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Q3215318 Português

  Leia o texto abaixo e responda à questão.



No contexto em que são empregados, os elementos linguísticos [1], [2] e [4] pertencem
Alternativas
Q3215317 Português

Leia o texto abaixo e responda à questão.


Declaração de bens



Augusto Severo Neto



    Eu, Augusto Severo Neto, brasileiro, norte-rio-grandense, natalense e pirangiano por emoção e escolha, residente e domiciliado em Natal mesmo, em uma paisagem alta do Tirol, salvo nos fins de semana e feriados maiores, quando posso ser encontrado com a companheira em um trato de terra que possuímos diante do mar, em Pirangi, ou em arribadas maiores por terras de serem de lá, quando saímos à descoberta ou ao reencontro, venho, por meio deste documento, fazer uma declaração pública de bens e haveres, para que ninguém venha, depois, me imputar a pecha de possuidor de fortuna ilícita. Sim, porque, pondo de lado qualquer prurido modestoso, eu sou uma pessoa muito rica.

    Não! Esperem aí! Não é esse tipo de riqueza que muitos estão pensando. Vou me explicar: fui menino rico porque meus pais me queriam bem e eu queria bem a eles. Daquele bem que não tolhe, não sufoca, nem acorrenta. Um bem de deixar ser ave, animal ou gente. Um bem de bem-me-quer e nunca malmequer.

    Como se não bastasse isso aí de cima, havia mil coisas mais: lá em casa havia jardim com repuxo, rosas e muitas outras flores. Tinha beija-flor e zigue-zigue, que os mais estudiosos chamam de libélula. Tinha malvão, que chamavam também de língua-de-leão e servia para engraxar sapatos pretos e marrons. Tinha pé de jasmim e mimo-do-céu, que subia pelos postes do alpendre.

    O quintal era outro departamento de riqueza: começava por uns pés de pitanga estrela-de-sangue que faziam uma cerca viva, chamada pelos adultos de seve. Daí por diante, só se vendo: tinha pé de juá que servia de pasta dental, araçazeiro, goiabeira (branca e vermelha), mangueiras de três ou quatro tipos, romã, pitombeira, araticum, banana, carambola e jenipapo e até uns pés de castanhola, bem altos, com copa bem grande, onde Cearense construiu para mim uma cabana do tipo Robinson Crusoé ou Tarzan, só que tinha escada de corda em vez de cipó.

    Olhem que isso aí já é muita coisa para um menino rico, mas teve muito mais, já fora de casa, que eu vou contar: passei muitas férias em Pequessaba, vi o Rio Morto, de águas transparentes e muito fininhas, quase perdido dentro de um túnel de bananeiras gigantes; tomei banho na Lagoa das Piabas, que tinha muita traíra. Andei de carro de boi; escutei o estalo do chicote e a cantiga do carreiro; abri cancela e comparei os dois gemidos (carro de boi/cancela); montei em cavalo manso; subi em gameleira e em pé de fruta-do-conde; ouvi cantador de feira, tocador de fole, repentista e embolador; estive em casa de farinha e vi o rolete brincando de fazer rodinha de estrela branca de mandioca; comi grude de goma e pecado-maneiro bem quentinhos; vi fogueiras de São João (fogueiras de vergonha) e assisti pagador de promessas andando descalço no braseiro. Fui afilhado, noivo, compadre de fogueira, escutei histórias de assombração, dormi em rede com armador gemendo, ouvi grito de seriema, martelada de araponga e apito de saguim. Tive até alumbramento ao ver a filha do morador tomando banho nua no rio. De manhã, eu saia armado de baladeira e bodoque para derrubar fruta madura e tinha muita raiva quando os filhos dos moradores atiravam nas rolinhas. Foi lá em Pequessaba, onde, pela primeira vez, eu comi peba, tejuaçu e jacaré, e vi cobra-de-cipó, corre-campo e cobra-de-veado. Quando voltava do povoado, Chico Rola, casado com tia Bela, trazia alfenim, soda, pé de moleque, rosário e navio de castanha assada, confeito baratinha e chocolate charuto. É ser rico demais, não é não?

    E o tempo foi passando e eu fui continuando rico de viver e de sentir. Até as dores e as saudades que experimentei foram ricas de sentimento. Ah vida bonita!...

