, professora da rede
estadual de São Paulo há 12 anos. O problema não é,
necessariamente, o desinteresse pela matéria. Ela não consegue
competir com a sonolência e o uso de celulares.
"Vemos muitos alunos com muito sono, e, quando a gente
pergunta, eles foram dormir duas horas da manhã jogando na
internet, usando o celular. Os pais têm dificuldade de controlar",
relata.
Soares ensina crianças e adolescentes de 11 a 14 anos na
cidade de Quatá, interior paulista. Ela notou, nos últimos anos,
uma piora expressiva na capacidade de concentração dos
alunos, que estão cada vez mais sonolentos em sala de aula.
A dificuldade já existia antes da pandemia, mas piorou após o
período de isolamento. Um estudo canadense, publicado na
Jama Pediatrics em novembro de 2022, identificou que o tempo
de tela de jovens até 18 anos aumentou em média 52% durante a
pandemia.
"No período do isolamento, alguns jovens passavam de 14
a 16 horas por dia usando telas", aponta o pediatra Gustavo
Moreira, especialista do Instituto do Sono. "Estudos mostram
que três horas por dia já têm um efeito negativo."
As consequências do uso excessivo de celulares, tablets e
computadores ainda estão sendo estudadas. Oftalmologistas
acreditam, por exemplo, que o hábito esteja ligado ao aumento do
número de casos de miopia em jovens.
A relação da luminosidade das telas com a dificuldade de
dormir, porém, é facilmente explicada pela ciência.
Letícia Soster, responsável pelo laboratório de Sono Infantil
do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas
da USP e membro da ABS (Associação Brasileira do Sono),
aponta que o organismo humano tem uma série de mecanismos
para determinar o ciclo de sono, incluindo fatores
comportamentais e o gasto de energia.
Contudo, um fator importante para que o corpo entenda que
está na hora de dormir é a ausência de luminosidade, difícil de
conseguir quando se tem contato constante com celulares,
tablets e computadores.
"O nosso olho não entende a diferença entre a luz do sol e a
luz de telas", pontua Soster. "Acriança que usa telas no fim do dia
tende a empurrar o horário do início do sono."
É por isso que no período letivo muitos têm dificuldade de se
adaptar aos horários e os efeitos são percebidos em sala de aula.
"A privação de sono tem vários efeitos neurológicos", afirma
o pediatra Gustavo Moreira, especialista em medicina do sono.
Para crianças e adolescentes, dormir menos de nove horas por
dia pode causar alterações de humor, dificuldade de
memorização e de concentração.
Especialmente na adolescência, fatores fisiológicos e sociais
dificultam que essa meta seja alcançada. Moreira ressalta que,
enquanto crianças tendem a ser mais matutinas, adolescentes
são vespertinos: sentem sono mais tarde à noite e têm mais
dificuldade para acordar cedo.
"O horário da escola, que começa às 7h, é muito cedo para o
adolescente", reforça Soster. Segundo a neurologista infantil,
experiências em outros países mostram que atrasar o começo
das aulas pela manhã pode ajudar os alunos a melhorar o
rendimento.
A privação de sono associada ao uso de telas em excesso
causa dificuldades no aprendizado e diminui o foco dos
estudantes em sala de aula. Além disso, professores e
especialistas têm observado um comportamento imediatista e
ansioso.
Ana Paula Aoletta, professora de Língua Portuguesa em São
Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, diz que em
resposta ao comportamento dos alunos, os professores precisam
dinamizar "muito" as aulas, pois "qualquer atividade ou
explicação que se prolongue um pouco, percebo que eles
começam a dispersar".
Aoletta é professora há 19 anos e já ensinou crianças e
adolescentes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental em escolas
municipais da região do ABC Paulista. A profissional relata que,
ao mesmo tempo que os alunos têm o raciocínio mais lento e a
atenção prejudicada, também demonstram certa impaciência e
dificuldade de aguardar respostas.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2023/02/falta-de-sono-poruso-de- telas-afeta-aprendizado-de-criancas-e-adolescentes.shtml
. Acesso em
11/02/2023.