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Não somos capazes de formar uma ideia correta do sabor de u...

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Q4196951 Filosofia
Não somos capazes de formar uma ideia correta do sabor de um abacaxi sem tê-lo realmente provado. Existe, entretanto, um fenômeno que parece contradizer isso, e que poderia provar que não é absolutamente impossível que as ideias antecedam suas impressões correspondentes. Suponhamos, assim, uma pessoa que tenha gozado de sua visão durante trinta anos e tenha-se familiarizado perfeitamente com todos os tipos de cores, exceto com uma única tonalidade de azul. Pergunto, então, se lhe é possível suprir tal deficiência por meio de sua própria imaginação. Acredito que poucos discordarão de que isso seja possível. Esse exemplo pode servir como prova de que as ideias simples nem sempre derivam das impressões correspondentes – embora o caso seja tão particular e singular que quase não é digno de nossa atenção, não merecendo que, apenas por sua causa, alteremos nossa máxima geral.
(David Hume. Tratado da natureza humana, 2009. Adaptado)

No trecho, Hume introduz o célebre “tom de azul ausente”. À luz desse recurso, conclui-se que, para o filósofo, o episódio serve para
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O trecho decisivo é a ressalva final de Hume: o caso do "tom de azul ausente" mostra uma exceção em que uma ideia simples parece surgir sem a impressão correspondente, mas isso é descrito como algo "particular e singular" que não autoriza alterar a "máxima geral". Essa combinação de exceção pontual e manutenção da regra leva ao gabarito D.

Tema central: tese da cópia
Análise das alternativas
A
Errada
Errada porque o texto não troca a dependência empírica por uma justificação a priori. Ao contrário, mantém a máxima geral empirista e apresenta o caso apenas como exceção singular.
B
Errada
Errada porque o episódio não sustenta conteúdos originários independentes da experiência sensível. O exemplo pressupõe familiaridade prévia quase completa com as cores e é explicitamente insuficiente para alterar a regra geral.
C
Errada
Errada porque Hume não iguala ideias e impressões no método nem elimina a anterioridade destas últimas. A passagem afirma apenas uma exceção rara, preservando a primazia da tese geral.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque expressa exatamente o estatuto que Hume dá ao "tom de azul ausente": uma anomalia limitada diante da tese geral de que as ideias simples dependem de impressões correspondentes. O próprio texto preserva a primazia metodológica das impressões ao afirmar que o caso é particular e não merece, por si só, alteração da máxima geral. Portanto, o episódio no máximo exige um ajuste fino na formulação da tese da cópia, não sua rejeição.
E
Errada
Errada porque a imaginação, no texto, apenas supre uma lacuna específica; ela não dispensa a experiência como fundamento do conteúdo mental. O próprio exemplo depende de experiência sensível prévia e não revoga o princípio geral.
Pegadinha da questão
A confusão real era tomar a frase "ideias simples nem sempre derivam" como refutação global da tese da cópia, ignorando a ressalva final de Hume de que o caso é singular e não altera a máxima geral.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o autor admite uma exceção e logo declara que ela não muda a regra geral, a interpretação correta preserva o princípio central.
  • Em questões sobre Hume, não transforme a atuação da imaginação em independência plena da experiência sem apoio textual expresso.
  • Leia a passagem completa: em autores conceituais, a ressalva final pode limitar decisivamente o alcance de uma afirmação anterior.

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Comentários

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A alternativa correta é a D.

Hume defende a chamada tese da cópia: normalmente, nossas ideias são cópias de impressões sensíveis anteriores. Por exemplo, só conseguimos formar uma ideia adequada do sabor do abacaxi depois de prová-lo.

O “tom de azul ausente” é uma pequena exceção. Uma pessoa que conhecesse quase todos os tons de azul, menos um, poderia imaginar o tom que falta ao observar a sequência das demais tonalidades. Nesse caso, ela formaria uma ideia simples sem ter recebido exatamente a impressão correspondente.

Porém, Hume considera esse caso muito específico. Ele não abandona sua tese geral de que as ideias derivam da experiência. O exemplo apenas revela uma anomalia, isto é, uma exceção pontual que exige alguma flexibilização da tese da cópia, mas não a destrói.

Por isso:

As demais estão erradas porque afirmam que Hume teria dispensado ou substituído a experiência. Ele continua sendo empirista: a pessoa só consegue imaginar o tom ausente porque já teve experiência com outros tons de azul próximos.

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