No 17º§ do conto, o narrador introduz uma reflexão sobre a a...

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Q4326518 Português
A sopa

    Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido.
    Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
    – Aonde é que vai?
    O filho abriu a torneira do banheiro:
    – Fazer a barba.
    – Hora da janta. Vem comer.
    Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
    – Não quero jantar. Sem fome.
    O homem suspendeu a colher:
    – Não quer jantar, mas vem para a mesa. 
    Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.
    – Vou dar uma volta.
    O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
    – Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... Quando me deitar de dia na cama! É para morrer!
    A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu.
    – Volta cedo, não é?
    A voz cansada da mãe, ainda de costas para a mesa. Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho? O homem esvaziou o prato e, descansando a colher, examinou as mãos enrugadas.
    – Estas mãos – sacudidas de ligeiro tremor – de um velho!
    A mulher apanhou o prato, encheu-o até a beirada. O marido retorceu as pontas úmidas do bigode:
    – Você não come?
    O filho contornava com o garfo as pétalas na toalha.
    – Não estou com vontade.
    – Depois o senhor vai para o quarto.
    Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a língua. O filho ergueu-se da mesa.
    – O senhor fica sentado. Não tem pão nesta casa?
    A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agarrava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em seguida partia-o em pedaços, alinhados diante do prato, atacando um por um, entre as colheradas.
    – Volta cedo, não é, meu filho?
    De novo a mãe, nunca aprenderia.
    – Agora não vou mais. O pai dizia a última palavra:
    – Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. O filho preguiçoso... até para comer. A mulher – com seus brados retiniam os talheres – tem o estômago delicado.
    Não se mexeu, curvada sobre o fogão.
    – Olhe para mim quando falo com a senhora!
    Ela se virou, a enxugar as mãos na saia.
    – Depois de velha, melindrosa. Não pode comer com o rei da casa, que lhe sustenta o filho e lhe dá o dinheiro?
    – Sabe por que não sento.
    Os dois a olharam com espanto, nunca discutiu as ordens do marido.
    – Sei não, dona princesa. Pois me conte.
    Ele pedia, a colher no ar:
    – Perdeu a coragem, que não fala?
    Outra vez a mulher deu-lhe as costas.
– Só nojo de você.
    Ele começou a soprar, manchava de borrifos a toalha.
    – O quê? O quê? Repita, mulher.
    A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-o de lenha:
    – Nada espero da vida. Mas não posso te ver comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do marido. Você chupa a colher se fosse tua última sopa. Come o pão como se eu fosse te roubar. Não sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraçado. Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me sente a essa mesa com você e tua sopa.
    O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. Os dois ouviram bater a porta da rua.
    O marido encarou primeira vez a mulher. Baixou os olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa e lambeu a colher.

(TREVISAN, D. Novelas Nada Exemplares. Rio de Janeiro: Record, 2020. Adaptado) 
No 17º§ do conto, o narrador introduz uma reflexão sobre a atitude da mãe diante do conflito familiar: “Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho?”. Sob a ótica da sintaxe, considerando a classificação e a relação de dependência das orações que constituem essa estrutura, assinale a afirmativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: No trecho “Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho?”, a dependência entre a oração introduzida por “que” e “sabia”, junto ao valor temporal do segmento infinitivo, determina a classificação de subordinação indicada em A.

Tema central: Classificação das orações subordinadas
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A reconhece as duas relações de dependência do período: a oração introduzida pela conjunção integrante “que” expressa o conteúdo não sabido pela mãe e funciona como objeto direto de “sabia”; dentro dela, “ao defendê-lo” modifica temporalmente “perdia”, com sentido equivalente a “quando o defendia”. Essa segunda oração é reduzida de infinitivo e está intercalada na substantiva.
B
Errada
A oração introduzida por “que” completa o verbo “sabia”; não caracteriza o sujeito “ela” nem exerce papel de adjunto adnominal. O “que” é conjunção integrante, pois não retoma antecedente nominal. Além disso, as vírgulas delimitam a temporal intercalada, não comprovam a existência de uma oração adjetiva explicativa.
C
Errada
“Ao defendê-lo” exprime uma circunstância temporal de “perdia”, não um complemento exigido por “sabia”. O “a” de “ao” não é preposição regida por esse verbo. O complemento de “sabia” é a oração substantiva objetiva direta introduzida por “que”, e não um objeto indireto.
D
Errada
Não há autonomia nem igualdade de hierarquia entre as orações: a substantiva completa “sabia”, e a temporal modifica a predicação de “perdia”. Essas funções estabelecem subordinação, não coordenação. Por isso, a classificação “orações coordenadas integrantes” não se aplica à estrutura.
Pegadinha da questão
A intercalação entre vírgulas pode levar à classificação indevida da oração com “que” como adjetiva explicativa. As vírgulas isolam “ao defendê-lo”; o “que” não retoma “ela”, mas introduz o complemento de “sabia”. Outra confusão é tomar o “a” de “ao” como sinal de objeto indireto, ignorando o valor temporal da construção.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a oração com “que” completa um verbo ou caracteriza um antecedente nominal: essa relação distingue a conjunção integrante do pronome relativo.
  • Em construções com “ao” seguido de infinitivo, verifique se há sentido temporal equivalente a “quando” e identifique qual predicação recebe essa circunstância.
  • Não classifique uma oração como adjetiva explicativa apenas pela presença de vírgulas; confira qual segmento elas delimitam.
  • Mapeie as dependências separadamente: uma oração subordinada pode conter outra subordinada intercalada.

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Comentários

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O período apresenta duas orações subordinadas:

  • “que (...) perdia a causa do filho” → oração subordinada substantiva objetiva direta, pois completa o verbo “sabia”:
  • Ela não sabia o quê? → que perdia a causa do filho.
  • “ao defendê-lo” → oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo.
  • Pode ser desenvolvida como: “quando o defendia”.

OBSERVAÇÃO :

AO + INFINITIVO teste substituir por: QUANDO + verbo

Exemplo: Ao chegar em casa, dormiu / Quando chegou em casa, dormiu.

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