Questões de Concurso Sobre sintaxe em português

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Q4427968 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"Assisti recentemente a 'Nosso Segredo'..."

"Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores."

Com base na regência dos verbos empregados nos trechos acima, julgue as afirmativas.

I. O verbo 'assistir' está corretamente empregado com a preposição 'a'. Em outros contextos, porém, pode apresentar transitividade direta, sem o emprego de preposição, como em 'O professor assiste o aluno em suas tarefas escolares'.
II. O verbo 'assistir' foi empregado como transitivo indireto, razão pela qual a substituição de seu complemento indireto pelo pronome oblíquo 'lhe' está de acordo com as regras da norma-padrão.
III. O verbo 'implicar' está corretamente empregado sem preposição, pois, nesse contexto, atua como verbo transitivo direto e não rege complemento preposicionado. Entretanto, a construção 'implica em estratégias' também estaria correta.
IV. O verbo 'implicar' foi empregado incorretamente como transitivo direto, pois esse verbo é transitivo indireto. Assim, de acordo com a norma-padrão, a única forma adequada seria 'implica em estratégias'.

Assinale a alternativa que apresenta as proposições CORRETAS.
Alternativas
Q4427967 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo."
"Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores."
Com base nas regras de concordância verbal nos trechos acima, marque com V as afirmativas verdadeiras ou com F as falsas.

(__) Com expressões de porcentagem, a concordância verbal pode variar de acordo com a estrutura do sujeito, sendo possível, nesse contexto, o emprego do verbo no plural, como em '16% dos cuidadores relatam', ou no singular, como em '16% dos cuidadores relata'.
(__) Caso a construção fosse 'Creches com pré-escolas são ambientes', também seria possível empregar o verbo no singular, pois, quando o sujeito é constituído por termos ligados pela preposição 'com', a concordância pode ser feita com o primeiro termo, destacando-o em relação ao elemento que o acompanha, ou no plural, quando se pretende evidenciar a participação conjunta dos dois termos.
(__) Se a construção fosse 'Fomos nós quem relatou que as crianças sofrem racismo', a forma verbal 'relatou' estaria de acordo com a norma-padrão, sendo igualmente possível o emprego de 'relatamos', em concordância com o pronome 'nós'.
(__) Se a construção fosse 'Aparece entre os ambientes mais citados a creche e a pré-escola', a concordância também estaria de acordo com a norma-padrão, pois, como o sujeito composto aparece depois do verbo, este pode permanecer no singular, concordando com o núcleo mais próximo.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA, de cima para baixo.
Alternativas
Q4427965 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças."
"Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais."
"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão [...]"
Considerando os mecanismos de coesão presentes nos trechos acima, julgue as afirmativas a seguir.

I. A expressão 'Assim como sugere a ficção' retoma anaforicamente conteúdo já apresentado e estabelece entre a situação retratada na obra e os dados posteriormente apresentados uma relação de equivalência, pela qual a experiência ficcional é tomada como representação direta da realidade descrita no texto.
II. No segundo trecho, o antecedente do pronome relativo 'que', em 'que orientam as práticas', é o mesmo termo ao qual se refere o pronome possessivo 'seu', logo em seguida, ambos remetendo às 'Diretrizes Curriculares Nacionais'.
III. No segundo trecho, o emprego de 'Embora' introduz uma relação de concessão, podendo ser substituído, nesse contexto, por 'mesmo que', sem que se altere a relação estabelecida entre a ausência de menção explícita na lei e a abrangência das Diretrizes Curriculares Nacionais.
IV. No terceiro trecho, a conjunção 'mas' articula-se ao conteúdo da oração anterior de modo a introduzir uma ressalva que relativiza a suficiência da existência formal da lei mencionada, sem negá-la.

Assinale a alternativa que apresenta as proposições CORRETAS. 
Alternativas
Q4427960 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga."
Assinale a alternativa em que o acento indicativo de crase está empregado de acordo com a norma-padrão e, assim como ocorre em 'em relação às suas próprias características', poderia ser suprimido sem prejuízo da correção gramatical.
Alternativas
Q4427774 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"Assisti recentemente a 'Nosso Segredo'..."

"Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores."

Com base na regência dos verbos empregados nos trechos acima, julgue as afirmativas.

I. O verbo 'assistir' está corretamente empregado com a preposição 'a'. Em outros contextos, porém, pode apresentar transitividade direta, sem o emprego de preposição, como em 'O professor assiste o aluno em suas tarefas escolares'.
II. O verbo 'assistir' foi empregado como transitivo indireto, razão pela qual a substituição de seu complemento indireto pelo pronome oblíquo 'lhe' está de acordo com as regras da norma-padrão.
III. O verbo 'implicar' está corretamente empregado sem preposição, pois, nesse contexto, atua como verbo transitivo direto e não rege complemento preposicionado. Entretanto, a construção 'implica em estratégias' também estaria correta.
IV. O verbo 'implicar' foi empregado incorretamente como transitivo direto, pois esse verbo é transitivo indireto. Assim, de acordo com a norma-padrão, a única forma adequada seria 'implica em estratégias'.

Assinale a alternativa que apresenta as proposições CORRETAS.
Alternativas
Q4427773 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças."

"Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais."

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão [...]"
Considerando os mecanismos de coesão presentes nos trechos acima, julgue as afirmativas a seguir.

I. A expressão 'Assim como sugere a ficção' retoma anaforicamente conteúdo já apresentado e estabelece entre a situação retratada na obra e os dados posteriormente apresentados uma relação de equivalência, pela qual a experiência ficcional é tomada como representação direta da realidade descrita no texto.
II. No segundo trecho, o antecedente do pronome relativo 'que', em 'que orientam as práticas', é o mesmo termo ao qual se refere o pronome possessivo 'seu', logo em seguida, ambos remetendo às 'Diretrizes Curriculares Nacionais'.
III. No segundo trecho, o emprego de 'Embora' introduz uma relação de concessão, podendo ser substituído, nesse contexto, por 'mesmo que', sem que se altere a relação estabelecida entre a ausência de menção explícita na lei e a abrangência das Diretrizes Curriculares Nacionais.
IV. No terceiro trecho, a conjunção 'mas' articula-se ao conteúdo da oração anterior de modo a introduzir uma ressalva que relativiza a suficiência da existência formal da lei mencionada, sem negá-la.

Assinale a alternativa que apresenta as proposições CORRETAS. 
Alternativas
Q4427767 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.

Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo." 

"Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores."

Com base nas regras de concordância verbal nos trechos acima, marque com V as afirmativas verdadeiras ou com F as falsas.

(__) Com expressões de porcentagem, a concordância verbal pode variar de acordo com a estrutura do sujeito, sendo possível, nesse contexto, o emprego do verbo no plural, como em '16% dos cuidadores relatam', ou no singular, como em '16% dos cuidadores relata'. 
(__) Caso a construção fosse 'Creches com pré-escolas são ambientes', também seria possível empregar o verbo no singular, pois, quando o sujeito é constituído por termos ligados pela preposição 'com', a concordância pode ser feita com o primeiro termo, destacando-o em relação ao elemento que o acompanha, ou no plural, quando se pretende evidenciar a participação conjunta dos dois termos.
(__) Se a construção fosse 'Fomos nós quem relatou que as crianças sofrem racismo', a forma verbal 'relatou' estaria de acordo com a norma-padrão, sendo igualmente possível o emprego de 'relatamos', em concordância com o pronome 'nós'.
(__) Se a construção fosse 'Aparece entre os ambientes mais citados a creche e a pré-escola', a concordância também estaria de acordo com a norma-padrão, pois, como o sujeito composto aparece depois do verbo, este pode permanecer no singular, concordando com o núcleo mais próximo.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA, de cima para baixo.
Alternativas
Q4427594 Português
Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna. Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026. 
"Assisti recentemente a 'Nosso Segredo'..."
"Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores."

Com base na regência dos verbos empregados nos trechos acima, julgue as afirmativas.