    Já meio rapaz, meio garoto, semitonando a voz, apaixonei-me, perdidamente, por uma artista de cinema e uma menina de Itabaiana que veio passar as férias em Natal. Como não podia fugir para Hollywood, fugi para a pequena cidade da Paraíba, o que, de resto, não adiantou grande coisa, pois meu pai já tinha entrado em entendimento com o juizado de menores e o vigário da paróquia, e eu fui recambiado. Mas foi bonito e valeu.

    E o tempo foi escorregando no tobogã do calendário e eu nele. Vivi tanta coisa!... Tive paixões eternas, fui aviador de aeroclube, andei pelo mundo, bebi muitas bebidas, comi de muitas comidas (confesso um tanto encabritado, por se tratar de um lugar comum, já tão explorado, mas feliz apesar disso), escrevi livros, fiz filhos e plantei árvores. Mas não parei, não senhor! Continuo navegando, escrevendo, amando e achando a paisagem e a vida muito bonitas. E também não vou à deriva. Tenho uma porção de amigos e amigas queridos: poetas, executivos, cantadores de feira, mascates, mulheres bem-comportadas, mulheres outonais, mulheres lindas e prostitutas até. Isso fora o que não lembro agora.

    Tenho rumo certo – o antiporto e o imprevisto – e uma timoneira, eterna na sua temporalidade, que me deu de beber água da fonte real e me deu de presente todas as rotas, a Estrela Polar, a linha do Equador, a aurora boreal, os fogos de Santelmo, as rosas orvalhadas, as esteiras dos navios, o voo dos pássaros, o encontro da noite com o dia, o som dos carrilhões dos órgãos das grandes catedrais, o incêndio dos poentes, o canto das cigarras, as cores do arco-íris, além de muita, muita poesia mesmo.

    Tem muito mais ainda. É que há um alumbramento embriagado de felicidade dentro de mim, que carrosseleia os meus haveres de alegria e beleza, que eu acabo deixando de citar muitos deles.

    Isso posto e declarado, que seja devidamente registrado para conhecimento dos meus antepassados, dos meus contemporâneos, dos meus descendentes e de todos mais os quais se inteirem de que sou um homem imensamente rico.


SEVERO NETO, Augusto. Declaração de bens. In: SOBRAL, Gustavo; MACEDO, Helton Rubiano de (Org.). Cinco cronistas da cidade. Natal: EDUFRN, 2017. p. 11-16. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstream/123456789/23773/1/Cinco%20cronistas%20da%20cidade.pdf. Acesso em: 26 set. 2022.

Considerando o conteúdo de cada parágrafo, o texto progride da seguinte forma:
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Q3215316 Português

Leia o texto abaixo e responda à questão.


Declaração de bens



Augusto Severo Neto



    Eu, Augusto Severo Neto, brasileiro, norte-rio-grandense, natalense e pirangiano por emoção e escolha, residente e domiciliado em Natal mesmo, em uma paisagem alta do Tirol, salvo nos fins de semana e feriados maiores, quando posso ser encontrado com a companheira em um trato de terra que possuímos diante do mar, em Pirangi, ou em arribadas maiores por terras de serem de lá, quando saímos à descoberta ou ao reencontro, venho, por meio deste documento, fazer uma declaração pública de bens e haveres, para que ninguém venha, depois, me imputar a pecha de possuidor de fortuna ilícita. Sim, porque, pondo de lado qualquer prurido modestoso, eu sou uma pessoa muito rica.

    Não! Esperem aí! Não é esse tipo de riqueza que muitos estão pensando. Vou me explicar: fui menino rico porque meus pais me queriam bem e eu queria bem a eles. Daquele bem que não tolhe, não sufoca, nem acorrenta. Um bem de deixar ser ave, animal ou gente. Um bem de bem-me-quer e nunca malmequer.

    Como se não bastasse isso aí de cima, havia mil coisas mais: lá em casa havia jardim com repuxo, rosas e muitas outras flores. Tinha beija-flor e zigue-zigue, que os mais estudiosos chamam de libélula. Tinha malvão, que chamavam também de língua-de-leão e servia para engraxar sapatos pretos e marrons. Tinha pé de jasmim e mimo-do-céu, que subia pelos postes do alpendre.

    O quintal era outro departamento de riqueza: começava por uns pés de pitanga estrela-de-sangue que faziam uma cerca viva, chamada pelos adultos de seve. Daí por diante, só se vendo: tinha pé de juá que servia de pasta dental, araçazeiro, goiabeira (branca e vermelha), mangueiras de três ou quatro tipos, romã, pitombeira, araticum, banana, carambola e jenipapo e até uns pés de castanhola, bem altos, com copa bem grande, onde Cearense construiu para mim uma cabana do tipo Robinson Crusoé ou Tarzan, só que tinha escada de corda em vez de cipó.

