No texto, a autora fala sentir inveja de uma freira. Por quê?

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Q3294180 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.

É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.

(Pertencer, Clarice Lispector)
No texto, a autora fala sentir inveja de uma freira. Por quê?
Alternativas

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Gabarito: A) Pelo sentimento de pertença da freira.

Tema central: Interpretação de Texto — identificação de sentimentos e intenções do autor, análise semântica do discurso e compreensão do sentido das ideias apresentadas.

Justificativa da alternativa correta:

No texto, Clarice Lispector revela um desejo existencial de pertencer a algo ou a alguém. O trecho-chave é:

“A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.”

Isso demonstra de modo explícito que a inveja da autora está ligada ao fato de a freira ter um pertencimento claro e definido. A interpretação exige identificar o sentido semântico de “pertence” ligado ao título e ao sentimento central do texto. Segundo Bechara (2009), interpretar envolve captar “informações explícitas e implícitas presentes no texto”. O pertencimento da freira é admirado, pois reflete aquilo que falta à autora: um sentido de integração e destino.

Análise das alternativas incorretas:

B) Pela fé da freira.Incorreta. A fé (crença religiosa) não é mencionada como motivo de inveja, e sim o pertencimento. O texto não valoriza o aspecto religioso, mas o aspecto afetivo-existencial de “pertencer”.

C) Pelo estilo de vida da freira.Incorreta. A autora não se refere ao cotidiano ou aos hábitos da freira, mas sim ao fato de ela ter a quem/devotar-se; é o ato de pertencer, não o modo de vida, que gera inveja.

D) Pela liberdade da freira.Incorreta. O texto não aborda liberdade como valor ou desejo. Inclusive, a freira é admirada justamente por pertencer e não ser livre no sentido autônomo – o foco é o oposto.

Dica de interpretação de textos:

Para esse tipo de questão, busque no texto palavras-chave relacionadas diretamente à pergunta. Atenção a termos como “pertence”, “sentimento”, “vontade”, que apontam para o foco emocional do enunciado. Evite respostas baseadas em generalizações ou ideias não mencionadas claramente.

Segundo Cunha & Cintra (2013), o sucesso interpretativo depende da habilidade de diferenciar sentimento central do texto de detalhes secundários. Pratique ler o texto procurando sempre o “fio condutor” da ideia, para não se perder em distrações.

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A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

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