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Q1153596 Português

As boas lições do meu pai



    Um dia, numa visita ao meu pai, notei que ele me olhava longamente, daquele jeito que fazia quando tinha uma questão na cabeça. E veio o comentário, “sua calça está rasgada.” Era o começo da tendência dos jeans detonados. “Sim, pai, está”, eu respondi. Naquela época eu já há muito tinha uma profissão e pagava minhas próprias contas. Ele me deu então aquele olhar apertado e o sorriso de canto de boca que eu conheço tanto. Era uma aprovação.

    Me lembrei de quando tinha nove ou dez anos de idade e ia com ele para os botecos onde uma rodinha de homens tomava cerveja e todos falavam de política. A menina que prestava muita atenção na conversa ganhava aquele meio sorriso do pai. Alguns anos mais tarde bati o carro dele e trabalhei três meses seguidos para pagar a conta do conserto. A família criticava o pé pesado da jovem ao volante. Meu pai devolvia os comentários com aquele mesmo sorriso de ironia e um certo orgulho.

    Minha profissão me levou a muitas viagens arriscadas. Guerras, desastres naturais, acidentes nucleares. Nunca ouvi de meu pai o tradicional “Mas minha filha, isso é muito perigoso!”, compreensível vindo de um homem da geração dele. Alguns amigos diziam que ele me criou para agir como um menino. Prefiro achar que ele me educou para que eu tivesse coragem de ser aquilo que eu quisesse.

    Essa semana acompanhei com prazer a sequência de posts nas redes sociais com fotos de magistradas, atletas, astronautas, acompanhadas da hashtag #dresslikeawoman (vista-se como uma mulher). Meu pai, muito velhinho, já não consegue expressar com clareza as suas opiniões. Mas sei que em algum lugar ali ainda está acesa a chama de intelectual da esquerda que abominaria um presidente - qualquer que seja seu viés político - que se meta com a maneira como uma mulher deve se vestir.

    Meu pai me ensinou, sem nunca ter dito uma palavra sobre isso, que conhecimento, seriedade e trabalho bem feito são bens que não têm gênero e que quem os acumula pode se vestir e se comportar da maneira que achar melhor. Homens e mulheres só devem satisfação a si mesmos e à coerência no caminho que escolheram.

    Eu teria muito a dizer a um homem que tivesse a pretensão de criticar a maneira como uma mulher se veste. Mas meu pai me ensinou a não perder tempo com a vida dos outros. Esse texto é uma homenagem a ele. Meu pai. Agora com licença que preciso me vestir para o trabalho.



Padrão, Ana Paula. As boas lições do meu pai. Isto é, 2017. Disponível em: <https://istoe.com.br/as-boas-licoes-do-meu-pai/>. Acesso em: 20 de fev. 2019.


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Comentário da questão:

A questão trabalha um ponto central de interpretação de texto, muito recorrente em concursos de Assistente Social: identificar quais estratégias argumentativas a autora utiliza para defender sua tese.

O texto apresentado é do tipo dissertativo-argumentativo. Nele, Ana Paula Padrão expõe sua opinião sobre a influência do pai em sua formação, especialmente sobre autonomia e liberdade da mulher. O conceito-chave aqui é estratégias argumentativas.

Segundo Evanildo Bechara (Gramática Escolar da Língua Portuguesa), argumentos podem se apoiar em fatos, dados, observações pessoais, pesquisas ou autoridades. No caso do texto analisado, destaca-se a utilização de experiências e percepções subjetivas, ou seja, observações pessoais da autora.

No desenvolvimento, vemos relatos: "meu pai me olhava longamente", “bati o carro dele e trabalhei três meses para pagar", "Minha profissão me levou a muitas viagens arriscadas". Esses trechos autobiográficos compõem a base argumentativa do texto — não há uso de estatísticas, pesquisas científicas ou referência a especialistas.

Análise das alternativas:

A) dados estatísticos: Errada. O texto não traz números, gráficos ou estatísticas.

B) pesquisas científicas: Errada. Não há menção a estudos ou resultados de pesquisa.

C) observações pessoais: Correta. A autora narra experiências próprias, tornando seu argumento mais próximo e convincente.

D) opiniões de especialistas: Errada. Não existe citação de fonte de autoridade ou especialista.

Estratégia para provas: Ao ler textos argumentativos, identifique se são usados exemplos pessoais, dados numéricos, pesquisas ou opiniões técnicas — isso ajuda a eliminar alternativas erradas de imediato.

Resumo: O texto sustenta sua tese por observações pessoais, enfoque frequente em provas de interpretação textual para concursos. Esse tipo de análise é recomendado pelas gramáticas de Cunha & Cintra, ao salientar a relação entre conteúdo e tipo de argumentação.

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Comentários

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GABARITO: LETRA C

? A autora usa de próprios argumentos de sua vivência para dar sustentação ao seu argumento que deve haver igualdade entre homens e mulheres, e que os seres devem satisfação somente a eles mesmos.

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? FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

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