    Olhem que isso aí já é muita coisa para um menino rico, mas teve muito mais, já fora de casa, que eu vou contar: passei muitas férias em Pequessaba, vi o Rio Morto, de águas transparentes e muito fininhas, quase perdido dentro de um túnel de bananeiras gigantes; tomei banho na Lagoa das Piabas, que tinha muita traíra. Andei de carro de boi; escutei o estalo do chicote e a cantiga do carreiro; abri cancela e comparei os dois gemidos (carro de boi/cancela); montei em cavalo manso; subi em gameleira e em pé de fruta-do-conde; ouvi cantador de feira, tocador de fole, repentista e embolador; estive em casa de farinha e vi o rolete brincando de fazer rodinha de estrela branca de mandioca; comi grude de goma e pecado-maneiro bem quentinhos; vi fogueiras de São João (fogueiras de vergonha) e assisti pagador de promessas andando descalço no braseiro. Fui afilhado, noivo, compadre de fogueira, escutei histórias de assombração, dormi em rede com armador gemendo, ouvi grito de seriema, martelada de araponga e apito de saguim. Tive até alumbramento ao ver a filha do morador tomando banho nua no rio. De manhã, eu saia armado de baladeira e bodoque para derrubar fruta madura e tinha muita raiva quando os filhos dos moradores atiravam nas rolinhas. Foi lá em Pequessaba, onde, pela primeira vez, eu comi peba, tejuaçu e jacaré, e vi cobra-de-cipó, corre-campo e cobra-de-veado. Quando voltava do povoado, Chico Rola, casado com tia Bela, trazia alfenim, soda, pé de moleque, rosário e navio de castanha assada, confeito baratinha e chocolate charuto. É ser rico demais, não é não?

    E o tempo foi passando e eu fui continuando rico de viver e de sentir. Até as dores e as saudades que experimentei foram ricas de sentimento. Ah vida bonita!...

    Já meio rapaz, meio garoto, semitonando a voz, apaixonei-me, perdidamente, por uma artista de cinema e uma menina de Itabaiana que veio passar as férias em Natal. Como não podia fugir para Hollywood, fugi para a pequena cidade da Paraíba, o que, de resto, não adiantou grande coisa, pois meu pai já tinha entrado em entendimento com o juizado de menores e o vigário da paróquia, e eu fui recambiado. Mas foi bonito e valeu.

    E o tempo foi escorregando no tobogã do calendário e eu nele. Vivi tanta coisa!... Tive paixões eternas, fui aviador de aeroclube, andei pelo mundo, bebi muitas bebidas, comi de muitas comidas (confesso um tanto encabritado, por se tratar de um lugar comum, já tão explorado, mas feliz apesar disso), escrevi livros, fiz filhos e plantei árvores. Mas não parei, não senhor! Continuo navegando, escrevendo, amando e achando a paisagem e a vida muito bonitas. E também não vou à deriva. Tenho uma porção de amigos e amigas queridos: poetas, executivos, cantadores de feira, mascates, mulheres bem-comportadas, mulheres outonais, mulheres lindas e prostitutas até. Isso fora o que não lembro agora.

    Tenho rumo certo – o antiporto e o imprevisto – e uma timoneira, eterna na sua temporalidade, que me deu de beber água da fonte real e me deu de presente todas as rotas, a Estrela Polar, a linha do Equador, a aurora boreal, os fogos de Santelmo, as rosas orvalhadas, as esteiras dos navios, o voo dos pássaros, o encontro da noite com o dia, o som dos carrilhões dos órgãos das grandes catedrais, o incêndio dos poentes, o canto das cigarras, as cores do arco-íris, além de muita, muita poesia mesmo.

    Tem muito mais ainda. É que há um alumbramento embriagado de felicidade dentro de mim, que carrosseleia os meus haveres de alegria e beleza, que eu acabo deixando de citar muitos deles.

    Isso posto e declarado, que seja devidamente registrado para conhecimento dos meus antepassados, dos meus contemporâneos, dos meus descendentes e de todos mais os quais se inteirem de que sou um homem imensamente rico.


SEVERO NETO, Augusto. Declaração de bens. In: SOBRAL, Gustavo; MACEDO, Helton Rubiano de (Org.). Cinco cronistas da cidade. Natal: EDUFRN, 2017. p. 11-16. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstream/123456789/23773/1/Cinco%20cronistas%20da%20cidade.pdf. Acesso em: 26 set. 2022.

