No quarto parágrafo, a escolha do tempo verbal dominante pro...

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Q2465997 Português
A questão refere-se ao texto a seguir.

A fisiologia do corpo desempregado

Veny Santos

           Ao receber a notícia, colocou as mãos diante dos olhos, não tão próximas ao rosto, e esperou. Aos poucos, cobriu-se o corpo com a dormência da aurora no amanhecer de um dia já perdido. Estavam ambas petrificadas. As mãos, por anos encarregadas de trabalhar, agora eram observadas como se função não mais tivessem. Perderam o emprego. Anatomicamente as mesmas. Fisiologicamente desconhecidas.
         Quando passa muitos dos anos vividos em um trabalho, dedicando-se não apenas à sobrevivência mas também ao ofício que confere sentido às habilidades adquiridas, o corpo pode se confundir com o cargo. O conjunto de partes que monta o ser passa a estabelecer uma relação funcionalista com o cotidiano e seus vínculos empregatícios. Opera-se uma máquina, uma tecnologia, uma série de processos administrativos, um comércio, no intuito de sentir que ainda se está funcionando. Que ainda há alguma função. Que presta para algo —ou alguém— o funcionário.
         O desemprego vem, então, como a descaracterização do personagem trabalhador, aquele necessário de ser encenado todos os dias para que seja possível cultivar uma real vida fora da esfera profissional. Tal ruptura, para além das suas supostas bases técnicas e pragmáticas, como justificativas clichês para se dispensar alguém sem justa causa, quebra também o corpo, não só em partes, mas nas funções que cada uma delas parece ter para existir. Quebra-o por inteiro e o faz desconhecer a si enquanto capaz de manter o sustento no dia seguinte. Um corpo desconhecido. É o fim da sensação de utilidade e a causa de seu medo quase paralisante. Uma justa causa para tamanho temor, compreendemos.
        Começou ele pelas mãos, mas a tudo sentiu tremer. Os olhos tentavam enxergar saídas de emergência para a situação financeira. A boca seca não dizia, os ouvidos zuniam e voz nenhuma vinha para lhe confortar —o que ecoava em sua mente era a pergunta repetitiva, mania anunciada na mesma velocidade que o desligamento: "Como vou contar para a família e pagar as contas?". Peito mais subia que descia, e no descompasso do respiro, nenhum alívio. Crise disso, crise daquilo, ansiedade e angústia já não mais se distinguiam uma da outra. Acharam um ponto de convergência: a paúra. As pernas inquietas a balançar não sabiam para onde ir, por onde começar a procurar outro carreiro para recolocar o corpo nas trilhas de suas funções que garantiam o sustento.
       De que servia a língua agora? E os argumentos? De que servia sua realidade concreta, uma vez que era no abismo da abstração onde se findava o mais sólido dos fatos: sem dinheiro não se dura e duro não se vive. Ainda assim, é com a carne do pescoço rija que ele mira o nada e desenha no horizonte a imaginária linha reta que ilude ao promoter alguma direção e estabilidade. O zunido diminui. Passa a ganhar um ritmo lento, primeiro opressivo, depois desolador, triste. A cor escurecida de sua pele parece ser a única a não ter perdido a função junto com a demissão. Ao encobri-lo, cantou um blues.
       A depender das posições no tabuleiro do serviço, há quem jogue —por prazer ou horror— com os peões para não comprometer reis e rainhas. Pelas bordas, esmagam feito as torres, condenam como os bispos ou simplesmente saltam de oportunidade em oportunidade montados nos alazões a pisotear o que lhes obriga a fazer curva. Os peões, como se sabe, não jogam, de fato. Os peões são jogados.
        Em 2023, o Instituto Cactus lançou o iCASM (Índice Instituto Cactus — Atlas de Saúde Mental) no intuito de levantar dados sobre os diferentes aspectos da vida social que impactam na psique da população brasileira. Destacou-se um alerta sobre a condição das pessoas desempregadas. Estão elas entre as mais abaladas psicologicamente e, com isso, pode-se supor, suscetíveis às psicopatologias que crescem a cada ano no país.
      As mãos, ainda diante dos olhos, seguram-se. No toque, parecem lembrar para que servem. Recobram a função. As mãos servem para carregar o recomeço.

Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/>. Acesso em: 08 mar. 2024

No quarto parágrafo, a escolha do tempo verbal dominante produz um efeito de


Alternativas

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Assunto central: A questão exige interpretação do uso dos tempos verbais e conhecimento sobre efeitos de sentido produzidos pelo presente do indicativo na narrativa — conteúdo de Morfologia – Verbos e Semântica.

Justificativa da alternativa correta (B): O quarto parágrafo evidencia o emprego do presente do indicativo para descrever, em sequência, ações que acontecem “ao mesmo tempo”. Veja o exemplo:

“Os olhos tentam enxergar... A boca seca não diz, os ouvidos zunem e voz nenhuma vem para lhe confortar...”

O uso do presente dá a ideia de simultaneidade, isto é, as ações ocorrem paralelamente, intensificando o estado emocional e físico descrito.

Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra e Evanildo Bechara, o presente do indicativo em textos narrativos pode: “relatar acontecimentos que ocorrem juntos, facilitando ao leitor a percepção de que tudo sucede ao mesmo tempo, no instante presente”. Isso está em consonância com as recomendações das principais gramáticas normativas.

Análise das alternativas incorretas:

A) Vivacidade aos fatos narrados: Embora o presente do indicativo possa, sim, conferir vivacidade, o efeito predominante, conforme o trecho dado, é a simultaneidade das ações. A alternativa não foca no critério principal pedido pela questão.

C) Sucessividade entre acontecimentos: Ocorre quando há sequência temporal clara (ação após ação), típica do pretérito perfeito. No texto, as ações se sobrepõem, negando a ordem sucessiva.

D) Probabilidade de ocorrência: Quando se pretende expressar probabilidade, geralmente utilizam-se verbos no futuro do subjuntivo ou modo condicional, o que não é o caso neste parágrafo.

Estratégia em provas: Sempre observe o tempo verbal predominante e o efeito de sentido no contexto narrativo. O presente pode criar sensação de “ação em andamento” e simultaneidade, diferentemente do pretérito, que tende à sequência de ações.

Resumo: O presente do indicativo no quarto parágrafo produz o efeito de apresentar várias ações acontecendo juntas — simultaneidade. Por isso, alternativa B é a correta.

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Comentários

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Vamos analisar o quarto parágrafo para identificar o efeito produzido pela escolha do tempo verbal dominante.

O tempo verbal predominante no parágrafo é o pretérito imperfeito ("tentavam", "dizia", "zuniam", "vinha", "ecoava", "subia", "descia", "distinguiam", "sabiam", "garantiam"). O uso do pretérito imperfeito indica ações contínuas ou simultâneas no passado.

Ao utilizar esse tempo verbal, o autor cria um efeito de simultaneidade entre os acontecimentos descritos. As reações físicas e emocionais do personagem são retratadas como ocorrendo ao mesmo tempo, intensificando a sensação de angústia e desespero diante da notícia do desemprego.

Portanto, a alternativa correta é a B: simultaneidade entre os acontecimentos.

Não tem lógica alguma. Por que não vivacidade ? Vivacidade e simultaneidade tem a mesma ideia.

  LETRA B - Com base no caso em tela, vê-se que tudo ocorre ao mesmo tempo, logo, letra B.

  • Letra A – vivacidade aos fatos narrados
  • O tempo verbal que dá vivacidade é o presente do indicativo usado em narrações históricas (presente histórico), quando o narrador traz o leitor para dentro da cena. Aqui, não é o caso: o autor usa o imperfeito, que dá fluidez e duração, não vivacidade imediata.
  • Letra C – sucessividade entre os acontecimentos
  • Se fosse sucessividade, o narrador usaria o pretérito perfeito (ele começou, depois sentiu, depois disse, depois foi). O perfeito mostra sequência concluída de fatos, mas aqui os verbos estão no imperfeito, que indica paralelismo, não sequência.
  • Letra D – probabilidade de ocorrência aos fatos narrados
  • Probabilidade aparece no modo subjuntivo (talvez ocorra, se viesse, quando chegar). O trecho não usa subjuntivo, mas sim indicativo no imperfeito, que descreve como os acontecimentos estavam acontecendo, sem hipótese ou dúvida.

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