I. O verbo 'assistir' está corretamente empregado com a preposição 'a'. Em outros contextos, porém, pode apresentar transitividade direta, sem o emprego de preposição, como em 'O professor assiste o aluno em suas tarefas escolares'.
II. O verbo 'assistir' foi empregado como transitivo indireto, razão pela qual a substituição de seu complemento indireto pelo pronome oblíquo 'lhe' está de acordo com as regras da norma-padrão.
III. O verbo 'implicar' está corretamente empregado sem preposição, pois, nesse contexto, atua como verbo transitivo direto e não rege complemento preposicionado. Entretanto, a construção 'implica em estratégias' também estaria correta.
IV. O verbo 'implicar' foi empregado incorretamente como transitivo direto, pois esse verbo é transitivo indireto. Assim, de acordo com a norma-padrão, a única forma adequada seria 'implica em estratégias'.

Assinale a alternativa que apresenta as proposições CORRETAS.
Alternativas
Q4427593 Português
Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna. Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026. 
"16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo."
"Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores."

Com base nas regras de concordância verbal nos trechos acima, marque com V as afirmativas verdadeiras ou com F as falsas.

(__) Com expressões de porcentagem, a concordância verbal pode variar de acordo com a estrutura do sujeito, sendo possível, nesse contexto, o emprego do verbo no plural, como em '16% dos cuidadores relatam', ou no singular, como em '16% dos cuidadores relata'.
(__) Caso a construção fosse 'Creches com pré-escolas são ambientes', também seria possível empregar o verbo no singular, pois, quando o sujeito é constituído por termos ligados pela preposição 'com', a concordância pode ser feita com o primeiro termo, destacando-o em relação ao elemento que o acompanha, ou no plural, quando se pretende evidenciar a participação conjunta dos dois termos.
(__) Se a construção fosse 'Fomos nós quem relatou que as crianças sofrem racismo', a forma verbal 'relatou' estaria de acordo com a norma-padrão, sendo igualmente possível o emprego de 'relatamos', em concordância com o pronome 'nós'.
(__) Se a construção fosse 'Aparece entre os ambientes mais citados a creche e a pré-escola', a concordância também estaria de acordo com a norma-padrão, pois, como o sujeito composto aparece depois do verbo, este pode permanecer no singular, concordando com o núcleo mais próximo.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA, de cima para baixo.
Alternativas
Q4427587 Português
Os impactos do racismo na educação infantil


Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna. Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má", conta.

Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos", lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.

Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo", observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou "um pouco branca".

A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".

"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo", afirma a pedagoga.

Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento.

"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. "Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam", diz.

Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.


Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026. 
"Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças."

"Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais."
"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão [...]" Considerando os mecanismos de coesão presentes nos trechos acima, julgue as afirmativas a seguir.

I. A expressão 'Assim como sugere a ficção' retoma anaforicamente conteúdo já apresentado e estabelece entre a situação retratada na obra e os dados posteriormente apresentados uma relação de equivalência, pela qual a experiência ficcional é tomada como representação direta da realidade descrita no texto.
II. No segundo trecho, o antecedente do pronome relativo 'que', em 'que orientam as práticas', é o mesmo termo ao qual se refere o pronome possessivo 'seu', logo em seguida, ambos remetendo às 'Diretrizes Curriculares Nacionais'.
III. No segundo trecho, o emprego de 'Embora' introduz uma relação de concessão, podendo ser substituído, nesse contexto, por 'mesmo que', sem que se altere a relação estabelecida entre a ausência de menção explícita na lei e a abrangência das Diretrizes Curriculares Nacionais.
IV. No terceiro trecho, a conjunção 'mas' articula-se ao conteúdo da oração anterior de modo a introduzir uma ressalva que relativiza a suficiência da existência formal da lei mencionada, sem negá-la.

Assinale a alternativa que apresenta as proposições CORRETAS.
Alternativas
Q4427390 Português

A questão refere-se ao texto reproduzido a seguir.



IA de Quebrada: periferias precisam dominá-la para não serem dominadas


Veny Santos 


    Há que se dominar o saber antes que ele domine o ser e se torne capaz de produzir, moldar e condicionar imaginários a ponto de instrumentalizar o indivíduo — e não o contrário. Faz-se indispensável um elemento básico, tão escasso a depender de determinadas condições sociais: acesso. 


