Segundo Umberto Eco, a relação estabelecida entre o celular...
Leia o texto para responder à questão.
O celular e a Rainha Má
Recentemente, eu estava caminhando pela calçada quando vi uma mulher vindo na minha direção. O rosto dela estava colado ao celular e ela não estava prestando atenção para onde estava indo. Como secretamente sou uma pessoa má, eu parei de repente e dei meia volta. A mulher trombou nas minhas costas, derrubando seu celular. Ela balbuciou um pedido de desculpas, enquanto eu gentilmente lhe disse para não se preocupar, já que hoje em dia essas coisas acontecem o tempo todo.
Nós mal conversamos face a face hoje em dia, nem refletimos sobre assuntos importantes de vida e morte, portanto, nem mesmo olhamos para a paisagem enquanto passa pela nossa janela. Em vez disso, nós conversamos obsessivamente em nossos celulares, raramente sobre algo particularmente urgente, desperdiçando nossas vidas em um diálogo com alguém que nem mesmo vemos.
Hoje, estamos vivendo em uma era na qual, pela primeira vez, a humanidade conseguiu realizar um dos três desejos persistentes que por séculos apenas a magia podia satisfazer. O primeiro é a capacidade de voar – não em um avião, mas com nossos próprios corpos, batendo nossos braços. Outro é a habilidade de afetar diretamente nossos inimigos – ou entes queridos – ao espetar agulhas em um boneco ou proferindo palavras arcanas. E o terceiro é a capacidade de comunicação instantânea por longas distâncias.
Por que as pessoas demonstraram tamanha inclinação a práticas mágicas ao longo dos séculos? Pressa.
Nós sabemos que a ciência e a tecnologia avançam lentamente por meio de pesquisa cuidadosa – mas mesmo assim queremos uma cura para o câncer já, não amanhã.
O relacionamento entre nosso entusiasmo pelas conveniências tecnológicas e nossa inclinação pelo pensamento mágico forma um nó estreito que está atado profundamente à nossa esperança religiosa na ação rápida como um raio dos milagres.
Será que há uma conexão entre aqueles que prometem uma cura instantânea para o câncer, místicos como o Padre Pio, celulares e a Rainha Má de “Branca de Neve”? De certo modo há. A mulher no início da minha história estava vivendo em um universo de contos de fadas, encantada pelo celular em seu ouvido, em vez de um espelho mágico.
(ECO, Umberto. Disponível em: https://noticias.uol.com.br. Acesso em 18.05.2018.Adaptado)
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Tema central: Interpretação de Texto e Semântica.
Nesta questão, o candidato deve analisar a relação simbólica que Umberto Eco faz entre o celular e a Rainha Má, exigindo atenção ao sentido das palavras e à comparação proposta pelo autor.
Justificativa da alternativa correta:
Segundo a norma-padrão, interpretar um texto significa captar o que está dito e, principalmente, o que está implícito, utilizando o contexto e o significado das expressões. No texto, Eco equipara o ato de olhar obsessivamente o celular ao de se encantar pelo espelho mágico: "a mulher [...] estava vivendo em um universo de contos de fadas, encantada pelo celular em seu ouvido, em vez de um espelho mágico". O termo-chave aqui é encantada, indicativo direto de encantamento.
Como define a semântica e reforçam autores como Celso Cunha & Lindley Cintra, "encantamento" é o estado de fascínio ou deslumbramento por algo, que se encaixa perfeitamente à situação narrada, em que tanto a Rainha Má quanto a mulher usuária do celular estão tomadas por um fascínio pelo objeto.
Alternativa correta: A) encantamento
Análise das alternativas incorretas:
B) Persuasão: Refere-se a convencer alguém, o que não é sugerido no texto.
C) Decepção: Implica frustração/desilusão, sentimentos ausentes da narrativa.
D) Desprezo: Significa desdém, oposto ao estado de fascínio destacado.
E) Poder: Embora ambos os objetos possam representar poder, Eco enfatiza o encantamento, não o domínio ou influência.
Dica de interpretação:
Em questões como esta, destaque-se ao buscar palavras-chave e expressões do texto que revelam o sentimento ou a relação subjacente. Atente-se a comparações e analogias, evitando interpretar literalmente. Pegadinha comum: algumas alternativas podem parecer “certas” à primeira vista, mas apenas uma traduz fielmente a ideia central apresentada.
Resumo: O texto estabelece que tanto a Rainha Má quanto a personagem contemporânea estão encantadas por seus objetos, reforçando o encantamento como a relação correta.
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Assertiva A
encantamento.
(..)A mulher no início da minha história estava vivendo em um universo de contos de fadas, encantada pelo celular em seu ouvido, em vez de um espelho mágico.
➽A mulher no início da minha história estava vivendo em um universo de contos de fadas, encantada pelo celular em seu ouvido, em vez de um espelho mágico.
Gab.A
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