O cronista dirige-se diretamente a seu leitor (incluindo-o n...

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Q3992449 Português
Atenção: Considere o início da crônica "Sobre o inferno", de Rubem Braga, para responder à questão.

    
    "O Inferno são os outros" -diz esse desagradável senhor Sartre no final de Huis Clos, e eu respondo: "eu que o diga!" Hoje estou com pendor para confissões; vontade de abrir meu peito em praça pública; quem for pessoa discreta, e se aborrecer com derrames desses, tenha a bondade de não continuar a ler isto.

    Conheci um homem que estava tão apaixonado, tão apaixonado por uma mulher (acho que ela não gostava dele), quе ита vez estávamos nós dois num bar e no meio da conversa ele disse fremente:

    - Isso é o maior verso da língua portuguesa!

    Fiquei pateta, pois não escutara verso nenhum. Ele então pediu silêncio, e que ouvisse. Havia conversas na mesa ao lado, ruídos vários lá dentro, autos e ônibus que passavam, um bonde na outra rua, um violoncelo tocando num rádio qualquer, e lá no finzinho disso, longe, longe, um outro rádio com o samba que mal se podia ouvir e só era reconhecível pelos fragmentos de música que nos chegavam. O maior verso da língua portuguesa estava na letra daquele samba e avisava que "Emília, Emília, Emília, eu não posso mais".


(Adaptado de: BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2017)
O cronista dirige-se diretamente a seu leitor (incluindo-o no próprio texto de sua crônica) no seguinte trecho:
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a presença de interlocução explícita com o leitor, marcada por apelo direto e referência ao ato de leitura em "quem for pessoa discreta, e se aborrecer com derrames desses, tenha a bondade de não continuar a ler isto."; por isso, o gabarito é D.

Tema central: interlocução com o leitor
Análise das alternativas
A
Errada
O trecho não se dirige ao leitor da crônica, mas narra um episódio passado. Em "Ele então pediu silêncio, e que ouvisse", o pedido pertence à cena do bar e é dirigido ao narrador-personagem, não ao destinatário do texto. O erro está em confundir interlocução intranarrativa com interpelação ao leitor.
B
Errada
Há apenas autorreferência do cronista: ele expõe seu estado de espírito e sua disposição para confissões. O uso da primeira pessoa não basta para incluir o leitor como interlocutor. Falta chamamento explícito, instrução ou apelo ao destinatário.
C
Errada
O trecho apresenta uma citação de Sartre e a resposta do próprio cronista a essa formulação. Isso configura comentário autoral e diálogo intertextual, não convocação do leitor. A presença de discurso direto não transforma o leitor em interlocutor da passagem.
D
Certa
A alternativa D está correta porque é a única em que o cronista interrompe a exposição para convocar diretamente o destinatário do texto. A formulação "quem for pessoa discreta" projeta um leitor possível, e "tenha a bondade de não continuar a ler isto" tem valor apelativo/injuntivo, com referência metatextual à leitura da própria crônica. Portanto, o leitor não está apenas implícito: ele é incorporado ao enunciado como interlocutor direto.
E
Errada
O trecho situa personagens em uma cena narrada e reproduz a fala de um deles. A exclamação "Isso é o maior verso da língua portuguesa!" é dirigida ao narrador que está no bar com esse homem, não ao leitor da crônica. O erro está em tomar fala entre personagens como se fosse fala ao destinatário do texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre proximidade do narrador e interpelação real ao leitor: primeira pessoa e discurso direto podem parecer diálogo com quem lê, mas só há inclusão efetiva do leitor quando o texto o convoca explicitamente e menciona o próprio ato de leitura.
Dica para questões semelhantes
  • Se a pergunta pedir trecho dirigido ao leitor, procure marcas explícitas de destinatário e não apenas primeira pessoa.
  • Diferencie fala entre personagens, dentro da história, de fala do cronista ao leitor da crônica.
  • Expressões ligadas ao ato de ler o próprio texto são forte sinal de interlocução direta com o leitor.

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Comentários

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Gab. D

O enunciado pede para identificar em qual trecho o cronista dirige-se diretamente ao seu leitor. Isso acontece quando o autor quebra a "quarta parede" da narrativa para estabelecer um diálogo ou dar um comando a quem está lendo.

  • Interlocução Direta: O autor utiliza o modo imperativo ("tenha a bondade") e refere-se ao ato de leitura em curso ("não continuar a ler isto").
  • Público-Alvo: Ele define um perfil de leitor (quem for "pessoa discreta") e dá uma instrução clara a essa pessoa, inserindo-a na dinâmica do texto.

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