    Hoje, despejam-se em anúncios toneladas de ofertas de cursos sobre inteligência artificial, na maioria dos casos com foco em negócios e na eterna corrida para ser o mais competitivo. Porém, em se tratando de uma ferramenta tão nova e de veloz desenvolvimento, basta já torná-la, desde o início, um conhecimento deveras exclusivo para justificar seu valor? Não basta. 


    Àqueles e àquelas que ainda vivem sob o manto da exclusão digital, sem oportunidade de aprender a operar saberes novos, restam duas opções: esperar que mais uma tecnologia os engula ou dar seus pulos e abocanhar com firmeza a farta fatia que parece ser sempre oferecida para bocas poucas. 


    Uma fotografia. O Windows era 1998, mas o ano 2002. Um garoto, no auge dos seus 15 anos, concluía o que, à época, em seu bairro de periferia, parecia ser o auge da oportunidade para o futuro: o curso básico de computação. Tirando os quatro computadores, a infraestrutura em nada era inédita. Tratava-se da sala de uma casa, simples em sua materialidade, mas já deslumbrante e sofisticada na atmosfera moderna e digital que passava. Escrever, criar tabelas, organizar apresentações. Foi assim que aprendeu a utilizar o pacote Office. 


    O pai contou moedas, literalmente, para honrar as mensalidades. Ele, que se orgulhava de ter concluído um curso de datilografia na sua juventude, agora imaginava o filho digitando com a mesma destreza frases e mais frases num teclado outro. A chance de aprender a operacionalizar aquela tecnologia que prometia — e, de certa forma, cumpriu tal promessa —inserir a humanidade em uma nova era mudou sua relação com o saber. 


    Permitiu ao menino imaginar possibilidades de uso do computador e seus softwares para além da passividade desejada por quem resumia tal treinamento apenas à preparação para o mercado de trabalho. Também era, mas não só, até porque, sabe-se bem, este mercado diz privilegiar mentes criativas, entretanto pouco contribui para a emancipação técnica das massas. 


    A inteligência artificial precisa ser dominada nas quebradas, sem medo, mas com parcimônia. Cada região periférica não pode, mais uma vez, ficar à margem do que já é elemento central do desenvolvimento tecnológico e cujos impactos serão sociais, políticos, econômicos, culturais e psicológicos. Quanto a este último elemento, reforça-se o alerta para os cuidados com a própria relação subjetiva que as pessoas passam a ter com tal ferramenta. Como será impactada a elaboração do imaginário das novas gerações já ligadas a esta inteligência? Como serão condicionadas as cognições diante da ferramenta que busca ser o mais humana possível? 


    Sem treinamento, orientação, reflexão e regulamentação, o uso da IA se manterá restrito e, quando chegar às periferias, provavelmente dominará as mentes criativas podando seus imaginários e empacotando-os como mercadoria para uma realidade de trabalho limitante e exploratória. 


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/. Acesso em 15 Out. 2024.

No segundo parágrafo, a palavra “porém” interliga 
Alternativas
Q4427388 Português

A questão refere-se ao texto reproduzido a seguir.



IA de Quebrada: periferias precisam dominá-la para não serem dominadas


Veny Santos 


    Há que se dominar o saber antes que ele domine o ser e se torne capaz de produzir, moldar e condicionar imaginários a ponto de instrumentalizar o indivíduo — e não o contrário. Faz-se indispensável um elemento básico, tão escasso a depender de determinadas condições sociais: acesso. 


    Hoje, despejam-se em anúncios toneladas de ofertas de cursos sobre inteligência artificial, na maioria dos casos com foco em negócios e na eterna corrida para ser o mais competitivo. Porém, em se tratando de uma ferramenta tão nova e de veloz desenvolvimento, basta já torná-la, desde o início, um conhecimento deveras exclusivo para justificar seu valor? Não basta. 


