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Q630218 Português

                                     Texto I


      A natureza das vidas que as pessoas podem levar tem sido objeto de atenção dos analistas sociais ao longo da história. Mesmo que os principais índices econômicos do progresso tendam a se concentrar no melhoramento de objetos inanimados de conveniência (por exemplo, no produto interno bruto, PIB), essa concentração poderia ser justificada, em última instância, apenas através do que esses objetos produzem nas vidas humanas que podem direta ou indiretamente influenciar. Temos excelentes razões para não confundir os meios com os fins, e para não considerarmos os rendimentos e a opulência como importantes em si, em vez de valorizá-los pelo que ajudam as pessoas a realizar, incluindo uma vida boa e que valha a pena.

      A opulência econômica e a liberdade substantiva, embora não sejam desconectadas, frequentemente podem divergir. Mesmo com relação à liberdade de viver vidas longas (livres de doenças evitáveis), é notável que o grau de privação de grupos socialmente desfavorecidos em países muito ricos pode ser comparável ao das regiões mais pobres. A liberdade de evitar a morte prematura é incrementada por uma renda elevada (isso não se discute), mas ela também depende de outros fatores, em particular da organização social, incluindo a saúde pública e a garantia de assistência médica. Faz diferença se olharmos apenas para os recursos financeiros, em vez de considerarmos as vidas que as pessoas conseguem levar. 

      Ao avaliarmos nossas vidas, há razões para estarmos interessados na liberdade que realmente temos para escolher entre diferentes estilos de vida. O reconhecimento de que a liberdade é importante também pode ampliar nossa responsabilidade. Poderíamos usar nossa liberdade para investir em muitos objetivos que não são parte de nossas próprias vidas em um sentido restrito (por exemplo, a preservação de espécies ameaçadas). Trata-se de um tema importante na abordagem de questões como o desenvolvimento sustentável.


(Adaptado de Amartya Sen. A ideia de Justiça. São Paulo, Cia. das Letras, 2011. p.259-61)

Segundo o texto,
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a tese explícita de que rendimentos, opulência e demais índices econômicos têm valor instrumental e não servem, isoladamente, para avaliar a vida humana. Isso está em “Temos excelentes razões para não confundir os meios com os fins, e para não considerarmos os rendimentos e a opulência como importantes em si, em vez de valorizá-los pelo que ajudam as pessoas a realizar, incluindo uma vida boa e que valha a pena.”; por isso, a alternativa D é a compatível com o texto.

Tema central: insuficiência dos indicadores econômicos
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque transforma uma relação não necessária em vínculo direto. O texto afirma expressamente: “A opulência econômica e a liberdade substantiva, embora não sejam desconectadas, frequentemente podem divergir.” Logo, o poder econômico do país não determina diretamente a liberdade de escolher um modo de viver.
B
Errada
Está errada porque absolutiza a renda como garantia de saúde. O texto não diz que renda considerável garante vida saudável nem acesso irrestrito à saúde; diz que “A liberdade de evitar a morte prematura é incrementada por uma renda elevada”, mas acrescenta imediatamente que ela “também depende de outros fatores, em particular da organização social, incluindo a saúde pública e a garantia de assistência médica.” O erro está em trocar incremento por garantia exclusiva.
C
Errada
Está errada por extrapolação indevida. O texto não afirma que maior PIB produz necessariamente maior expectativa de vida, maior educação e maior satisfação pessoal. Ao contrário, relativiza o PIB como índice suficiente e subordina seu valor ao impacto real sobre a vida humana. Além disso, a alternativa introduz “grau de educação” e “satisfação pessoal”, elementos não afirmados nesses termos.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque retoma a ideia central do texto: não basta olhar para recursos financeiros ou PIB para avaliar a vida das pessoas em uma nação. O autor afirma que esses elementos devem ser considerados pelo que ajudam as pessoas a realizar, e não como medida suficiente em si mesmos. Essa leitura é confirmada por “Faz diferença se olharmos apenas para os recursos financeiros, em vez de considerarmos as vidas que as pessoas conseguem levar.”
E
Errada
Está errada porque deturpa o sentido do último parágrafo. O texto diz que a liberdade pode ser usada para “investir em muitos objetivos que não são parte de nossas próprias vidas em um sentido restrito”, como “a preservação de espécies ameaçadas”. Portanto, não se trata de melhor investimento na própria vida individual, mas de objetivos mais amplos, inclusive ligados ao desenvolvimento sustentável.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre relação parcial e determinação automática: o texto admite que renda e opulência influenciam a vida, mas nega que elas sejam critério suficiente ou garantia direta de liberdade, saúde e bem-estar.
Dica para questões semelhantes
  • Localize a tese explícita do texto antes de comparar as alternativas; aqui, ela está na oposição entre meios econômicos e fins humanos.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como “diretamente”, “está garantida” e relações necessárias que o texto não afirma.
  • Quando o texto disser que algo ajuda, incrementa ou se relaciona, não aceite alternativa que transforme isso em causa única ou garantia.
  • Elimine opções que acrescentem indicadores ou consequências não textualizadas, mesmo que pareçam plausíveis.

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Comentários

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e) o desenvolvimento sustentável e a preservação da fauna dependem de as pessoas terem a liberdade de fazer um melhor investimento em suas vidas. 

 

Poderíamos usar nossa liberdade para investir em muitos objetivos que não são parte de nossas próprias vidas em um sentido restrito 

A resposta é D. Frase do texto que mata a questão:
"Faz diferença se olharmos apenas para os recursos financeiros, em vez de considerarmos as vidas que as pessoas conseguem levar." (grifo meu)
 

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