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Q2276661 Português
        Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados diziam que amputar uma perna era morrer duas vezes: a primeira durante a operação, a segunda de febre. De fato, infecções bacterianas do coto do membro amputado eram tão frequentes que a cirurgia só era indicada em casos de gangrena, sangramento incontrolável e outras situações extremas. A descoberta da caverna Liang Tebo, em Borneo, na Indonésia, acaba de revelar que esse tipo de cirurgia já era realizado há muito mais tempo do que imaginávamos. 
        Liang Tebo é uma caverna com 160 m³, formada por três câmaras com pinturas pré-históricas nas paredes da câmara superior, que datam de 41 mil anos atrás, no Pleistoceno tardio. Em 2020, escavações no assoalho dessa caverna encontraram um cemitério a 1,5 metro de profundidade. Entre as ossadas, chamou a atenção a de um adulto deitado de costas, com as pernas flexionadas, na qual faltava o pé esquerdo. O esqueleto foi batizado de TB1.
        Acompanhada com scanning a laser, a remoção cuidadosa dos ossos mostrou que 75% deles estavam preservados, bem como todos os dentes. Os estudos das cartilagens de crescimento [...] permitiram concluir que se tratava de um espécimen de Homo sapiens, com 19 a 20 anos de idade. [...]
        Mas, o que mais chamou a atenção dos paleontólogos foram as evidências de que a amputação do pé seccionou os ossos da perna – tíbia e fíbula – com incidência oblíqua, numa linha regular, como a das incisões cirúrgicas. Por acidente, uma amputação com essas características só poderia ser provocada por lâminas metálicas de uma máquina moderna. Esmagamento por acidente ou mordida de animal deixariam fragmentos ósseos irregulares, jamais um corte oblíquo linear. [...]
        A realização de uma cirurgia dessas proporções sugere que, no Pleistoceno tardio, milhares de anos antes do advento da agricultura, numa população de caçadores-coletores que habitavam cavernas, cirurgiões já tinham adquirido conhecimentos anatômicos sobre a disposição topográfica dos músculos, ossos, artérias, veias e nervos dos membros inferiores, que lhes permitia executar uma intervenção que só se tornaria rotina 30 mil anos mais tarde.

(drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/o-cirurgia o-mais-velho-do-mundo/).  
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Tema central: Interpretação de texto e tipologia textual. O objetivo da questão é avaliar se o candidato reconhece o tipo textual, a função do texto e a intenção do autor, aspectos fundamentais para a compreensão do texto em provas de Língua Portuguesa.

Alternativa correta: B

O texto possui predominância expositiva, cuja função principal é informar (função referencial da linguagem). Desde o início, apresenta fatos científicos e históricos sobre amputações e descobertas arqueológicas, somando comentários e contextualizações.
Ao analisar trechos como “A descoberta da caverna Liang Tebo [...] acaba de revelar que esse tipo de cirurgia já era realizado há muito mais tempo do que imaginávamos”, percebemos um posicionamento informativo, expondo dados e comentários objetivos. Isso se encaixa perfeitamente com a proposta da alternativa B.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Crônica de natureza narrativa cujo personagem principal é TB1.”
Erro conceitual: apesar de relatar descobertas, o texto não adota linguagem literária nem subjetividade típicas da crônica. TB1 aparece como foco, mas não há elementos estruturais narrativos clássicos (conflito, clímax, desfecho específico) que caracterizam a crônica, conforme Bechara ou Cunha & Cintra definem.

C) “Compara as amputações da guerra para mostrar que foram mais perigosas.”
Falsa inferência: o texto cita a guerra apenas para contextualizar a dificuldade das amputações, não para estabelecer uma relação de maior ou menor risco entre épocas. Atenção: perguntas assim buscam confundir pelo uso enviesado da comparação.

D) “A perda do pé foi por esmagamento ou mordida de animal.”
Erro factual: o texto destaca que o corte era regular, típico de cirurgia e descarta explicitamente causas como acidente ou mordida, pela ausência de fragmentação óssea irregular – exatamente o oposto do que afirma a alternativa.

Estratégias de prova: Ao interpretar textos informativos, busque palavras que remetam a objetividade (dados, datas, fatos), verifique se há juízo de valor (função argumentativa) ou se predomina a exposição clara, impessoal e referencial (expositivo).

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