Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira
no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas
não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me
lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre
a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é
um locaute, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho
noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da
manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o quê do
governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não
é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando
de um homem modesto que conheci antigamente. Quando
vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a
campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava
gritando:
— Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar
aquilo?
“Então você não é ninguém?”
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo
de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de
uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa
qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando
quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro:
“não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu
ainda sorrindo.
(Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro. Record. 1977.
Adaptado.)
“— Não é ninguém, é o padeiro!” (3º§) A expressão destacada
foi utilizada, nesse trecho, para mostrar que o padeiro se
tratava de uma pessoa:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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