No texto, entrecruzam-se, predominantemente, os tipos textuais
Alternativas
Q3215315 Português

Leia o texto abaixo e responda à questão.


Declaração de bens



Augusto Severo Neto



    Eu, Augusto Severo Neto, brasileiro, norte-rio-grandense, natalense e pirangiano por emoção e escolha, residente e domiciliado em Natal mesmo, em uma paisagem alta do Tirol, salvo nos fins de semana e feriados maiores, quando posso ser encontrado com a companheira em um trato de terra que possuímos diante do mar, em Pirangi, ou em arribadas maiores por terras de serem de lá, quando saímos à descoberta ou ao reencontro, venho, por meio deste documento, fazer uma declaração pública de bens e haveres, para que ninguém venha, depois, me imputar a pecha de possuidor de fortuna ilícita. Sim, porque, pondo de lado qualquer prurido modestoso, eu sou uma pessoa muito rica.

    Não! Esperem aí! Não é esse tipo de riqueza que muitos estão pensando. Vou me explicar: fui menino rico porque meus pais me queriam bem e eu queria bem a eles. Daquele bem que não tolhe, não sufoca, nem acorrenta. Um bem de deixar ser ave, animal ou gente. Um bem de bem-me-quer e nunca malmequer.

    Como se não bastasse isso aí de cima, havia mil coisas mais: lá em casa havia jardim com repuxo, rosas e muitas outras flores. Tinha beija-flor e zigue-zigue, que os mais estudiosos chamam de libélula. Tinha malvão, que chamavam também de língua-de-leão e servia para engraxar sapatos pretos e marrons. Tinha pé de jasmim e mimo-do-céu, que subia pelos postes do alpendre.

    O quintal era outro departamento de riqueza: começava por uns pés de pitanga estrela-de-sangue que faziam uma cerca viva, chamada pelos adultos de seve. Daí por diante, só se vendo: tinha pé de juá que servia de pasta dental, araçazeiro, goiabeira (branca e vermelha), mangueiras de três ou quatro tipos, romã, pitombeira, araticum, banana, carambola e jenipapo e até uns pés de castanhola, bem altos, com copa bem grande, onde Cearense construiu para mim uma cabana do tipo Robinson Crusoé ou Tarzan, só que tinha escada de corda em vez de cipó.

    Olhem que isso aí já é muita coisa para um menino rico, mas teve muito mais, já fora de casa, que eu vou contar: passei muitas férias em Pequessaba, vi o Rio Morto, de águas transparentes e muito fininhas, quase perdido dentro de um túnel de bananeiras gigantes; tomei banho na Lagoa das Piabas, que tinha muita traíra. Andei de carro de boi; escutei o estalo do chicote e a cantiga do carreiro; abri cancela e comparei os dois gemidos (carro de boi/cancela); montei em cavalo manso; subi em gameleira e em pé de fruta-do-conde; ouvi cantador de feira, tocador de fole, repentista e embolador; estive em casa de farinha e vi o rolete brincando de fazer rodinha de estrela branca de mandioca; comi grude de goma e pecado-maneiro bem quentinhos; vi fogueiras de São João (fogueiras de vergonha) e assisti pagador de promessas andando descalço no braseiro. Fui afilhado, noivo, compadre de fogueira, escutei histórias de assombração, dormi em rede com armador gemendo, ouvi grito de seriema, martelada de araponga e apito de saguim. Tive até alumbramento ao ver a filha do morador tomando banho nua no rio. De manhã, eu saia armado de baladeira e bodoque para derrubar fruta madura e tinha muita raiva quando os filhos dos moradores atiravam nas rolinhas. Foi lá em Pequessaba, onde, pela primeira vez, eu comi peba, tejuaçu e jacaré, e vi cobra-de-cipó, corre-campo e cobra-de-veado. Quando voltava do povoado, Chico Rola, casado com tia Bela, trazia alfenim, soda, pé de moleque, rosário e navio de castanha assada, confeito baratinha e chocolate charuto. É ser rico demais, não é não?

    E o tempo foi passando e eu fui continuando rico de viver e de sentir. Até as dores e as saudades que experimentei foram ricas de sentimento. Ah vida bonita!...

