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Q2300726 Português

Da calma e do silêncio


Quando eu morder

a palavra,

por favor,

não me apressem,

quero mascar,

rasgar entre os dentes,

a pele, os ossos, o tutano

do verbo,

para assim versejar

o âmago das coisas.


Quando meu olhar

se perder no nada,

por favor,

não me despertem,

quero reter,

no adentro da íris,

a menor sombra,

do ínfimo movimento.


Quando meus pés

abrandarem na marcha,

por favor,

não me forcem.

Caminhar para quê?

Deixem-me quedar,

deixem-me quieta,

na aparente inércia.

Nem todo viandante

anda estradas,

há mundos submersos,

que só o silêncio

da poesia penetra.


(Fonte: Conceição Evaristo — adaptado.)

De acordo com o texto, assinalar a alternativa CORRETA:
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Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto — o foco é identificar o sentido das ideias do poema e como os pedidos da autora se conectam à experiência poética e à introspecção.

Justificativa da alternativa correta (B):

No poema, a voz poética pede para ser deixada quieta, na aparente inércia, com o propósito de mergulhar em “mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”. A alternativa B respeita literalmente o conteúdo, pois traduz o desejo de recolhimento, de pausa e introspecção para acessar dimensões internas, possíveis apenas pelo silêncio e profundidade da poesia.

Conforme orienta Evanildo Bechara em “Moderna Gramática Portuguesa”, a interpretação textual exige atenção às palavras-chaves e à relação explícita com as intenções do eu-lírico.

Por que as demais estão incorretas?

A) Afirma que a autora pede para ser despertada. O poema diz exatamente o contrário: “não me despertem”, pois o desejo é permanecer contemplando, em silêncio, a menor sombra do movimento.

C) Diz que a autora evita versejar o âmago das coisas. No texto, porém, mastigar a palavra (refletir, aprofundar) é justamente o caminho para alcançar o âmago das coisas e, assim, versejar com profundidade. Inverte, portanto, o sentido do texto.

D) Afirma que abrandar o passo impede a produção dos versos. O poema mostra que, ao parar, a autora deseja entrar em outros “mundos submersos”. Ou seja, a produção poética está vinculada a essa pausa, e não ao movimento.

Elementos essenciais para interpretar corretamente:

  • Prestar atenção às negações e pedidos do eu-lírico (ex: “não me despertem”, “não me apressem”);
  • Analisar os objetivos do silêncio e da quietude — sempre relacionados à poesia e à introspecção;
  • Distinguir as imagens literais das simbólicas (andar/ficar quieto não se refere só ao corpo, mas ao mergulho na poesia).

Dica de prova: Muito cuidado com pegadinhas que trocam afirmações por negações ou invertem relações de causa e consequência, comuns em questões de interpretação, conforme frisado nos manuais de redação e nas gramáticas de referência.

Conclusão: A alternativa B é correta pois está alinhada à coerência textual e ao sentido explícito do poema.
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Quando a autora menciona:

  • "Quando meus pés
  • abrandarem na marcha,
  • por favor,
  • não me forcem.
  • Caminhar para quê?
  • Deixem-me quedar,
  • deixem-me quieta,
  • na aparente inércia.
  • Nem todo viandante
  • anda estradas,
  • há mundos submersos,
  • que só o silêncio
  • da poesia penetra.

Esses versos trazem um sentido de que na caminhada da vida (a autora utiliza o termo "macha" - indicando jornada ou caminhada) há que ter paciência (paradas) para que se faça uma reflexão (uma análise, um estudo, no caso, seria a capacidade poética de análise do vivido ou vivenciamento). Essa ideia se conclui pela construção do fragmento textual "que só o silêncio da poesia penetra".

Portanto, gabarito letra B.

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