Não vale dizer
Ruy Castro
Vale dizer. Vale lembrar. Vale ressaltar. Vale destacar.
Vale acrescentar. E outros vales isso ou aquilo, só
mudando o verbo. Você pode não ter se tocado, mas,
de há algum tempo, essas palavras estão lhe entrando
pelos olhos com alarmante frequência e ocupando
espaço à toa. A frase começa com "Vale dizer que ..." e
segue-se o que a pessoa acha que vale dizer. Não ocorre
a ela que, se dispensar o "vale dizer" e disser logo o que
tem a dizer, sua informação não sofrerá nenhum
prejuízo. Ao contrário, ganhará em concisão e
objetividade.
É um vício de linguagem, como um tique nervoso ou
uma pálpebra que dispara. E, como todo vício ou tique,
brota de algum lugar no espaço e chega direto aos
dedos de quem escreve, sem um estágio intermediário
no nicho do cérebro onde se escolhem as palavras. A
pessoa, quando se dá conta, já escreveu e, na verdade,
nem se dá conta. Aliás, "na verdade" também é um
desses tiques. Na verdade, por que "na verdade"? E
quem garante que seja verdade? Em tempo:
experimente escrever sem usar "na verdade" e veja
como não lhe fará a menor falta.
"Em tempo"? Eis outra relíquia arrancada do passado e
posta a circular na mídia como se já não pudéssemos
passar sem. Equivale ao "vale dizer". Dá-se assim: na
sequência de uma informação, sapeca-se um pontoparágrafo e, sem qualquer motivo, começa-se o
parágrafo seguinte com "Em tempo ..." --e lá vem a
preciosa informação. É como se o autor temesse
esquecer-se dela ou que seu espaço fosse acabar e ele
não a usasse a tempo. Donde volto a sugerir: se
escrever "Em tempo ...", experimente apagá-la e veja se
seu conteúdo perde alguma coisa.
Alguém dirá que são implicâncias de um escriba
ranzinza e que ninguém está ligando para isso. Pois
devia estar. Manter a língua eficiente, como queria Ezra
Pound, é obrigação de todos os que fazem uso dela.
"Fazer uso"? Epa! De todos que a usam, digo.