De acordo com o texto, "Essa misoginia raramente se apresen...
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Ano: 2026
Banca:
FURB
Órgão:
Câmara de Curitibanos - SC
Prova:
FURB - 2026 - Câmara de Curitibanos - SC - Controlador Interno |
Q4246936
Português
Texto associado
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
COMO A MISOGINIA DESQUALIFICA MULHERES EM
ESPAÇOS DE PODER
Comentários aparentemente banais produzem um deslocamento
simbólico importante: a mulher deixa de ser interlocutora legítima para
se tornar alguém a ser ridicularizada ou diminuída
Juliana Kaiser — 29 de maio de 2026
"Faz um B.O., querida!"
A frase acima foi dirigida a mim dias atrás em um grupo
de WhatsApp formado por pessoas que tiveram a
oportunidade de acessar a universidade fora do Brasil.
Veio de um homem, após eu defender a necessidade de
pensar estratégias mais inclusivas para pessoas em
situação de vulnerabilidade social. O episódio poderia
parecer banal ou isolado. Mas não é.
Expressões como "flor", "querida", "diva" ou "amorzinho"
aparecem frequentemente em ambientes profissionais e
acadêmicos como formas aparentemente inofensivas de
interação. No entanto, quando usadas em contextos de
discordância, podem funcionar como mecanismos de
infantilização e deslegitimação da fala feminina.
Essa misoginia raramente se apresenta apenas por meio
de agressões explícitas. Em muitos casos, ela opera de
forma simbólica e cotidiana: no tom condescendente, na
ironia, na tentativa de transformar mulheres assertivas
em figuras "emocionais", "agressivas" ou "difíceis".
Quando o ataque vem travestido de humor ou
informalidade, a reação feminina costuma ser percebida
como exagerada.
Nos últimos anos, diferentes pesquisas têm demonstrado
que mulheres seguem enfrentando barreiras estruturais
para ocupar e permanecer em espaços de liderança.
Dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística) em 2024 mostram que, embora
as mulheres brasileiras tenham, em média, maior
escolaridade do que os homens, elas ocupam apenas
39,3% dos cargos gerenciais do país e seguem
recebendo salários inferiores mesmo em funções
equivalentes.
As desigualdades tornam-se ainda mais profundas
quando raça e origem social entram na análise. O
relatório "Perfil social, racial e de gênero das 1.100
maiores empresas do Brasil", divulgado pelo Instituto
Ethos em 2024, mostra que mulheres negras ocupam
apenas 1,8% dos assentos em conselhos de
administração e 3,4% dos cargos executivos das maiores
empresas brasileiras.
A desigualdade aparece também na política. Apesar de
representarem mais da metade da população brasileira,
mulheres seguem sendo minoria nos espaços
institucionais de poder. Negras, indígenas e periféricas
enfrentam obstáculos ainda maiores para acessar
estruturas partidárias, financiamento de campanha e visibilidade pública.
Esse cenário ajuda a compreender por que a violência
política de gênero ganhou centralidade no debate público
nos últimos anos. Em 2021, o Brasil aprovou uma
legislação específica para combater a violência política
contra mulheres, reconhecendo práticas de
constrangimento, humilhação ou intimidação voltadas a
dificultar sua atuação em espaços de poder. Mais
recentemente, o chamado "PL da Misoginia" recolocou o
tema em evidência.
Mas a misoginia cotidiana não acontece apenas nos
parlamentos ou nas redes sociais. Ela atravessa
universidades, empresas, redações, grupos de
WhatsApp e ambientes intelectuais que, muitas vezes,
se imaginam progressistas e democráticos. A socióloga
norte-americana Rosabeth Moss Kanter já demonstrava,
desde os anos 1970, como mulheres em espaços
historicamente masculinos tendem a ser submetidas a
processos constantes de vigilância e deslegitimação.
Décadas depois, o problema permanece atual.
Estudos internacionais sobre liderança mostram que
homens assertivos costumam ser percebidos como
firmes e preparados, enquanto mulheres com o mesmo
comportamento frequentemente recebem avaliações
negativas associadas à arrogância ou instabilidade
emocional. Aquilo que é reconhecido como liderança em
homens muitas vezes aparece como inadequação em
mulheres.
Os efeitos desse processo não são apenas individuais.
Eles produzem desgaste contínuo e ajudam a explicar
por que tantas mulheres se afastam de ambientes de
liderança, debate e poder institucional. A necessidade
constante de reafirmar a legitimidade da própria voz cria
um ambiente de exaustão silenciosa.
Em minha pesquisa de doutorado sobre gênero, pobreza
e raça, tenho encontrado um elemento recorrente:
mulheres — sobretudo negras e oriundas de contextos
de vulnerabilidade social — frequentemente crescem
sem se perceber como sujeitos possíveis de influência e
poder. A desigualdade não opera apenas no acesso
material aos espaços; ela também atua sobre as
expectativas e sobre a capacidade de imaginar
pertencimento.
Pierre Bourdieu já apontava que estruturas de
dominação tendem a se reproduzir também por
mecanismos simbólicos. Determinados grupos
aprendem, desde cedo, quais lugares lhes parecem
possíveis ou legítimos. Quando mulheres pobres, negras
ou periféricas chegam a espaços de prestígio acadêmico
ou institucional, frequentemente carregam consigo a
sensação de não pertencimento produzida por uma
longa trajetória de exclusão.
