Valorizar as culturas das infâncias é o
primeiro passo contra a adultização
Agosto foi definido pelo governo federal como o mês da
primeira infância, mas vivemos uma contradição. Enquanto
iniciativas buscam valorizar os primeiros anos de vida, surgem denúncias de hiperexposição e exploração de crianças na internet. O termo que ganhou força é “adultização”,
quando meninas e meninos são pressionados a assumirem
comportamentos e estéticas que não correspondem à sua
idade. Como agir diante disso?
A infância é um período repleto de descobertas, imaginação e aprendizagens que não se resumem a conteúdos, mas
à própria experiência de ser criança. Brincar livre, ouvir e contar histórias, mergulhar em jogos simbólicos e na curiosidade
espontânea fazem parte do que chamamos de culturas das
infâncias. E dizemos no plural por reconhecer a diversidade
racial, social, de gênero, cultural e econômica das crianças
em diferentes territórios e tempos históricos.
É por meio dessas experiências da infância que a criança constrói sua identidade, desenvolve habilidades socioemocionais e aprende a se relacionar com o mundo ao seu
redor. Quando respeitamos e incentivamos essa cultura,
contribuímos para uma formação mais saudável e integral,
na qual há espaço para a ludicidade, para o erro como parte
do processo de aprendizagem e para o tempo próprio de
cada etapa do desenvolvimento.
Por outro lado, a adultização impõe às crianças padrões
estéticos, consumistas e comportamentais próprios do mundo adulto. Dessa forma, a adultização precoce pode apagar
a cultura das infâncias, diminuindo a importância do “aqui e
agora” em prol de um “tornar-se” alguém. Esse é um lugar de
exposição, de desamparo, já que a criança não tem mecanismos cognitivos, afetivos, emocionais, físicos, para lidar com
o que representa essa adultização.
Educar contra a adultização é também um ato político
e de cuidado: envolve garantir os direitos das crianças —
brincar, conviver, aprender, se expressar —, assim como
lutar por uma infância inclusiva, criativa e culturalmente rica.
Valorizá-la é recuar da lógica produtiva e dar espaço ao afeto,
à imaginação, à diversidade e à proteção de sua identidade
própria. É compreender que a criança não é um “miniadulto”,
mas um indivíduo em desenvolvimento que precisa de apoio,
cuidado e espaço para ser criança.