    Já meio rapaz, meio garoto, semitonando a voz, apaixonei-me, perdidamente, por uma artista de cinema e uma menina de Itabaiana que veio passar as férias em Natal. Como não podia fugir para Hollywood, fugi para a pequena cidade da Paraíba, o que, de resto, não adiantou grande coisa, pois meu pai já tinha entrado em entendimento com o juizado de menores e o vigário da paróquia, e eu fui recambiado. Mas foi bonito e valeu.

    E o tempo foi escorregando no tobogã do calendário e eu nele. Vivi tanta coisa!... Tive paixões eternas, fui aviador de aeroclube, andei pelo mundo, bebi muitas bebidas, comi de muitas comidas (confesso um tanto encabritado, por se tratar de um lugar comum, já tão explorado, mas feliz apesar disso), escrevi livros, fiz filhos e plantei árvores. Mas não parei, não senhor! Continuo navegando, escrevendo, amando e achando a paisagem e a vida muito bonitas. E também não vou à deriva. Tenho uma porção de amigos e amigas queridos: poetas, executivos, cantadores de feira, mascates, mulheres bem-comportadas, mulheres outonais, mulheres lindas e prostitutas até. Isso fora o que não lembro agora.

    Tenho rumo certo – o antiporto e o imprevisto – e uma timoneira, eterna na sua temporalidade, que me deu de beber água da fonte real e me deu de presente todas as rotas, a Estrela Polar, a linha do Equador, a aurora boreal, os fogos de Santelmo, as rosas orvalhadas, as esteiras dos navios, o voo dos pássaros, o encontro da noite com o dia, o som dos carrilhões dos órgãos das grandes catedrais, o incêndio dos poentes, o canto das cigarras, as cores do arco-íris, além de muita, muita poesia mesmo.

    Tem muito mais ainda. É que há um alumbramento embriagado de felicidade dentro de mim, que carrosseleia os meus haveres de alegria e beleza, que eu acabo deixando de citar muitos deles.

    Isso posto e declarado, que seja devidamente registrado para conhecimento dos meus antepassados, dos meus contemporâneos, dos meus descendentes e de todos mais os quais se inteirem de que sou um homem imensamente rico.


SEVERO NETO, Augusto. Declaração de bens. In: SOBRAL, Gustavo; MACEDO, Helton Rubiano de (Org.). Cinco cronistas da cidade. Natal: EDUFRN, 2017. p. 11-16. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstream/123456789/23773/1/Cinco%20cronistas%20da%20cidade.pdf. Acesso em: 26 set. 2022.

Para atingir seu propósito comunicativo, o texto estabelece
Alternativas
Q3215314 Português

Leia o texto abaixo e responda à questão.


Declaração de bens



Augusto Severo Neto



    Eu, Augusto Severo Neto, brasileiro, norte-rio-grandense, natalense e pirangiano por emoção e escolha, residente e domiciliado em Natal mesmo, em uma paisagem alta do Tirol, salvo nos fins de semana e feriados maiores, quando posso ser encontrado com a companheira em um trato de terra que possuímos diante do mar, em Pirangi, ou em arribadas maiores por terras de serem de lá, quando saímos à descoberta ou ao reencontro, venho, por meio deste documento, fazer uma declaração pública de bens e haveres, para que ninguém venha, depois, me imputar a pecha de possuidor de fortuna ilícita. Sim, porque, pondo de lado qualquer prurido modestoso, eu sou uma pessoa muito rica.

    Não! Esperem aí! Não é esse tipo de riqueza que muitos estão pensando. Vou me explicar: fui menino rico porque meus pais me queriam bem e eu queria bem a eles. Daquele bem que não tolhe, não sufoca, nem acorrenta. Um bem de deixar ser ave, animal ou gente. Um bem de bem-me-quer e nunca malmequer.

    Como se não bastasse isso aí de cima, havia mil coisas mais: lá em casa havia jardim com repuxo, rosas e muitas outras flores. Tinha beija-flor e zigue-zigue, que os mais estudiosos chamam de libélula. Tinha malvão, que chamavam também de língua-de-leão e servia para engraxar sapatos pretos e marrons. Tinha pé de jasmim e mimo-do-céu, que subia pelos postes do alpendre.

    O quintal era outro departamento de riqueza: começava por uns pés de pitanga estrela-de-sangue que faziam uma cerca viva, chamada pelos adultos de seve. Daí por diante, só se vendo: tinha pé de juá que servia de pasta dental, araçazeiro, goiabeira (branca e vermelha), mangueiras de três ou quatro tipos, romã, pitombeira, araticum, banana, carambola e jenipapo e até uns pés de castanhola, bem altos, com copa bem grande, onde Cearense construiu para mim uma cabana do tipo Robinson Crusoé ou Tarzan, só que tinha escada de corda em vez de cipó.

