Do ponto de vista do narrador, a pintura da casa do vizinho ...
Leia o texto, para responder à questão.
Cor-de-rosa
O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações, que aqui são transmitidas ao leitor, nosso companheiro.
O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.
A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez, até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa.
(Carlos Drummond de Andrade, Fala, amendoeira. Adaptado)
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Comentário – Interpretação de Texto
Esta questão avalia interpretação de texto com foco em coerência e semântica. O objetivo é identificar, no texto, o significado simbólico do ato de pintar a casa de cor-de-rosa, segundo a visão do narrador.
Por que a alternativa B está correta?
A opção B diz que a pintura “representa a afirmação do sentimento de preservação de parte fundamental da existência”. Segundo a narrativa, ao pintar a casa, o vizinho demonstra mais do que simples preocupação estética: ele resiste à tendência dominante de demolir para dar lugar ao novo e reafirma o valor da casa como espaço essencial da vida. O texto expressa: “cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística”, indicando a valorização da preservação. O ato está ligado à manutenção de um sentido existencial e coletivo, não só à aparência.
Análise das alternativas incorretas:
- A) “Senso comum” faz referência à resistência à mudança, mas o texto valoriza a ação consciente de preservar, não o apego infundado ao passado.
- C) O texto não julga negativamente o gosto do vizinho. O valor não está na estética da cor, mas no significado do ato.
- D) A alternativa sugere falta de perspectiva. O narrador, porém, não critica a ausência de modernização, mas exalta a preservação contra o que chama de “psicose grupal” da demolição.
- E) O texto não faz menção à imitação de outros estilos; a decisão do vizinho é apresentada como um ato pessoal e culturalmente enraizado.
Dica para provas: Leia atentamente buscando o sentido global do texto. Atenção a trechos que explicitem juízos de valor ou caracterizem simbolismos. Evite respostas centradas apenas em aspectos superficiais ou deslocadas do contexto.
Referência: Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) define coerência como a relação harmônica entre ideias no texto, requisito essencial para a correta interpretação.
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Comentários
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GABARITO: B
Resposta grifada:
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.
Assertiva B
a afirmação do sentimento de preservação de parte fundamental da existência.
Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência
"Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea..." Não fosse Portugal...
= B.
Eu penso na certa e vou na errada kkkkk olha
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