    Àqueles e àquelas que ainda vivem sob o manto da exclusão digital, sem oportunidade de aprender a operar saberes novos, restam duas opções: esperar que mais uma tecnologia os engula ou dar seus pulos e abocanhar com firmeza a farta fatia que parece ser sempre oferecida para bocas poucas. 


    Uma fotografia. O Windows era 1998, mas o ano 2002. Um garoto, no auge dos seus 15 anos, concluía o que, à época, em seu bairro de periferia, parecia ser o auge da oportunidade para o futuro: o curso básico de computação. Tirando os quatro computadores, a infraestrutura em nada era inédita. Tratava-se da sala de uma casa, simples em sua materialidade, mas já deslumbrante e sofisticada na atmosfera moderna e digital que passava. Escrever, criar tabelas, organizar apresentações. Foi assim que aprendeu a utilizar o pacote Office. 


    O pai contou moedas, literalmente, para honrar as mensalidades. Ele, que se orgulhava de ter concluído um curso de datilografia na sua juventude, agora imaginava o filho digitando com a mesma destreza frases e mais frases num teclado outro. A chance de aprender a operacionalizar aquela tecnologia que prometia — e, de certa forma, cumpriu tal promessa —inserir a humanidade em uma nova era mudou sua relação com o saber. 


    Permitiu ao menino imaginar possibilidades de uso do computador e seus softwares para além da passividade desejada por quem resumia tal treinamento apenas à preparação para o mercado de trabalho. Também era, mas não só, até porque, sabe-se bem, este mercado diz privilegiar mentes criativas, entretanto pouco contribui para a emancipação técnica das massas. 


    A inteligência artificial precisa ser dominada nas quebradas, sem medo, mas com parcimônia. Cada região periférica não pode, mais uma vez, ficar à margem do que já é elemento central do desenvolvimento tecnológico e cujos impactos serão sociais, políticos, econômicos, culturais e psicológicos. Quanto a este último elemento, reforça-se o alerta para os cuidados com a própria relação subjetiva que as pessoas passam a ter com tal ferramenta. Como será impactada a elaboração do imaginário das novas gerações já ligadas a esta inteligência? Como serão condicionadas as cognições diante da ferramenta que busca ser o mais humana possível? 


    Sem treinamento, orientação, reflexão e regulamentação, o uso da IA se manterá restrito e, quando chegar às periferias, provavelmente dominará as mentes criativas podando seus imaginários e empacotando-os como mercadoria para uma realidade de trabalho limitante e exploratória. 


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/. Acesso em 15 Out. 2024.

A questão refere-se ao trecho reproduzido a seguir.


Àqueles e àquelas que ainda vivem sob o manto da exclusão digital, sem oportunidade de aprender a operar saberes novos, restam duas opções: esperar que mais uma tecnologia os engula ou dar seus pulos e abocanhar com firmeza a farta fatia que parece ser sempre oferecida para bocas poucas. 


O uso do acento grave em “Àqueles e àquelas” justifica-se pela regência

Alternativas
Q4427387 Português

A questão refere-se ao texto reproduzido a seguir.



IA de Quebrada: periferias precisam dominá-la para não serem dominadas


Veny Santos 


    Há que se dominar o saber antes que ele domine o ser e se torne capaz de produzir, moldar e condicionar imaginários a ponto de instrumentalizar o indivíduo — e não o contrário. Faz-se indispensável um elemento básico, tão escasso a depender de determinadas condições sociais: acesso. 


    Hoje, despejam-se em anúncios toneladas de ofertas de cursos sobre inteligência artificial, na maioria dos casos com foco em negócios e na eterna corrida para ser o mais competitivo. Porém, em se tratando de uma ferramenta tão nova e de veloz desenvolvimento, basta já torná-la, desde o início, um conhecimento deveras exclusivo para justificar seu valor? Não basta. 


    Àqueles e àquelas que ainda vivem sob o manto da exclusão digital, sem oportunidade de aprender a operar saberes novos, restam duas opções: esperar que mais uma tecnologia os engula ou dar seus pulos e abocanhar com firmeza a farta fatia que parece ser sempre oferecida para bocas poucas. 


