Na expressão “gente mais real-fantasiosa que há”, o autor 

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Q4038425 Português

Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.


   A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na ca- beça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.  


(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabloca. 61 cronistas do Amapá, 2020) 

Na expressão “gente mais real-fantasiosa que há”, o autor 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor semântico-discursivo do contraste interno da expressão “real-fantasiosa”, confirmado pelo contexto: “Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. [...] São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça.” A justaposição de termos semanticamente tensionados produz uma síntese expressiva da identidade do caboclo, que combina vínculo com o real e abertura ao imaginário; por isso, a alternativa correta é a B.

Tema central: contraste semântico identitário
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque a expressão não funciona como ironia velada nem sustenta a ideia de “fragilidade intelectual da população rural”. O texto constrói uma caracterização ambivalente e complexa, com traços simultâneos de desconfiança, credulidade, sonho e senso prático. A base não autoriza concluir rebaixamento intelectual global.
B
Certa
A alternativa B está correta porque lê a expressão “real-fantasiosa” como um contraste expressivo entre dois polos semânticos que o próprio texto desenvolve: de um lado, o caboclo é ligado à vida concreta e sabe que “sonho é só para se sonhar”; de outro, é “muito crédulo” e “sonhador”. A expressão resume essa dualidade como traço da identidade do caboclo.
C
Errada
Está errada porque não há incongruência gramatical. A tensão entre “real” e “fantasiosa” é semântica e expressiva, não um defeito de construção. Além disso, a expressão tem função relevante no contexto: condensar a dualidade identitária do caboclo.
D
Errada
Está errada porque a expressão não reforça apenas a fantasia, nem a contradição aparece como ornamento vazio. O texto preserva os dois polos da composição: imaginação e realidade. Isso fica claro quando afirma que são “sonhadores”, mas sabem que o sonho “deve ficar sempre somente na cabeça”.
E
Errada
Está errada porque a expressão não atribui sentido necessariamente pejorativo ao caboclo. Embora o texto mencione credulidade, isso integra uma caracterização mais ampla e não uma redução do caboclo à ingenuidade ou à ilusão. O tom é de construção identitária complexa, não de inferiorização.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler a junção de termos tensionados como erro, ironia ou defeito, quando o texto a usa como recurso expressivo central para condensar dois traços simultâneos da personagem coletiva.
Dica para questões semelhantes
  • Quando aparecer uma expressão com termos semanticamente tensionados, verifique se o contexto confirma a convivência dos dois sentidos antes de supor erro ou contradição vazia.
  • Não isole um dos polos da expressão: aqui, ler só “fantasiosa” apaga o valor decisivo de “real”.
  • Antes de marcar alternativa pejorativa, confira se o texto realmente rebaixa o referente ou se faz uma caracterização ambivalente.
  • Use os trechos seguintes ao sintagma destacado para testar sua função no texto; nesta questão, eles explicam diretamente a dualidade apresentada.

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Comentários

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A) Incorreta. Não há ironia velada ou intenção de apontar "fragilidade intelectual". O texto, na verdade, valoriza a complexidade do caboclo, descrevendo-o como alguém que possui uma sabedoria própria e uma conexão profunda com o ambiente, e não como alguém intelectualmente inferior.

B) CORRETA. A expressão "real-fantasiosa" é um oxímoro (ou paradoxo) que serve para definir a dualidade do caboclo. Ele é "real" pela lida bruta e sobrevivência na mata, mas "fantasioso" por sua credulidade, sonhos e misticismo. A união desses termos opostos é o que molda a identidade única descrita pela autora.

C) Incorreta. Não existe incongruência gramatical; o uso de adjetivos compostos por hífen é um recurso legítimo. Além disso, a função semântica é central para o texto, pois sintetiza a tese da autora sobre a "ideologia cabocla".

D) Incorreta. A contradição não é apenas ornamental (estética). Ela é estrutural, pois o texto explora justamente como o caboclo lida com fatos concretos (trabalho, boia) e elementos abstratos (sonhos, crenças em santos), sendo ambos partes inseparáveis de sua vida.

E) Incorreta. O termo não possui sentido pejorativo. Pelo contrário, a cronista defende o caboclo ("Cruel é o coração que não lhe acredita"), apresentando a mistura de realidade e fantasia como uma riqueza cultural, e não como uma falha de caráter ou mera ilusão ingênua.

ódio de questões estilo ENEM

“Real-fantasiosa” junta palavras opostas justamente pra mostrar o jeito do caboclo no texto:

"alguém que conhece a realidade dura da vida, mas que ainda olha pras coisas com imaginação e encanto".

Aparece quando o texto fala que ele é desconfiado e crédulo ao mesmo tempo, ou que sonha, mas sabe que “sonho é só para se sonhar”. A própria forma como ele vê a natureza mostra esse lado mais sonhador.

Então a expressão não é deboche nem ironia. Ela serve pra mostrar essa mistura entre realidade e fantasia que faz parte da identidade do caboclo.

Ou seja.. “real” + “fantasiosa”.

O autor não usa a contradição só como enfeite nem apenas para reforçar a fantasia. Ele quer mostrar que o caboclo vive entre esses dois mundos: conhece a realidade dura da vida, mas mantém um olhar imaginativo e encantado sobre ela, por isso não é a letra D.

A D ficaria correta se o texto valorizasse apenas o lado fantasioso. Mas o texto inteiro insiste nessa dualidade do caboclo.

GABARITO - B

É Real por ter vida difícil e sobrevivência na mata, mas Fantasioso por sua credulidade, sonhos e misticismos.

PM-PI

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