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Q2369227 Português
O homem que espalhou o deserto


          Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jabuticabeiras. Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas. A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram imensas e o menino pequeno. O seu trabalho rendia pouco, apesar do dia a dia, constante, de manhã à noite.

        Mas o menino cresceu, ganhou tesouras maiores. Parecia determinado, à medida que o tempo passava, a acabar com as folhas todas. Dominado por uma estranha impulsão, ele não queria ir à escola, não queria ir ao cinema, não tinha namoradas ou amigos. Apenas tesouras, das mais diversas qualidades e tipos. Dormia com elas no quarto. À noite, com uma pedra de amolar, afiava bem os cortes, preparando-as para as tarefas do dia seguinte. Às vezes, deixava aberta a janela, para que o luar brilhasse nas tesouras polidas.

       A mãe, muito contente, apesar de o filho detestar a escola e ir mal nas letras. Todavia, era um menino comportado, não saía de casa, não andava em más companhias, não se embriagava aos sábados como os outros meninos do quarteirão, não frequentava ruas suspeitas onde mulheres pintadas exageradamente se postavam às janelas, chamando os incautos. Seu único prazer eram as tesouras e o corte das folhas.

        Só que, agora, ele era maior e as árvores começaram a perder. Ele demorou apenas uma semana para limpar a jabuticabeira. Quinze dias para a mangueira menor e vinte e cinco para a maior. Quarenta dias para o abacateiro que era imenso, tinha mais de cinquenta anos. E seis meses depois, quando concluiu, já a jabuticabeira tinha novas folhas e ele precisou recomeçar.

        Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as folhas. Elas se recomporiam sempre. É uma capacidade da natureza, morrer e reviver. Como o seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado.

         Numa terça-feira, bem cedo, que não era de perder tempo, começou a derrubada do abacateiro. Levou dez dias, porque não estava habituado a manejar machados, as mãos calejaram, sangraram. Adquirida a prática, limpou o quintal e descansou aliviado.

         Mas insatisfeito, porque agora passava os dias a olhar aquela desolação, ele saiu de machado em punho, para os arredores da cidade. Onde encontrava árvore, capões, matos atacava, limpava, deixava os montes de lenhas arrumadinhos para quem quisesse se servir. Os donos dos terrenos não se importavam, estavam em vias de vendê-los para fábricas ou imobiliárias e precisavam de tudo limpo mesmo.

          E o homem do machado descobriu que podia ganhar a vida com o seu instrumento. Onde quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado. Não parava. Contratou uma secretária para organizar uma agenda. Depois, auxiliares. Montou uma companhia, construiu edifícios para guardar machados, abrigar seus operários devastadores. Importou tratores e máquinas especializadas do estrangeiro. Mandou assistentes fazerem cursos nos Estados Unidos e Europa. Eles voltaram peritos de primeira linha. E trabalhavam, derrubavam. Foram do sul ao norte, não deixando nada em pé. Onde quer que houvesse uma folha verde, lá estava uma tesoura, um machado, um aparelho eletrônico para arrasar.

       E enquanto ele ficava milionário, o país se transformava num deserto, terra calcinada. E então, o governo, para remediar, mandou buscar em Israel técnicos especializados em tornar férteis as terras do deserto. E os homens mandaram plantar árvores. E enquanto as árvores eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão.


(BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O homem que espalhou o deserto. In: Cadeiras proibidas. 2.ed. Rio de Janeiro, Codecri, 1979. p. 78-80.)
O item a seguir em que o vocábulo sublinhado tem seu antecedente corretamente indicado é, EXCETO: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de texto e coesão referencial — identificação correta do antecedente dos pronomes pessoais em trechos do texto.

Regra essencial: Segundo a norma-padrão, pronomes pessoais (como “ele”, “elas”) devem apresentar clareza quanto ao referente, assegurando a coesão e evitando ambiguidade. A coesão referencial consiste justamente em garantir que cada pronome aponte para seu antecedente explícito no texto. (Cunha & Cintra; Koch)

Comentário da alternativa correta (C):

A alternativa C é a ÚNICA em desacordo com a coesão textual, pois o pronome “elas” na frase “Elas se recomporiam sempre.” NÃO tem como antecedente correto “as árvores”. Todo o trecho refere-se à ação de cortar folhas e à capacidade de elas se regenerarem: “de nada adiantaria podar as folhas. Elas se recomporiam sempre”. Portanto, “elas” retoma “as folhas”, não as árvores, mostrando inadequação referencial nesta alternativa.

Comentário das alternativas incorretas (A, B e D):

A) “Ele voltava e cortava.” — “ele” remete diretamente ao menino, de modo claro e sem ambiguidade.

B) “Dormia com elas no quarto.” — “elas” refere-se a “tesouras”, termo mencionado logo antes e sempre relacionado à obsessão do personagem.

D) “Onde quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado.” — Aqui, o pronome “ele” tem como antecedente “o homem do machado”, resultando em coesão adequada.

Dicas para questões desse tipo:

1. Leia sempre o trecho anterior ao pronome: geralmente, o antecedente está em uma oração ou parágrafo anterior.

2. Busque o substantivo mais próximo e coerente com o contexto semântico das ações descritas.

3. Cuidado com construções ambíguas: às vezes, o último substantivo citado não é, de fato, o antecedente lógico — o contexto é fundamental.

Conforme Celso Cunha & Lindley Cintra, uma coesão textual eficiente elimina dúvidas quanto ao referente dos pronomes, garantindo clareza e boa compreensão do texto.

Gabarito: C

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Comentários

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 "Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as folhas. Elas (AS FOLHAS) se recomporiam sempre."

GAB: C

“Ele voltava e cortava.” (1º§) – o menino. 

Aqui não poderia ser o filhinho, não?

as folhas se recomporiam sempre.

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