Covid longa: as novas descobertas
Ela atinge pelo menos um em cada dez infectados e tem consequências persistentes, que podem durar meses
ou anos: danos vasculares, cerebrais e no sistema imunológico. Mas a ciência começa a decifrá-la, e já testa
um arsenal de medicamentos contra a Covid longa – a herança maldita da pandemia.
Por Bruno Garattoni e Tiago Cordeiro, 15 jun 2022, 13h05
[...]
Se você continuar com sintomas três meses após a infecção inicial, está com Covid longa. Podem ser
problemas diretamente relacionados aos sistemas respiratório e cardiovascular, como fadiga crônica, falta de
ar e taquicardia severa – que transformam até as coisas mais triviais, como subir escadas, num suplício. Ou
mais enigmáticos, como dores no corpo, tontura persistente, problemas auditivos, insônia, depressão, perda
de memória e problemas cognitivos. Mais de 200 sintomas já foram associados à síndrome. A OMS estima
que 1 em cada 5 indivíduos que pegaram o coronavírus pode desenvolvê-la.
Esse número, 20%, foi confirmado por um estudo do Centers for Disease Control americano, que
analisou os registros médicos de 353 mil pessoas. Já uma análise do governo inglês obteve um número um
pouco menor: 9,5% dos indivíduos vacinados, e 14,5% dos não vacinados, desenvolveram algum grau de
Covid longa.
Em aproximadamente metade dos casos, os sintomas eram graves, a ponto de impedir as atividades
normais da pessoa. E, o que talvez seja mais alarmante, eles não costumam melhorar com o tempo. Sete meses
após a infecção, um terço das vítimas da Covid longa havia conseguido superar seus problemas respiratórios
– mas a incidência de todos os demais problemas continuava praticamente igual.
As vacinas são altamente eficazes contra a hospitalização ou morte, mas não conseguem impedir que
você pegue o vírus, tenha Covid – e desenvolva a forma longa da doença. No estudo do governo inglês, a
vacinação reduziu em 34,5% o risco da síndrome. É um nível de proteção modesto; e pode ser até menor.
Cientistas da Universidade de Washington avaliaram 34 mil pessoas vacinadas e 113 mil não vacinadas nos
EUA, e constataram que a imunização diminuiu em apenas 15% a incidência de Covid longa.
Tanto o estudo inglês quanto o americano consideraram pessoas vacinadas com duas doses – portanto,
não levam em conta o possível aumento de proteção com a terceira dose. Mas é pouco provável que a dose
de reforço forneça um ganho dramático ou permanente contra a Covid longa (inclusive porque os níveis de
anticorpos contra o vírus caem naturalmente nos meses após a vacinação). Ela continuará sendo um risco
real. [...] E ela é uma roleta russa. Mulheres correm um risco um pouco maior do que os homens (elas são
60% dos casos), e a síndrome é mais frequente nas pessoas entre 36 e 64 anos. Também há uma relação direta
com a Covid inicial: quanto mais graves os sintomas da doença, maior a chance de ter Covid longa depois.
Mas há estudos mostrando que ela também pode ocorrer após casos leves.
O fato é que ainda não há como prever, com um grau de confiança razoável, se alguém irá ou não
desenvolver a síndrome pós-Covid. Inclusive porque ela pode ser sorrateira, e só se manifestar semanas após
o fim da infecção inicial, ou agir de forma traiçoeira – são comuns os relatos de vítimas que se consideravam
curadas da Covid longa, mas voltaram a ter problemas depois que tentaram se exercitar, por exemplo. [...]
Fonte: https://super.abril.com.br/saude/covid-longa-as-novas-descobertas-e-os-possiveis-tratamentos/ (Adaptado)