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Ano: 2026
Banca:
Instituto Consulplan
Órgão:
CRA-PR
Prova:
Instituto Consulplan - 2026 - CRA-PR - Analista de Sistemas |
Q4327292
Não definido
Texto associado
A sopa
Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido.
Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
– Aonde é que vai?
O filho abriu a torneira do banheiro:
– Fazer a barba.
– Hora da janta. Vem comer.
Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
– Não quero jantar. Sem fome.
O homem suspendeu a colher:
– Não quer jantar, mas vem para a mesa.
Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.
– Vou dar uma volta.
O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
– Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... Quando me deitar de dia na cama! É para morrer!
A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu.
– Volta cedo, não é?
A voz cansada da mãe, ainda de costas para a mesa. Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho? O homem esvaziou o prato e, descansando a colher, examinou as mãos enrugadas.
– Estas mãos – sacudidas de ligeiro tremor – de um velho!
A mulher apanhou o prato, encheu-o até a beirada. O marido retorceu as pontas úmidas do bigode:
– Você não come?
O filho contornava com o garfo as pétalas na toalha.
– Não estou com vontade.
– Depois o senhor vai para o quarto.
Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a língua. O filho ergueu-se da mesa.
– O senhor fica sentado. Não tem pão nesta casa?
A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agarrava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em seguida partia-o em pedaços, alinhados diante do prato, atacando um por um, entre as colheradas.
– Volta cedo, não é, meu filho?
De novo a mãe, nunca aprenderia.
– Agora não vou mais. O pai dizia a última palavra:
– Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. O filho preguiçoso... até para comer. A mulher – com seus brados retiniam os talheres – tem o estômago delicado.
Não se mexeu, curvada sobre o fogão.
– Olhe para mim quando falo com a senhora!
Ela se virou, a enxugar as mãos na saia.
– Depois de velha, melindrosa. Não pode comer com o rei da casa, que lhe sustenta o filho e lhe dá o dinheiro?
– Sabe por que não sento.
Os dois a olharam com espanto, nunca discutiu as ordens do marido.
– Sei não, dona princesa. Pois me conte.
Ele pedia, a colher no ar:
– Perdeu a coragem, que não fala?
Outra vez a mulher deu-lhe as costas.
– Só nojo de você.
Ele começou a soprar, manchava de borrifos a toalha.
– O quê? O quê? Repita, mulher.
A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-o de lenha:
– Nada espero da vida. Mas não posso te ver comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do marido. Você chupa a colher se fosse tua última sopa. Come o pão como se eu fosse te roubar. Não sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraçado. Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me sente a essa mesa com você e tua sopa.
O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. Os dois ouviram bater a porta da rua.
O marido encarou primeira vez a mulher. Baixou os olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa e lambeu a colher.
(TREVISAN, D. Novelas Nada Exemplares. Rio de Janeiro: Record, 2020. Adaptado)
No 17º§ do conto, o narrador introduz uma reflexão sobre a atitude da mãe diante do conflito familiar: “Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho?”. Sob a ótica da sintaxe, considerando a classificação e a relação de dependência das orações que constituem essa estrutura, assinale a afirmativa correta.