A difícil arte de viver entre eras
Apanhei de novo da tecnologia. Tive que trocar o aparelho
celular — e se digo “tive” é porque resisti o quanto pude a isso
— e, nesse processo, terminei perdendo todas as conversas e
contatos do WhatsApp, o conhecido zap. Nunca tinha me
importado em baixar os dados que a cada dia iam se acumulando
no aplicativo, na ilusão de que tudo estaria sempre ali. Mas, ó
tolinho, não existe sempre na voracidade tecnológica de nosso
tempo. Se a coisa não foi para a tal nuvem, não há como chover
em outro aparelho. Perdeste, coroa!
Pior que não é a primeira vez que fico com cara de guri
diante do brinquedo quebrado. Bem lá atrás, quando a novidade
era poder baixar discos raros em vinil vertidos para o digital, fiz
um acervo daqueles com músicas dos meus sonhos de
colecionador. Só que a festa acabou quando o computador “deu
pau”, como se diz hoje, e eu perdi tudinho. Depois disso, apelei
para o velho modo analógico e venho guardando em discos
físicos o que tem valor afetivo. Mas pensam que tive sossego?
Meu antigo computador, que tinha uma providencial
entrada para CD e DVD, já ficou para trás, tombado pelo tempo
do mercado e das inovações. E o novo, todo cheio de memórias
e quetais, não aceita essa mídia. Ou seja, já não posso gravar
mais nada em discos. Sim, há pendrives e HDs externos para isso,
mas que graça tem essas engenhocas quando a memória nos
remete aos doces rituais de pegar um disco e já antecipar a
experiência sonora nele contida? Até hoje reajo mal a streamings
de música. Sou dos que gostam de saber tudo: título,
compositores e até arranjo de cada faixa. E jamais entregarei a
nenhuma Alexa a tarefa de escolher o que quero ouvir.
Reacionário tecnológico, eu? Creio que não. Aprecio
demais as novidades e as facilidades que a tecnologia traz. A cada
fatura que pago pelo celular, em casa, lembro de quando
enfrentava longas filas num banco para quitar uma reles conta
de luz. Zero saudade daquele tempo. Minha bronca é com a
obrigação de me “atualizar” de acordo com o descaramento do
mercado, que decreta a obsolescência precoce do que ainda tem
muito gás para dar. Então, como na famosa canção espanhola,
“¡resistiré, resistiré!”.
A atendente da loja onde comprei o novo celular espantouse ao ver que o meu aparelho antigo já ia completar cinco anos.
Os olhos dela pareciam dizer: cinco anos! Onde já se viu? E ainda
por cima não fez o armazenamento na nuvem! Tome tento, meu
senhor! Ok, assumo que vacilei. É que eu quero usufruir das
facilidades da era virtual sem ter que ceder o precioso tempo que
insisto em dedicar a hábitos antigos. Já basta o sequestro que as
famigeradas redes sociais fazem de nossa atenção.
Dia desses vi numa rede um vídeo de um cara — ou melhor,
um coroa — se orgulhando de pertencer à geração — a mesma
que a minha — que viveu o analógico e soube se adaptar ao
virtual, isso como uma grande vantagem. Sei não, irmão. É mais
um fardo essa condição de viver no limiar entre eras. Por isso,
para seguir leve na vida, vez em quando cometo desatinos, como
esse de peitar os imperativos do mercado tecnológico.
Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).