Foi justamente esse o sentido do meu questionamento
no grupo de WhatsApp, aquele que foi respondido com a
frase misógina do começo deste artigo: o de discutir
quais estratégias poderiam ser construídas para
promover inclusão social de forma efetiva. Além de não
buscar enfrentar o conteúdo da discussão, a resposta
que recebi a deslocou para um registro de desqualificação pessoal travestido de informalidade.
O problema é que episódios como esse dificilmente
aparecem como violência evidente. Não há ameaças
explícitas ou agressões físicas. Há apenas um
comentário aparentemente banal que produz um
deslocamento simbólico importante: a mulher deixa de
ser interlocutora legítima para se tornar alguém a ser
ridicularizada ou diminuída.
As redes sociais e os aplicativos de mensagem
ampliaram ainda mais esse fenômeno. Mulheres que
ocupam espaços públicos de fala — jornalistas,
pesquisadoras, políticas ou ativistas — tornaram-se
alvos recorrentes de ataques coordenados e campanhas
de intimidação.
Reconhecer essas práticas não significa exagerar
conflitos cotidianos nem impedir divergências.
Discordâncias são parte essencial da vida democrática.
O problema começa quando o debate deixa de enfrentar
argumentos para atuar na tentativa de diminuir ou
deslegitimar quem fala.
A misoginia cotidiana não se sustenta apenas em
grandes episódios de violência. Ela se reproduz,
sobretudo, nos pequenos gestos que buscam reduzir a
autoridade da fala feminina em espaços públicos,
profissionais e intelectuais.
Reconhecer essas práticas é importante não apenas
para proteger mulheres, mas para qualificar o próprio
debate público. Afinal, sociedades democráticas
dependem da possibilidade de que diferentes vozes
possam participar da esfera pública sem que sua
legitimidade seja constantemente colocada em
suspeição.
Juliana Kaiser é doutoranda e pesquisadora das relações entre
gênero, pobreza e raça na University College London. Estuda
participação feminina em espaços de poder, ambição e desigualdade
social, com foco nas experiências de mulheres em contextos de
vulnerabilidade.
Disponível em:
https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2026/05/29/misoginia-lei-machist
a-lideranca-feminina-mulheres-em-espacos-de-poder. Acessoe m 16
jun. 2026. Adaptado.)
De acordo com o texto, "Essa misoginia raramente se
apresenta apenas por meio de agressões explícitas. Em
muitos casos, ela opera de forma simbólica e cotidiana:
no tom condescendente, na ironia, na tentativa de
transformar mulheres assertivas em figuras 'emocionais',
'agressivas' ou 'difíceis'. Quando o ataque vem travestido
de humor ou informalidade, a reação feminina costuma
ser percebida como exagerada". Tendo isso em
consideração e a leitura do texto como um todo, e
mobilizando seus conhecimentos prévios, analise as
sentenças e registre V, para verdadeiras, e F, para
falsas:
(__)Quando se discute a misoginia, situações como a descrita na citação não costumam ser vistas como violência porque não há ameaças explícitas ou agressões físicas. Entretanto, esses comentários, supostamente banais, movimentam a forma como a mulher é vista pela sociedade, isto é, ela deixa de ser considerada uma interlocutora legítima para se tornar alguém passível, por exemplo, de ridicularização.
(__)As redes sociais virtuais, por exemplo, ampliaram as possibilidades de gestos misóginos, uma vez que são espaços usados para ataques coordenados e campanhas de intimidação. Porém, isso se limita às mulheres públicas, que são mais visíveis e suscetíveis à misoginia, não atingindo mulheres comuns.
(__)A misoginia se materializa tanto naqueles episódios considerados tipicamente violentos quanto em gestos cotidianos entendidos como corriqueiros, pequenos, muitas vezes resumidos a "foi só uma brincadeira". Esses gestos reproduzem o discurso misógino, reduzindo e deslegitimando a autoridade da fala feminina em espaços públicos, profissionais e intelectuais.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
(__)Quando se discute a misoginia, situações como a descrita na citação não costumam ser vistas como violência porque não há ameaças explícitas ou agressões físicas. Entretanto, esses comentários, supostamente banais, movimentam a forma como a mulher é vista pela sociedade, isto é, ela deixa de ser considerada uma interlocutora legítima para se tornar alguém passível, por exemplo, de ridicularização.
(__)As redes sociais virtuais, por exemplo, ampliaram as possibilidades de gestos misóginos, uma vez que são espaços usados para ataques coordenados e campanhas de intimidação. Porém, isso se limita às mulheres públicas, que são mais visíveis e suscetíveis à misoginia, não atingindo mulheres comuns.
(__)A misoginia se materializa tanto naqueles episódios considerados tipicamente violentos quanto em gestos cotidianos entendidos como corriqueiros, pequenos, muitas vezes resumidos a "foi só uma brincadeira". Esses gestos reproduzem o discurso misógino, reduzindo e deslegitimando a autoridade da fala feminina em espaços públicos, profissionais e intelectuais.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: