Pode-se afirmar que, segundo o narrador do texto:

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Q1816377 Português

Eu, Mwanito, o afinador de silêncios


    A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

    Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

     — Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

    Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:

    — Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

    Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.

     —Você sabe, filho: há a calmaria dos cemitérios. Mas o sossego desta varanda é diferente. Meu pai. A voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio. Tossicava e a tosse rouca dele, essa, era uma oculta fala, sem palavras nem gramática.

    Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso progenitor.


(COUTO, Mia. Antes de nascer o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Fragmento adaptado.)

Pode-se afirmar que, segundo o narrador do texto:
Alternativas

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Assunto central: Interpretação de texto. A questão exige que você avalie a relação entre o talento, vocação e a forma de descobri-los conforme a perspectiva do narrador. Para isso, é necessário identificar ideias centrais, realizar inferências e distinguir o que está explicitamente afirmado daquilo que é apenas sugerido.

Comentário da alternativa A (correta):

O texto ressalta que cada pessoa possui uma vocação distinta, reconhecida de maneira natural (“Uns nasceram para cantar, outros para dançar... Eu nasci para estar calado”). O narrador destaca a diferença de campo de atuação de sua vocação, além de não depender de esforço consciente, pois “minha única vocação é o silêncio” e esse silêncio é visto como um dom natural, uma herança (“era um dom natural, herança de algum antepassado”). Assim, a resposta A é a que melhor traduz a mensagem do texto, relacionando vocação, campo de atuação e esforço.

Análise das alternativas incorretas:

B) Incorreta porque, embora o texto diga que a família ou sociedade costuma eleger talentos (“A família, a escola, os outros, todos elegem...”); no caso do narrador, sua vocação é um traço próprio, não corresponde a uma expectativa externa ou a uma confirmação do desejo social. Ele mesmo destaca sua individualidade e diferenciação.

C) Errada, pois não há confronto de ideias ou disputa entre partes da sociedade para escolha do talento; o texto apresenta apenas que cada um é escolhido ou reconhecido por um dom.

D) Incorreta porque não se fala de “decisão” ou “escolha diante de alternativas apresentadas”; o narrador reconhece uma vocação única, natural e específica, sem múltiplas opções a serem avaliadas.

Dicas de interpretação:

Atente-se a palavras-chave como “única vocação”, “dom natural”, “herança”, pois indicam natureza inata do talento. Fique atento a alternativas que generalizam ou distorcem proposições específicas do texto: esse tipo de erro é frequente em provas!

Autores referência: Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), Ingedore Koch (Ler e Compreender) – ambos ressaltam a centralidade da análise coesa e inferências precisas para interpretar textos com segurança em concursos.

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Comentários

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Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado.

Aos não assinantes, gabarito:

A) Seu talento difere-se quanto ao campo de atuação e esforço empreendido em relação a outras atividades citadas no texto.

 Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado.

 Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado.

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