    Uma fotografia. O Windows era 1998, mas o ano 2002. Um garoto, no auge dos seus 15 anos, concluía o que, à época, em seu bairro de periferia, parecia ser o auge da oportunidade para o futuro: o curso básico de computação. Tirando os quatro computadores, a infraestrutura em nada era inédita. Tratava-se da sala de uma casa, simples em sua materialidade, mas já deslumbrante e sofisticada na atmosfera moderna e digital que passava. Escrever, criar tabelas, organizar apresentações. Foi assim que aprendeu a utilizar o pacote Office. 


    O pai contou moedas, literalmente, para honrar as mensalidades. Ele, que se orgulhava de ter concluído um curso de datilografia na sua juventude, agora imaginava o filho digitando com a mesma destreza frases e mais frases num teclado outro. A chance de aprender a operacionalizar aquela tecnologia que prometia — e, de certa forma, cumpriu tal promessa —inserir a humanidade em uma nova era mudou sua relação com o saber. 


    Permitiu ao menino imaginar possibilidades de uso do computador e seus softwares para além da passividade desejada por quem resumia tal treinamento apenas à preparação para o mercado de trabalho. Também era, mas não só, até porque, sabe-se bem, este mercado diz privilegiar mentes criativas, entretanto pouco contribui para a emancipação técnica das massas. 


    A inteligência artificial precisa ser dominada nas quebradas, sem medo, mas com parcimônia. Cada região periférica não pode, mais uma vez, ficar à margem do que já é elemento central do desenvolvimento tecnológico e cujos impactos serão sociais, políticos, econômicos, culturais e psicológicos. Quanto a este último elemento, reforça-se o alerta para os cuidados com a própria relação subjetiva que as pessoas passam a ter com tal ferramenta. Como será impactada a elaboração do imaginário das novas gerações já ligadas a esta inteligência? Como serão condicionadas as cognições diante da ferramenta que busca ser o mais humana possível? 


    Sem treinamento, orientação, reflexão e regulamentação, o uso da IA se manterá restrito e, quando chegar às periferias, provavelmente dominará as mentes criativas podando seus imaginários e empacotando-os como mercadoria para uma realidade de trabalho limitante e exploratória. 


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/. Acesso em 15 Out. 2024.

A questão refere-se ao trecho reproduzido a seguir.


Àqueles e àquelas que ainda vivem sob o manto da exclusão digital, sem oportunidade de aprender a operar saberes novos, restam duas opções: esperar que mais uma tecnologia os engula ou dar seus pulos e abocanhar com firmeza a farta fatia que parece ser sempre oferecida para bocas poucas. 


Nesse trecho, o pronome oblíquo foi empregado para substituir

Alternativas
Q4427099 Português
Considere a oração a seguir:
“Como a chuva danificou o telhado da Câmara, a equipe de limpeza isolou o corredor.”

Sem alterar o sentido original do período e mantendo a correção gramatical, o termo destacado pode ser substituído corretamente por: 
Alternativas
Q4427096 Português
De acordo com as regras de concordância verbal da norma-padrão da língua portuguesa, assinale a alternativa que preenche corretamente a lacuna da frase a seguir:

- Todos os dias, os funcionários da limpeza __________ os corredores antes do início do expediente.
Alternativas
Q4427095 Português
Considere a frase a seguir: “A servente limpou todas as salas da Câmara”.
Na oração acima, o termo destacado exerce a função sintática de:
Alternativas
Q4426575 Português
Assinale a alternativa em que a vírgula apresentada é obrigatória.
Alternativas
Q4426574 Português
Sobre o período “Apesar de o motorista ter dirigido rápido, a passageira chegou atrasada a seu destino.”, é correto afirmar: 
Alternativas
Q4426573 Português
Sobre o período “A professora nova disse que o aluno que estudar terá sucesso”, é correto afirmar: 
Alternativas
Q4426572 Português
Assinale a alternativa que apresenta sujeito desinencial.
Alternativas
Respostas
41: E
42: E
43: A
44: A
45: D
46: C
47: E
48: D
49: C
50: B
51: A
52: A
53: C
54: C
55: D
56: C
57: C
58: E
59: D
60: A