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Q2522242 Sociologia
“Eu tenho um problema: meu ascendente é em áries. E eu tenho outro problema: é que eu sou a menina que nasceu sem cor. Pra alguns eu sou ‘preta’, para outras eu sou Preta, para muitos e muitas eu sou parda. Ainda que eu sempre tenha ouvido por aí que parda é cor de papel [...]. Eu sou a menina que nasceu sem cor porque eu nasci num país sem memória, com amnésia, que apaga da história todos os seus símbolos de resistência negra. Porque me chamam por aí de parda, morena, moreninha, mestiça, mulata, café com leite, marrom bombom... Por muito tempo eu fui a menina que nasceu sem cor, mas um dia gritaram-me: ‘NEGRA!’ E eu respondi” (Por Midria, MANOS E MINAS. Eu sou a menina que nasceu sem cor... YouTube, 9 ago. 2018).

O texto acima trata-se de um slam, típica batalha de rimas identificada como um gênero literário de resistência no Brasil. Com base na obra “Por um Feminismo Afro-latino-americano” (2020), de Lélia Gonzalez, analise as assertivas abaixo e assinale V, se verdadeiras, ou F, se falsas.
( ) O racismo cultural leva tanto algozes quanto vítimas a considerarem natural o fato de a mulher, em geral, e a negra, em particular, desempenhar papéis sociais desvalorizados. ( ) Enquanto denegação da “ladino-amefricanidade”, o racismo “à brasileira” se volta justamente contra aqueles que são o testemunho vivo da mesma (os negros), ao mesmo tempo que diz não fazê-lo (“democracia racial” brasileira). ( ) A categoria de “amefricanidade” trata da construção de uma identidade étnica que não é somente de caráter territorial, linguístico e ideológico, mas incorpora todo um processo histórico de intensa dinâmica cultural afrocentrada. ( ) Para Lélia Gonzalez, o carnaval deve ser utilizado como uma importante forma de comercialização da cultura popular brasileira para o mundo e de valorização da mulher negra.

A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: 
Alternativas

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Alternativa correta: A - V – V – V – F

1. Tema central da questão

Esta questão aborda conceitos fundamentais da Sociologia Jurídica relacionados à identidade, racismo cultural e à construção de categorias sociais no Brasil, conforme analisado por Lélia Gonzalez em sua obra “Por um Feminismo Afro-latino-americano”. É necessário compreender como o racismo se manifesta culturalmente, como se estrutura a negação da identidade negra (“democracia racial”), a noção de amefricanidade e o papel dos símbolos culturais, como o carnaval, na construção identitária.

2. Resumo teórico

Lélia Gonzalez foi uma referência no estudo das relações raciais e de gênero no Brasil. Ela destacou que o racismo cultural naturaliza papéis sociais desvalorizados para mulheres, sobretudo negras. Também apontou que o Brasil vive a farsa da “democracia racial”, ao mesmo tempo em que nega a identidade negra e valoriza a “miscigenação”. O conceito de amefricanidade refere-se à identidade negra construída em diálogo com a América Latina, valorizando a diversidade e a resistência cultural afrocentrada. Por fim, Gonzalez criticava a mercantilização do carnaval, demonstrando como a cultura popular é explorada economicamente e muitas vezes esvaziada de sua potência política.

3. Justificativa da alternativa correta

1ª afirmação (V): Gonzalez mostra que o racismo cultural faz com que mulheres negras sejam vistas como naturalmente destinadas a posições subalternas.
2ª afirmação (V): Ela analisa a “democracia racial” como uma forma de negar o racismo existente, disfarçando-o, enquanto marginaliza os próprios negros.
3ª afirmação (V): A autora define “amefricanidade” como uma identidade que agrega elementos históricos, culturais e linguísticos, com centralidade afro.
4ª afirmação (F): Gonzalez não defende o uso do carnaval apenas como mercadoria cultural. Ela critica essa visão e destaca o esvaziamento político e a exploração da imagem da mulher negra.