    Olhem que isso aí já é muita coisa para um menino rico, mas teve muito mais, já fora de casa, que eu vou contar: passei muitas férias em Pequessaba, vi o Rio Morto, de águas transparentes e muito fininhas, quase perdido dentro de um túnel de bananeiras gigantes; tomei banho na Lagoa das Piabas, que tinha muita traíra. Andei de carro de boi; escutei o estalo do chicote e a cantiga do carreiro; abri cancela e comparei os dois gemidos (carro de boi/cancela); montei em cavalo manso; subi em gameleira e em pé de fruta-do-conde; ouvi cantador de feira, tocador de fole, repentista e embolador; estive em casa de farinha e vi o rolete brincando de fazer rodinha de estrela branca de mandioca; comi grude de goma e pecado-maneiro bem quentinhos; vi fogueiras de São João (fogueiras de vergonha) e assisti pagador de promessas andando descalço no braseiro. Fui afilhado, noivo, compadre de fogueira, escutei histórias de assombração, dormi em rede com armador gemendo, ouvi grito de seriema, martelada de araponga e apito de saguim. Tive até alumbramento ao ver a filha do morador tomando banho nua no rio. De manhã, eu saia armado de baladeira e bodoque para derrubar fruta madura e tinha muita raiva quando os filhos dos moradores atiravam nas rolinhas. Foi lá em Pequessaba, onde, pela primeira vez, eu comi peba, tejuaçu e jacaré, e vi cobra-de-cipó, corre-campo e cobra-de-veado. Quando voltava do povoado, Chico Rola, casado com tia Bela, trazia alfenim, soda, pé de moleque, rosário e navio de castanha assada, confeito baratinha e chocolate charuto. É ser rico demais, não é não?

    E o tempo foi passando e eu fui continuando rico de viver e de sentir. Até as dores e as saudades que experimentei foram ricas de sentimento. Ah vida bonita!...

    Já meio rapaz, meio garoto, semitonando a voz, apaixonei-me, perdidamente, por uma artista de cinema e uma menina de Itabaiana que veio passar as férias em Natal. Como não podia fugir para Hollywood, fugi para a pequena cidade da Paraíba, o que, de resto, não adiantou grande coisa, pois meu pai já tinha entrado em entendimento com o juizado de menores e o vigário da paróquia, e eu fui recambiado. Mas foi bonito e valeu.

    E o tempo foi escorregando no tobogã do calendário e eu nele. Vivi tanta coisa!... Tive paixões eternas, fui aviador de aeroclube, andei pelo mundo, bebi muitas bebidas, comi de muitas comidas (confesso um tanto encabritado, por se tratar de um lugar comum, já tão explorado, mas feliz apesar disso), escrevi livros, fiz filhos e plantei árvores. Mas não parei, não senhor! Continuo navegando, escrevendo, amando e achando a paisagem e a vida muito bonitas. E também não vou à deriva. Tenho uma porção de amigos e amigas queridos: poetas, executivos, cantadores de feira, mascates, mulheres bem-comportadas, mulheres outonais, mulheres lindas e prostitutas até. Isso fora o que não lembro agora.

    Tenho rumo certo – o antiporto e o imprevisto – e uma timoneira, eterna na sua temporalidade, que me deu de beber água da fonte real e me deu de presente todas as rotas, a Estrela Polar, a linha do Equador, a aurora boreal, os fogos de Santelmo, as rosas orvalhadas, as esteiras dos navios, o voo dos pássaros, o encontro da noite com o dia, o som dos carrilhões dos órgãos das grandes catedrais, o incêndio dos poentes, o canto das cigarras, as cores do arco-íris, além de muita, muita poesia mesmo.

    Tem muito mais ainda. É que há um alumbramento embriagado de felicidade dentro de mim, que carrosseleia os meus haveres de alegria e beleza, que eu acabo deixando de citar muitos deles.

    Isso posto e declarado, que seja devidamente registrado para conhecimento dos meus antepassados, dos meus contemporâneos, dos meus descendentes e de todos mais os quais se inteirem de que sou um homem imensamente rico.


SEVERO NETO, Augusto. Declaração de bens. In: SOBRAL, Gustavo; MACEDO, Helton Rubiano de (Org.). Cinco cronistas da cidade. Natal: EDUFRN, 2017. p. 11-16. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstream/123456789/23773/1/Cinco%20cronistas%20da%20cidade.pdf. Acesso em: 26 set. 2022.

