“Eu tenho um problema: meu ascendente é em áries. E eu tenho...
O texto acima trata-se de um slam, típica batalha de rimas identificada como um gênero literário de resistência no Brasil. Com base na obra “Por um Feminismo Afro-latino-americano” (2020), de Lélia Gonzalez, analise as assertivas abaixo e assinale V, se verdadeiras, ou F, se falsas.
( ) O racismo cultural leva tanto algozes quanto vítimas a considerarem natural o fato de a mulher, em geral, e a negra, em particular, desempenhar papéis sociais desvalorizados. ( ) Enquanto denegação da “ladino-amefricanidade”, o racismo “à brasileira” se volta justamente contra aqueles que são o testemunho vivo da mesma (os negros), ao mesmo tempo que diz não fazê-lo (“democracia racial” brasileira). ( ) A categoria de “amefricanidade” trata da construção de uma identidade étnica que não é somente de caráter territorial, linguístico e ideológico, mas incorpora todo um processo histórico de intensa dinâmica cultural afrocentrada. ( ) Para Lélia Gonzalez, o carnaval deve ser utilizado como uma importante forma de comercialização da cultura popular brasileira para o mundo e de valorização da mulher negra.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
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Alternativa correta: A - V – V – V – F
1. Tema central da questão
Esta questão aborda conceitos fundamentais da Sociologia Jurídica relacionados à identidade, racismo cultural e à construção de categorias sociais no Brasil, conforme analisado por Lélia Gonzalez em sua obra “Por um Feminismo Afro-latino-americano”. É necessário compreender como o racismo se manifesta culturalmente, como se estrutura a negação da identidade negra (“democracia racial”), a noção de amefricanidade e o papel dos símbolos culturais, como o carnaval, na construção identitária.
2. Resumo teórico
Lélia Gonzalez foi uma referência no estudo das relações raciais e de gênero no Brasil. Ela destacou que o racismo cultural naturaliza papéis sociais desvalorizados para mulheres, sobretudo negras. Também apontou que o Brasil vive a farsa da “democracia racial”, ao mesmo tempo em que nega a identidade negra e valoriza a “miscigenação”. O conceito de amefricanidade refere-se à identidade negra construída em diálogo com a América Latina, valorizando a diversidade e a resistência cultural afrocentrada. Por fim, Gonzalez criticava a mercantilização do carnaval, demonstrando como a cultura popular é explorada economicamente e muitas vezes esvaziada de sua potência política.
3. Justificativa da alternativa correta
1ª afirmação (V): Gonzalez mostra que o racismo cultural faz com que mulheres negras sejam vistas como naturalmente destinadas a posições subalternas.
2ª afirmação (V): Ela analisa a “democracia racial” como uma forma de negar o racismo existente, disfarçando-o, enquanto marginaliza os próprios negros.
3ª afirmação (V): A autora define “amefricanidade” como uma identidade que agrega elementos históricos, culturais e linguísticos, com centralidade afro.
4ª afirmação (F): Gonzalez não defende o uso do carnaval apenas como mercadoria cultural. Ela critica essa visão e destaca o esvaziamento político e a exploração da imagem da mulher negra.
4. Análise das alternativas incorretas
As demais alternativas apresentam combinações incorretas, pois consideram falsa alguma das três primeiras assertivas — que estão fundamentadas nos conceitos essenciais da obra de Gonzalez — ou tomam a última como verdadeira, o que contraria o pensamento crítico da autora sobre carnaval e comercialização da cultura negra.
5. Estratégia para resolver a questão
Leia atentamente o enunciado, destaque palavras-chave como “amefricanidade”, “democracia racial” e “carnaval”, e lembre-se das posições críticas de Gonzalez. Em questões assim, busque sempre associar conceitos à trajetória intelectual do autor citado, evitando cair em pegadinhas como interpretações simplistas ou distorcidas.
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Comentários
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GABARITO: A.
A afirmativa I é verdadeira. De acordo com a mencionada autora: “O que se opera no Brasil não é apenas uma discriminação efetiva; em termos de representações sociais mentais que se reforçam e se reproduzem de diferentes maneiras, o que se observa é um racismo cultural que leva, tanto algozes como vítimas, a considerarem natural o fato de a mulher em geral e a negra em particular desempenharem papéis sociais desvalorizados em termos de população economicamente ativa” (p. 31).
A afirmativa II é verdadeira. A proposta da autora: “trata-se de um olhar novo e criativo no enfoque da formação histórico-cultural do Brasil que, por razões de ordem geográfica e, sobretudo, da ordem do inconsciente, não vem a ser o que geralmente se afirma: um país cujas formações do inconsciente são exclusivamente europeias, brancas. Ao contrário, ele é uma América Africana cuja latinidade, por inexistente, teve trocado o T pelo D para, aí sim, ter o seu nome assumido com todas as letras: Améfrica Ladina (não é por acaso que a neurose cultural brasileira tem no racismo o seu sintoma por excelência). Nesse contexto, todos os brasileiros (e não apenas os “pretos” e os “pardos” do IBGE) são ladinoamefricanos . (p. 107 – introdução).
A afirmativa III é verdadeira. Conforme explica Lélia Gonzalez: “As implicações políticas e culturais da categoria de amefricanidade (Amefricanity ) são, de fato, democráticas, exatamente, porque o próprio termo nos permite ultrapassar as limitações de caráter territorial, linguístico e ideológico, abrindo novas perspectivas para um entendimento mais profundo dessa parte do mundo onde ela se manifesta: A AMÉRICA como um todo (Sul, Central, Norte e Insular). Desnecessário dizer que a categoria de amefricanidade está intimamente relacionada àquelas de pan-africanismo , négritude , afrocentricity etc”.
A afirmativa IV é falsa. O Carnaval não é elemento importante para comercializar a cultura, consoante pensamento da autora: ‘Vale observar que a expressão popular mencionada anteriormente — “Branca para casar, mulata para fornicar, negra para trabalhar” — tornou-se uma síntese privilegiada de como a mulher negra é vista na sociedade brasileira: como um corpo que trabalha, e que é superexplorado economicamente, ela é uma faxineira, cozinheira, lavadeira etc. que faz o “trabalho pesado” das famílias de que é empregada; como um corpo que gera prazer e que é superexplorado sexualmente, ela é a mulata dos desfiles de Carnaval para turistas, de filmes pornográficos etc., cuja sensualidade é incluída na categoria do “eróticoexótico”.
FONTE: GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatino americano. Disponível em: https://www.mpba.mp.br/sites/default/files/biblioteca/direitos-humanos/direitos-das-mulheres/obrasdigitalizadas/teorias_explicativas_da_violencia_contra_a_mulher/por_um_feminismo afro-latinoamericano_by_lelia_gonzalez_gonzalez_lelia_z-lib.org_.mobi_.pdf. Acesso em 01/07/2024.
O carnaval não deve ser utilizado como uma importante forma de comercialização da cultura popular brasileira para o mundo e de valorização da mulher negra
Abraços
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