Em sede de arguição de descumprimento de preceito fundamenta...

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Q3616494 Direito Constitucional
Em sede de arguição de descumprimento de preceito fundamental tendo por objeto dispositivos legais atinentes à legítima defesa no âmbito da legislação penal e processual penal, ajuizada em virtude de decisões de Tribunais de Justiça que ora validavam, ora anulavam vereditos de tribunais de júri que absolviam réus processados pela prática de feminicídio com fundamento na tese da legítima defesa da honra, foi concedida medida cautelar pelo Supremo Tribunal Federal para os fins de (i) firmar o entendimento de que a tese da legítima defesa da honra é inconstitucional; (ii) excluir a legítima defesa da honra do âmbito do instituto da legítima defesa previsto nos dispositivos objeto da arguição; e (iii) obstar à defesa, à acusação, à autoridade policial e ao juízo que utilizem, direta ou indiretamente, a tese de legítima defesa da honra (ou qualquer argumento que induza à tese) nas fases pré-processual ou processual penais, bem como durante o julgamento perante o tribunal do júri, sob pena de nulidade do ato e do julgamento.

No caso em tela, em relação aos dispositivos legais impugnados, o Supremo Tribunal Federal procedeu à  
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: Lei nº 9.882/1999, art. 10, caput e § 3º: "Art. 10. Julgada a ação, far-se-á comunicação às autoridades ou órgãos responsáveis pela prática dos atos questionados, fixando-se as condições e o modo de interpretação e aplicação do preceito fundamental." e "§ 3º A decisão terá eficácia contra todos e efeito vinculante relativamente aos demais órgãos do Poder Público." Como o enunciado descreve o afastamento de interpretação inconstitucional dos dispositivos legais, sem supressão do texto, a técnica é interpretação conforme à Constituição, sem redução de texto; em ADPF, a decisão tem eficácia contra todos e efeito vinculante, e, no contexto cautelar descrito, os efeitos temporais são ex nunc.

Tema central: ADPF e interpretação conforme
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por dois motivos jurídicos concretos. Primeiro, não houve declaração parcial de inconstitucionalidade com redução de texto, porque o enunciado não indica supressão de expressão normativa, mas exclusão de um sentido interpretativo. Segundo, em ADPF a decisão não tem eficácia inter partes, pois o art. 10, § 3º, da Lei nº 9.882/1999 prevê eficácia contra todos e efeito vinculante.
B
Errada
Erra a técnica decisória e o efeito temporal. A descrição do caso corresponde a interpretação conforme à Constituição, porque o STF preservou o texto e afastou interpretação incompatível com a Constituição. Além disso, como o enunciado enfatiza a concessão de medida cautelar, o efeito temporal considerado pela base é ex nunc, e não ex tunc.
C
Errada
Acerta a técnica de interpretação conforme, mas erra os efeitos subjetivos e temporais. Em ADPF, a decisão não é inter partes; o art. 10, § 3º, da Lei nº 9.882/1999 estabelece eficácia contra todos e efeito vinculante. Também está incorreto o ex tunc, porque a moldura do enunciado é de medida cautelar, cujo efeito, no caso, é ex nunc.
D
Certa
A alternativa D está correta porque o STF, na ADPF 779, não retirou palavras dos dispositivos penais e processuais penais impugnados; apenas afastou a leitura que admitia a chamada legítima defesa da honra. Isso configura interpretação conforme à Constituição, sem redução de texto. Além disso, a própria Lei nº 9.882/1999 autoriza, em ADPF, a fixação do modo de interpretação e aplicação do preceito fundamental e atribui à decisão eficácia contra todos e efeito vinculante. Como o enunciado trata de medida cautelar que suspende a aplicação da interpretação reputada inconstitucional, o efeito temporal considerado é prospectivo, isto é, ex nunc.
E
Errada
Está errada porque o caso não trata de mutação constitucional. A controvérsia foi resolvida no controle concentrado pela exclusão de interpretação inconstitucional de dispositivos legais infraconstitucionais, o que é interpretação conforme à Constituição. A base também afasta o enquadramento técnico da alternativa quanto aos efeitos temporais, pois o caso foi estruturado como cautelar com eficácia ex nunc.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre afastar um sentido inconstitucional do texto legal e suprimir o próprio texto: aqui houve interpretação conforme à Constituição, não declaração com redução de texto. Também exigiu atenção ao fato de o enunciado falar em medida cautelar, o que conduz ao ex nunc.
Dica para questões semelhantes
  • Se o STF preserva o texto legal e apenas exclui uma leitura incompatível com a Constituição, a técnica é interpretação conforme à Constituição.
  • Em ADPF, confira primeiro os efeitos do art. 10, § 3º, da Lei nº 9.882/1999: eficácia contra todos e efeito vinculante.
  • Se o enunciado destacar que a decisão foi cautelar, examine os efeitos temporais sob a lógica da suspensão prospectiva da interpretação impugnada.

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Comentários

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Interpretação conforme a CF x Mutação constitucional:

o  Interpretação conforme → normas infraconstitucionais

o  Mutação constitucional → normas constitucionais

O STF não revogou ou alterou o texto legal que trata do instituto da legítima defesa (excludente de ilicitude, prevista no Art. 25 do Código Penal e Art. 23 do Código de Processo Penal), mas sim excluiu uma interpretação específica (a "legítima defesa da honra") do seu alcance.

