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Q3992258 Português

Maneira de amar


O jardineiro conversava com as flores e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.
    Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.
    O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
    Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não”, respondeu. “Estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava.”


(Armazém de Textos. Em: 08/08/2019. Carlos Drummond de Andrade. Adaptado.)

Considerando as afirmativas transcritas do texto, assinale a que indica ação verbal que expressa ideia de continuidade.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: "O jardineiro conversava com as flores [...]" está no pretérito imperfeito do indicativo, tempo que pode indicar fato passado não concluído em sua duração, ação habitual, reiterada ou contínua; por isso, é a forma verbal que melhor atende ao comando da questão.

Tema central: valor aspectual verbal
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A é a correta porque "conversava" é a forma verbal que, no trecho, marca a ação em curso no passado. O pretérito imperfeito do indicativo é o tempo que melhor corresponde à ideia de continuidade pedida pelo enunciado.
B
Errada
O trecho traz "Estou" e "posso" no presente do indicativo. "Estou triste" expressa estado atual, e "não posso tratá-lo mal" expressa impossibilidade no presente. Isso não corresponde à marca verbal típica de continuidade/habitualidade no passado exigida pela questão.
C
Errada
"Mandou" está no pretérito perfeito do indicativo e indica ação pontual e concluída. A demissão do jardineiro aparece como evento único, delimitado, sem valor de duração ou repetição.
D
Errada
O trecho produz sentido de constância por meio de "Nunca [...] deixou de regar", mas a forma verbal principal é "deixou", no pretérito perfeito. A noção de não interrupção decorre da locução verbal combinada com o advérbio "Nunca", e não de uma forma verbal que marque continuidade de modo mais direto, como ocorre em "conversava".
Pegadinha da questão
A confusão real está em tomar a ideia geral de constância de D como se ela valesse mais do que a marca aspectual do verbo. A banca cobra a forma verbal que expressa continuidade de modo direto, e isso ocorre no pretérito imperfeito de "conversava", não no pretérito perfeito de "deixou".
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro o tempo verbal da forma destacada antes de decidir pelo sentido.
  • Se a questão pedir continuidade no passado, procure o pretérito imperfeito com valor durativo ou habitual.
  • Diferencie ação contínua marcada pelo verbo de constância sugerida por advérbio ou por locução.
  • Separe estado presente, ação pontual concluída e ação habitual no passado, porque essas noções não se equivalem.

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