O propósito comunicativo central do texto é 
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Q2564320 Nutrição
O atendimento prestado às pessoas em situação de rua deve ser baseado em uma abordagem diferenciada que reconheça o cuidado como um direito fundamental. Em relação ao cuidado nutricional à população em situação de rua, analise as afirmativas abaixo.

I As atividades de organizar o processo de trabalho e preparar os profissionais, com vistas a reconhecer e lidar com as características singulares da população em situação de rua, devem ser ações permanentes, com o objetivo de atender melhor as pessoas nessa situação.

II Para o cuidado nutricional adequado, não é tão relevante identificar onde as populações em situação de rua costumam ficar, como se relacionam com a comunidade e quais são os recursos disponíveis.

III É imprescindível que a equipe de saúde realize escuta atenta e qualificada bem como acompanhamento longitudinal da população e busque apoiá-la, sem imposições, no intuito de construir e propor intervenções em diálogo com a sua realidade.

IV A avaliação do estado nutricional por medidas antropométricas e por marcadores de alimentação saudável do SISVAN é suficiente para realizar uma conduta nutricional individualizada para os usuários seguirem.


Das afirmativas, estão corretas
Alternativas
Q2564319 Nutrição
A atenção nutricional de pessoas transgênero (travestis e transexuais) requer algumas especificidades do ponto de vista social e também antropométrico. O Guia de atenção nutricional à população LGBTQIA+, publicado pelo Conselho Regional de Nutricionistas da 1ª Região em 2021, contém algumas recomendações para avaliação nutricional de pessoas transgênero. Em relação às especificidades inerentes à atenção nutricional de pessoas transgênero,
Alternativas
Q2564318 Nutrição
P.G.M., do gênero masculino, com 14 anos de idade, é um usuário do Sistema Único de Saúde (SUS) que é acompanhado pela atenção básica à saúde e procura o serviço para, no mínimo uma vez por ano, realizar uma avaliação do estado nutricional. Diante disso, os principais dados a serem coletados para realizar o diagnóstico do estado nutricional do adolescente são:
Alternativas
Q2564317 Nutrição
O monitoramento do estado nutricional de crianças, adolescentes, adultos, idosos e gestantes é essencial para o desenvolvimento de políticas públicas capazes de promover uma alimentação adequada para o pleno crescimento e desenvolvimento, prevenindo fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis. São exemplos de indicadores adequados para avaliação nutricional de populações
Alternativas
Q2564316 Nutrição
O Inquérito Nacional de Alimentação (INA) e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) são dois inquéritos nacionais que abordam, de alguma forma, as questões sobre alimentação, mas com metodologias diferentes. Em relação às características metodológicas do INA e da PNS,
Alternativas
Q2564315 Nutrição
O acompanhamento da situação alimentar e nutricional de países é realizado por meio de inquéritos de base populacional. No Brasil, a principal pesquisa de consumo alimentar é chamada de Inquérito Nacional de Alimentação (INA), sendo um módulo da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Em relação ao INA, em sua última edição (2017-2018), foi utilizado como técnica de coleta de informações de consumo alimentar o
Alternativas
Q2564314 Nutrição
A transição nutricional pode ser dividida em três estágios, em que o primeiro estágio é caracterizado por risco para deficiências nutricionais, incluindo desnutrição energéticoproteica. Um segundo momento da transição é marcado pela redução dessas condições. Por fim, em um terceiro estágio, o consumo alimentar passa a ser, predominantemente, composto por produtos ultraprocessados, impactando em problemas de saúde pública como obesidade. Em muitos casos, no Brasil, por exemplo, há diferenças importantes nos sistemas alimentares das cidades e regiões. No caso de comunidades ribeirinhas na região amazônica, por exemplo, o sistema alimentar é baseado, majoritariamente, em atividades de caça e de coleta, bem como em um sistema econômico baseado em trocas. Por outro lado, o sistema alimentar em centros urbanos é baseado no consumo de alimentos provindos de grandes redes varejistas, fundamentando-se em uma economia de mercado moderna. Em relação às características dos sistemas alimentares das comunidades ribeirinhas da Amazônia e dos centros urbanos do país,
Alternativas
Q2564313 Nutrição
A transição nutricional é um processo complexo e multifacetado que descreve as mudanças nas características nutricionais de uma população ao longo do tempo. Alguns indicadores podem ser utilizados para acompanhar o processo de transição nutricional na população brasileira, tais como
Alternativas
Q2564312 Nutrição
Um dos principais indicadores utilizados para mensurar a distribuição de doenças e agravos associados à alimentação e à nutrição é o indicador de prevalência. Esse indicador leva em consideração a
Alternativas
Q2564311 Nutrição
O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (VIGISAN) foi um estudo fundamental para compreender a situação da insegurança alimentar no país. Em sua execução, os pesquisadores consideraram uma amostra representativa da população brasileira, baseada no número de domicílios estimados para o Brasil, e entrevistaram os indivíduos em um período de tempo específico. Metodologias de pesquisas similares à VIGISAN são essenciais para compreender a distribuição de desfechos relacionados à alimentação e nutrição e podem ser caracterizadas como estudo
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Q2564310 Nutrição
O trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS) demonstra que as práticas em saúde só ganham sentido quando estão pautadas na realidade dos indivíduos e das comunidades. Desse modo, a identificação do ambiente alimentar como parte do diagnóstico do território constitui-se em um elemento essencial para a construção de práticas de cuidado em alimentação e nutrição contextualizadas que contribuam para a atenção integral à saúde. Em relação ao ambiente alimentar, analise as afirmativas abaixo.