  • Interpretação Conforme à Constituição (ICC) x Declaração Parcial de Inconstitucionalidade com Redução de Texto:
  • A ICC é usada quando uma lei possui múltiplas interpretações, sendo algumas constitucionais e outras inconstitucionais. O Tribunal mantém a lei, mas determina que apenas a(s) interpretação(ões) constitucional(is) seja(m) aplicada(s), sem alterar o texto legal.
  • A Declaração Parcial com Redução de Texto é usada quando uma parte do texto legal é eliminada para que a parte restante seja compatível com a Constituição.
  • No Caso: O STF manteve o texto da legítima defesa, mas estabeleceu que ele não abrange a tese da legítima defesa da honra. Isso significa que o Tribunal buscou a única interpretação compatível com os preceitos fundamentais (dignidade da pessoa humana, igualdade de gênero, vedação à tortura), afastando a interpretação inconstitucional. Esta técnica é denominada Interpretação Conforme à Constituição (ICC), com o efeito prático de excluir a interpretação inconstitucional.

A decisão foi proferida em sede de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), que faz parte do Controle Concentrado de Constitucionalidade.

  • Eficácia e Efeito Vinculante: As decisões definitivas de mérito em ADPF (e ADI) possuem eficácia erga omnes (validade para todos) e efeito vinculante (obrigam os demais órgãos do Judiciário e a Administração Pública), conforme o Art. 102, § 2º, da CF. A medida cautelar, quando deferida pelo Plenário do STF (como foi o caso), tem o mesmo caráter.
  • Efeitos Temporais (Ex Nunc): O STF determinou a obstrução do uso da tese e a nulidade de atos e julgamentos futuros, com o objetivo de proteger a ordem constitucional e os direitos fundamentais. Tipicamente, decisões que determinam a exclusão de uma tese jurídica têm efeitos pro futuro ou ex nunc (a partir de agora), para evitar a retroação de nulidades em um campo tão sensível quanto o Direito Penal. Embora o STF não tenha declarado formalmente ex nunc, a natureza da decisão (obstar o uso da tese e anular atos futuros que a utilizem) é de efeitos prospectivos.

Interpretação conforme a constituição: Há uma norma legal que possui potencial para obter diversos significados (norma polissêmica ou plurissignificativa), dessa maneira exclui uma ou algumas interpretações tidas inconstitucionais, como no caso, a que considerava possível correlacionar a defesa da honra com o instituto da legítima defesa.

Declaração parcial de nulidade com redução de texto: Há uma norma legal e parte do seu texto é retirado, declarado inconstitucional, as vezes uma única palavra, para se garantir a constitucionalidade da norma restante;

Mutação constitucional: É um fenômeno que ocorre com uma norma contida na própria CF/88 em que se altera informalmente o texto constitucional modificando sua interpretação sem modificar efetivamente o texto.

Declaração parcial de nulidade sem redução de texto: Essa técnica é utilizada quando se constata a existência de uma regra legal inconstitucional que, em razão da redação adotada pelo legislador, não tem como ser excluída do texto da lei sem que a supressão acarrete um resultado indesejado. Assim, nem a lei, nem parte dela, é retirada do mundo jurídico (nenhuma palavra é suprimida do texto da lei). Apenas a aplicação da lei – em relação a determinadas pessoas, ou a certos períodos – é tida por inconstitucional.

Gabarito: D

É inconstitucional o uso da tese da “legítima defesa da honra” em crimes de feminicídio ou de agressão contra mulheres, seja no curso do processo penal (fase pré-processual ou processual), seja no âmbito de julgamento no Tribunal do Júri. Essa tese é inconstitucional por contrariar os princípios da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CF/88), da proteção à vida (art. 5º, “caput”, CF/88) e da igualdade de gênero (art. 5º, I, CF/88).

STF. Plenário ADPF 779/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 1º/8/2023 (Info 1105).

(i) firmar o entendimento de que a tese da legítima defesa da honra é inconstitucional, por contrariar os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF), da proteção à vida e da igualdade de gênero (art. 5º, caput, da CF);

(ii) conferir interpretação conforme à Constituição aos arts. 23, inciso II, e 25, caput e parágrafo único, do Código Penal e ao art. 65 do Código de Processo Penal, de modo a excluir a legítima defesa da honra do âmbito do instituto da legítima defesa e, por consequência,

(iii) obstar à defesa, à acusação, à autoridade policial e ao juízo que utilizem, direta ou indiretamente, a tese de legítima defesa da honra (ou qualquer argumento que induza à tese) nas fases pré-processual ou processual penais, bem como durante o julgamento perante o tribunal do júri, sob pena de nulidade do ato e do julgamento;

(iv) diante da impossibilidade de o acusado beneficiar-se da própria torpeza, fica vedado o reconhecimento da nulidade, na hipótese de a defesa ter-se utilizado da tese com esta finalidade. Por fim, julgou procedente também o pedido sucessivo apresentado pelo requerente, de forma a conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 483, III, § 2º, do Código de Processo Penal, para entender que não fere a soberania dos vereditos do Tribunal do Júri o provimento de apelação que anule a absolvição fundada em quesito genérico, quando, de algum modo, possa implicar a repristinação da odiosa tese da legítima defesa da honra.

STF. Plenário ADPF 779/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 1º/8/2023 (Info 1105).

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