Considerando-se o contexto, as expressões

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Q2720520 Português

Da ação dos justos

Em recente entrevista na TV, uma conhecida e combativa juíza brasileira citou esta frase de Disraeli*: “É preciso que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas”. Para a juíza, o sentido da frase é atualíssimo: diz respeito à freqüente omissão das pessoas justas e honestas diante das manifestações de violência e de corrupção que se multiplicam em nossos dias e que, felizmente, têm chegado ao conhecimento público e vêm sendo investigadas e punidas. A frase propõe uma ética atuante, cujos valores se materializem em reação efetiva, em gestos de repúdio e medidas de combate à barbárie moral. Em outras palavras: que a desesperança e o silêncio não tomem conta daqueles que pautam sua vida por princípios de dignidade.
Como não concordar com a oportunidade da frase? Normalmente, a indignação se reduz a conversas privadas, a comentários pessoais, não indo além de um mero discurso ético. Se não transpõe o limite da queixa, a indignação é impotente, e seu efeito é nenhum; mas se ela se converte em gesto público, objetivamente dirigido contra a arrogância acanalhada, alcança a dimensão da prática social e política, e gera conseqüências
A frase lembra-nos que não costuma haver qualquer hesitação entre aqueles que se decidem pela desonestidade e pelo egoísmo. Seus atos revelam iniciativa e astúcia, facilitadas pela total ausência de compromisso com o interesse público. Realmente, a falta de escrúpulo aplaina o caminho de quem não confronta o justo e o injusto; por outro lado, muitas vezes faltam coragem e iniciativa aos homens que conhecem e mantêm viva a diferença entre um e outro. Pois que estes a deixem clara, e não abram mão de reagir contra quem a ignore.
A inação dos justos é tudo o que os contraventores e criminosos precisam para continuar operando. A cada vez que se propagam frases como “Os políticos são todos iguais”, “Brasileiro é assim mesmo” ou “Este país não tem jeito”, promove-se a resignação diante dos descalabros. Quem vê a barbárie como uma fatalidade torna-se, ainda que não o queira, seu cúmplice silencioso.


* Benjamin Disraeli, escritor e político britânico do século XIX.


(Aristides Villamar) 

Considerando-se o contexto, as expressões
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-textual: identificar o referente e o valor de cada expressão no contexto. O trecho "diz respeito à freqüente omissão das pessoas justas e honestas (...) A frase propõe uma ética atuante" mostra que ambas se referem ao mesmo grupo, os homens de bem, mas nomeiam condutas opostas; por isso, a alternativa A é a correta.

Tema central: referência e valor semântico
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A acerta porque o texto explicita que a "freqüente omissão" é das "pessoas justas e honestas" e, em seguida, propõe para esse mesmo grupo uma "ética atuante", definida como reação efetiva contra a barbárie moral. Assim, as duas expressões não nomeiam grupos diferentes, mas duas condutas distintas atribuídas aos homens de bem: uma é reprovada, a outra é defendida.
B
Errada
"barbárie moral" e "princípios de dignidade" não são análogas, porque pertencem a polos valorativos opostos: a primeira exprime o que o texto condena; a segunda, o que o texto valoriza. Além disso, o trecho "daqueles que pautam sua vida por princípios de dignidade" mostra que essa expressão se refere aos justos, não aos indignos.
C
Errada
"inação dos justos" e "freqüente omissão" não estabelecem oposição entre si; ao contrário, aproximam-se semanticamente, pois ambas designam a passividade dos justos. O próprio texto confirma isso ao afirmar: "A inação dos justos é tudo o que os contraventores e criminosos precisam para continuar operando." A oposição central é entre essa passividade e a atuação dos desonestos, não entre as duas expressões citadas na alternativa.
D
Errada
A relação indicada está invertida. No trecho "mas se ela se converte em gesto público, objetivamente dirigido contra a arrogância acanalhada, alcança a dimensão da prática social e política", "dimensão da prática social e política" é consequência da indignação convertida em gesto público, enquanto "arrogância acanalhada" é o alvo contra o qual esse gesto se dirige. Portanto, não há entre as duas expressões a relação de causa e efeito afirmada na alternativa.
E
Errada
"iniciativa e astúcia" realmente qualificam os desonestos, como mostra o trecho "Seus atos revelam iniciativa e astúcia". Porém, "cúmplice silencioso" não se refere aos contraventores e criminosos; refere-se a quem se resigna diante da barbárie: "Quem vê a barbárie como uma fatalidade torna-se, ainda que não o queira, seu cúmplice silencioso." A alternativa erra ao atribuir o mesmo referente às duas expressões.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre expressões do mesmo campo temático, levando o candidato a tratá-las como equivalentes ou a deslocar seus referentes. O ponto decisivo era verificar, no texto, se cada expressão nomeava o agente da barbárie, o omisso ou o homem de bem chamado à ação.
Dica para questões semelhantes
  • Localize no próprio texto quem é o referente explícito de cada expressão nominal antes de comparar alternativas.
  • Verifique se as expressões estão em relação de oposição, aproximação ou consequência; não conclua isso só pela vizinhança no período.
  • Separe o agente do mal daquele que se omite e, por isso, torna-se cúmplice: o texto pode distinguir esses papéis.
  • Quando a questão trouxer pares de expressões, confira se elas têm o mesmo valor axiológico ou se pertencem a polos contrários.

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