4. Análise das alternativas incorretas

As demais alternativas apresentam combinações incorretas, pois consideram falsa alguma das três primeiras assertivas — que estão fundamentadas nos conceitos essenciais da obra de Gonzalez — ou tomam a última como verdadeira, o que contraria o pensamento crítico da autora sobre carnaval e comercialização da cultura negra.

5. Estratégia para resolver a questão

Leia atentamente o enunciado, destaque palavras-chave como “amefricanidade”, “democracia racial” e “carnaval”, e lembre-se das posições críticas de Gonzalez. Em questões assim, busque sempre associar conceitos à trajetória intelectual do autor citado, evitando cair em pegadinhas como interpretações simplistas ou distorcidas.

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Comentários

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GABARITO: A.

A afirmativa I é verdadeira. De acordo com a mencionada autora: “O que se opera no Brasil não é apenas uma discriminação efetiva; em termos de representações sociais mentais que se reforçam e se reproduzem de diferentes maneiras, o que se observa é um racismo cultural que leva, tanto algozes como vítimas, a considerarem natural o fato de a mulher em geral e a negra em particular desempenharem papéis sociais desvalorizados em termos de população economicamente ativa” (p. 31).

A afirmativa II é verdadeira. A proposta da autora: “trata-se de um olhar novo e criativo no enfoque da formação histórico-cultural do Brasil que, por razões de ordem geográfica e, sobretudo, da ordem do inconsciente, não vem a ser o que geralmente se afirma: um país cujas formações do inconsciente são exclusivamente europeias, brancas. Ao contrário, ele é uma América Africana cuja latinidade, por inexistente, teve trocado o T pelo D para, aí sim, ter o seu nome assumido com todas as letras: Améfrica Ladina (não é por acaso que a neurose cultural brasileira tem no racismo o seu sintoma por excelência). Nesse contexto, todos os brasileiros (e não apenas os “pretos” e os “pardos” do IBGE) são ladinoamefricanos . (p. 107 – introdução).

A afirmativa III é verdadeira. Conforme explica Lélia Gonzalez: “As implicações políticas e culturais da categoria de amefricanidade (Amefricanity ) são, de fato, democráticas, exatamente, porque o próprio termo nos permite ultrapassar as limitações de caráter territorial, linguístico e ideológico, abrindo novas perspectivas para um entendimento mais profundo dessa parte do mundo onde ela se manifesta: A AMÉRICA como um todo (Sul, Central, Norte e Insular). Desnecessário dizer que a categoria de amefricanidade está intimamente relacionada àquelas de pan-africanismo , négritude , afrocentricity etc”.

A afirmativa IV é falsa. O Carnaval não é elemento importante para comercializar a cultura, consoante pensamento da autora: ‘Vale observar que a expressão popular mencionada anteriormente — “Branca para casar, mulata para fornicar, negra para trabalhar” — tornou-se uma síntese privilegiada de como a mulher negra é vista na sociedade brasileira: como um corpo que trabalha, e que é superexplorado economicamente, ela é uma faxineira, cozinheira, lavadeira etc. que faz o “trabalho pesado” das famílias de que é empregada; como um corpo que gera prazer e que é superexplorado sexualmente, ela é a mulata dos desfiles de Carnaval para turistas, de filmes pornográficos etc., cuja sensualidade é incluída na categoria do “eróticoexótico”.

FONTE: GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatino americano. Disponível em: https://www.mpba.mp.br/sites/default/files/biblioteca/direitos-humanos/direitos-das-mulheres/obrasdigitalizadas/teorias_explicativas_da_violencia_contra_a_mulher/por_um_feminismo afro-latinoamericano_by_lelia_gonzalez_gonzalez_lelia_z-lib.org_.mobi_.pdf. Acesso em 01/07/2024.

O carnaval não deve ser utilizado como uma importante forma de comercialização da cultura popular brasileira para o mundo e de valorização da mulher negra

Abraços

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