I Iniciativas de educação em saúde que promovam a autonomia das pessoas para fazerem escolhas alimentares promotoras de saúde devem ser incorporadas ao processo de trabalho das equipes de APS.

II As práticas corporativas e interesses comerciais são aliados no desenvolvimento tecnológico dos alimentos, não causando impactos na saúde dos indivíduos e populações.

III O tipo e a localização dos comércios e a disponibilidade de alimentos saudáveis fazem parte das dimensões do ambiente alimentar.

IV Pântanos alimentares são locais em que se predomina a venda de produtos in natura, ou minimamente processados.


Das afirmativas, estão corretas
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Q2564309 Nutrição
A atuação do nutricionista na Atenção Básica deve pautar-se pelo compromisso e pelo conhecimento técnico da realidade epidemiológica e das ferramentas de ação em saúde coletiva. Destarte, o Conselho Federal de Nutricionistas por meio da resolução CFN nº 600/2018, definiu as atividades do nutricionista necessárias à sua atuação profissional em diferentes áreas de atuação, incluindo a área Nutrição em Saúde Coletiva, que contempla a subárea Atenção Básica em Saúde. Em relação às atividades do nutricionista no âmbito do cuidado nutricional na Atenção Básica em Saúde do SUS, é uma atividade obrigatória desse profissional 
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Q2564308 Nutrição
O Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A (PNSVA) tem como objetivo reduzir e controlar a hipovitaminose A, a mortalidade e a morbidade em crianças por meio da suplementação profilática de megadoses de vitamina A. Em relação ao programa, analise as afirmativas abaixo.

I Para o monitoramento do PNSVA, os dados de administração de vitamina A devem ser registrados na ficha de atendimento individual, na opção “administração de vitamina A”.

II Para crianças de 12 a 24 meses, a dosagem de vitamina A deve ser de 200.000 UI, uma vez a cada seis meses.

III A implementação do PNSVA pode ser realizada nas Unidades básicas de saúde e em escolas.

IV Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a faixa etária de suplementação de vitamina A é de 6 a 59 meses.



Das afirmativas, estão corretas
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Q2564307 Nutrição
O consumo alimentar saudável é um dos determinantes do estado nutricional e se relaciona à saúde em todas as fases do curso da vida. Nesse contexto, no acompanhamento da situação alimentar e nutricional dos indivíduos e coletividades por meio da Vigilância Alimentar e Nutricional (VAN), o uso do formulário de marcadores de consumo alimentar é uma ferramenta útil e prática para
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Q2564306 Nutrição
A Matriz para Organização dos Cuidados em Alimentação e Nutrição na Atenção Primária à Saúde tem o propósito de fornecer bases que apoiem a estruturação desses cuidados nos territórios cobertos pela APS no Brasil. Para essa organização, são considerados os sujeitos, os níveis de intervenção e o caráter das ações de saúde desenvolvidas no âmbito da atenção básica. Quanto ao caráter dessas ações, são recomendações de práticas de cuidado universais e específicas, respectivamente: 
Alternativas
Respostas
2121: A
2122: A
2123: A
2124: A
2125: A
2126: A
2127: A
2128: A
2129: A
2130: A
2131: A
2132: A
2133: A
2134: A
2135: A
2136: A
2137: A
2138: A
2139: A
2140: A