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Q2577488 Português

Instrução: Leia o texto a seguir e responda à questão.


 Tô nem aí


    Tô nem aí pro futuro, pra celulite, tô nem aí para queixas datadas, tô nem aí pro telefone mudo, pros surdos, pro preço do combustível, tô nem aí se vai chover amanhã, se o presidente vai viajar, se vai voltar, tô nem aí.

    Pra discussão sobre maioridade penal, violência e barbárie, tô aí. Pro fim desta impunidade que incrementa a bestialização das nossas vidas, tô muito aí.

    Tô nem aí pros especuladores da vida alheia, pro Schwarzenegger, pros índices de audiência, tô nem aí se fui convidada ou preterida, quem é a primeira da lista, a segunda, a última, tô nem aí pro novo namorado da Nicole, pras declarações da Luana, quem é gay ou não, com silicone ou sem, se é virgem, se é rodada.

    Pros sentimentos das pessoas, tô aí. Para seus desejos e dúvidas, para seus medos e ousadias, tô aí. Para tudo aquilo que tem consistência, para tudo aquilo que nos comove, para o leve e o denso, para a alegria genuína e para o luto, tô aí, sim.

    Tô nem aí para quantas calorias tem um bife, tô nem aí pra corrida espacial, se há vida após a morte, tô nem aí pro carro do ano, pra musa do próximo verão, pro gol mais bonito do domingo, pra manchete da capa de amanhã.

    Para a grosseria e a falta de delicadeza que corrói as relações, tô aí. Para a brutalidade das pessoas, pro egoísmo, pra falta de educação e civilidade, para todos que possuem uma nuvem preta acima da cabeça e a carregam pra onde quer que vão, tô aí e me dói profundamente.

    Tô nem aí pro que foi decidido na reunião de condomínio, na reunião de cúpula, na reunião de mães, nas reuniões que duram mais de dez minutos, tô nem aí pro salário dos outros, pras novas tendências, pra cotação das minhas ações no mercado externo.

    Tô aí pra alguns, pros meus. Tô aí e estou aqui. Estou atenta. Estou dentro. Estou me vendo. Estou tentando. Estou querendo. Estou a postos só para o mínimo, o máximo. Para o que importa mesmo. Para o mistério. A verdade. O caos. O céu. O inferno. Essas coisas.

    No mais, tô nem aí. Refrão e desabafo.


(MEDEIROS, M. Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas Gêmeas, a 8 de dezembro de 2003. Disponível em: www. pensador.com/textos-de-martha-medeiros. Acesso em: 05/03/2024.)

A respeito da linguagem do texto, assinale a afirmativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de texto e marcas linguísticas de oralidade na escrita. O objetivo é identificar como elementos típicos da fala aparecem em textos escritos com intenção de aproximar o leitor e conferir mais expressividade ou autenticidade.

Justificativa da alternativa correta (D):

A alternativa D está correta ao afirmar que, mesmo apresentando-se na modalidade escrita, o texto exibe marcas linguísticas da oralidade, como abreviações (“tô” em vez de “estou”, “pros” em vez de “para os”) e repetições (“tô nem aí... tô nem aí”). Essa estratégia stylistica é recorrente em textos de cunho pessoal, informal ou de opinião, aproximando o efeito da fala para potencializar o envolvimento do leitor.

Segundo gramáticos como Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova gramática do português contemporâneo), é comum, em produções mais coloquiais, o emprego de processos de simplificação, contrações e repetições como recursos expressivos vinculados à oralidade.

Estratégia para concursos: Identifique expressões reduzidas (“tô”, “pros”), estruturas sintáticas simplificadas e repetições — indícios de marcas orais em textos escritos.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta — Não há erro de concordância verbal no terceiro parágrafo; as construções seguem a lógica da oralidade, mas sem infringir a norma culta essencial para compreensão.

B) Incorreta — Embora a reescrita “Em relação aos sentimentos das pessoas, tô aí.” aproxime do registro formal, o foco da questão são as marcas verbais e sintáticas da oralidade, e não a adequação ao padrão culto.

C) Incorreta — Frases curtas aparecem em desabafos, mas a principal característica do texto é a oralidade, evidenciada por outros elementos além da extensão das frases.

Análise final e dica de prova:

Atenção a pegadinhas! Muitas questões buscam saber se o candidato enxerga a intenção do autor de trazer o leitor “para perto”, valorizando a espontaneidade e o ritmo da fala. Procure por coloquialismos, contrações e estruturas “faladas” em textos opinativos, crônicas e crônicas-coluna, como no texto proposto.

Lembre: Identificar marcas da oralidade é importante não só para responder questões, mas para redigir de modo mais adequado segundo o contexto comunicativo (formal/informal), seguindo o recomendado nos manuais de redação do serviço público.

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Comentários

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a) No terceiro parágrafo, há exemplo de incorreção gramatical quanto à concordância verbal.

O erro é na escrita.

b) A reescrita da frase Pros sentimentos das pessoas, tô aí., no registro formal da língua escrita, fica Em relação aos sentimentos das pessoas, tô aí.

Não é registro formal (padrão da norma culta).

A. No terceiro parágrafo, há exemplo de incorreção gramatical quanto à concordância verbal. Se observarmos o terceiro parágrafo (que começa com "Tô nem aí pros especuladores da vida alheia..."), não há problemas de concordância verbal. O que há é a supressão sistemática do verbo "estar" (Omitido antes de "Tô", funcionando como "Eu não estou nem aí"), mas as concordâncias estabelecidas (como em "se fui convidada") estão corretas para a primeira pessoa.

B. A reescrita da frase Pros sentimentos das pessoas, tô aí., no registro formal da língua escrita, fica Em relação aos sentimentos das pessoas, tô aí. Como vimos antes, a reescrita falha na transposição para a norma culta ao manter o "tô". Para ser um registro formal, o verbo precisaria assumir sua forma padrão (estou): Em relação aos sentimentos das pessoas, eu estou aí. (ou "eu me importo").

C. A predominância de frases curtas explica-se por se tratar de um desabafo, como a própria autora diz. Esta é a "pegadinha" da banca. Embora a autora termine o texto dizendo "Refrão e desabafo", a estrutura predominante do texto não é de frases curtas. O texto é construído, na verdade, por frases longas estruturadas em extensas enumerações. Basta olhar o primeiro parágrafo: é uma única frase longa, dividida por vírgulas, listando várias coisas para as quais ela "não tá aí". A banca tenta confundir o uso repetitivo do "tô nem aí" (que dá um ritmo picotado) com "frases curtas".

(Correta) D. Apesar de estar na modalidade escrita, o texto apresenta marcas linguísticas de oralidade, como abreviações e repetição de palavras. O texto inteiro é um exercício de transportar a fala cotidiana para o papel. A autora usa abreviações/contrações características da fala ("Tô" em vez de estou, "pro/pra/pros" em vez de para o/para a/para os) e utiliza maciçamente a repetição de palavras ("tô nem aí", "tô aí") para criar um efeito de refrão, simulando o ritmo espontâneo de uma conversa ou, como ela mesma define, um desabafo oral.

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